quarta-feira, 12 de novembro de 2003

RECORDAÇÕES DO MEU PAI (II).
Era eu ainda menino e moço, quando uma vez acompanhei o meu Pai que ia tratar de qualquer assunto à junta de freguesia. Esta ficava junto à igreja, que por sua vez confinava com o cemitério. Inusitadamente, com algum desconforto meu, decidiu entrar no cemitério. Era um cemitério de aldeia, pequenino, que para além dos inevitáveis ciprestes, era dominado por uma enorme tília.
Deambulámos no meio das campas até que parámos perto do tronco da tília. O meu Pai olhou-lhe para a copa e setenciou: "Quero ser enterrado aqui, num caixão de madeira". Atrapalhado, perguntei-lhe porquê e ele então explicou-me que não queria abandonar o ciclo da vida. Assim se fosse enterrado naquele local, o seu corpo entraria em decomposição, seria devorado pelos vermes que por sua vez iriam fertilizar a terra, entrando posteriormente na seiva da árvore. "Assim, daqui mais ou menos uns 20 anos estarei a ressuscitar na forma de um rebentinho, que mais tarde alimentará um animal, etc..." Fiquei compreensivelmente horrorizado com a ideia, o que me pareceu ter-lhe dado um certo gôzo.
Acontece que morreu cêdo, vítima de um prematuro enfarte do miocárdio. Foi enterrado naquele mesmo cemitério e ao pé da grande tília.
Quase nunca lá vou, mas quando isso acontece, já não sei bem em que sítio está enterrado, mas fico por algum tempo a olhar para os ramos frondosos da tília na esperança infantil de descortinar algum rebento que me pareça diferente dos outros.
Sem me ter apercebido, foi naquela tarde, naquele pequeno cemitério, que tive a primeira noção do que poderia sêr um conceito de eternidade.
Era assim o meu Pai...

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 12 de Novembro de 2003

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