Quinta-feira, 31 de Maio de 2012

CASTELOS NO AR



Os anos que passei em S. Paulo, foram vividos num bairro sossegado, numa rua pequena, quase sem transito. No fim da rua existia uma simpática “lanchonete”, propriedade de emigrantes Portugueses, onde parava muitas vezes para tomar um café ou uma cervejinha gelada.
Nesse simpático “boteco”, costumava lá estar sentado a uma mesa, um rapaz novo, de ar triste, sempre à volta com leituras e tomando apontamentos num caderno de capa já muito surrada.
“Mora aqui perto”, informou-me certa vez o proprietário, “é de gente rica, mas é meio amalucado, o coitado.”
Nada me poderia ter despertado maior curiosidade, e assim não descansei enquanto não meti conversa com o Fábio, assim se chamava ele. Descobri um rapaz melancólico e introvertido mas de uma curiosidade imensa. Os livros que lia já não eram normais nem  para a época, nem para a idade: Descartes, Rosseau, Nietzsche e até Fernando Pessoa, entre outros.
A conversa foi ficando fácil, e passados uns dias já discutíamos animadamente temas filosóficos ligados à metafísica e à ontologia, como se esses “brain storms” durassem já há largo tempo. Um dia perguntei-lhe porque não estava na universidade. “Para quê” respondeu ele enfadado “lá só ensinam besteiras.”
Um dia deixou de aparecer.
Informou-me o proprietário da “lanchonete” que os pais o tinham internado numa instituição de saúde mental que não distava muito dali.
Um Domingo fui visitá-lo. Sentado num banco do grande jardim relvado e povoado de árvores decorativas, ele, surumbático, continuava agarrado aos seus livros. Não se entusiasmou com a minha presença, mas também não se sentiu incomodado. Após um silêncio um tanto embaraçoso, perguntei: “Então Fábio, porque o puseram aqui?” Com uma certa amargura na voz, fixou os olhos no céu acinzentado, e respondeu-me com siceridade: “Tive azar, cara. Repararam em mim!”
Já a caminho de casa continuava a meditar naquela resposta tão simples e tão verdadeira, e no intimo pensei na sorte que tinha em não terem ainda reparado em mim.
Na realidade, a mente humana é demasiado complexa para que seja possível traçar uma linha definida entre a total sanidade e um estado patológico. As várias dimensões, cognitivas, emocionais, comportamentais e tantas outras que percorrem incessantemente as volutas do nosso cortex cerebral, geram um tal leque de variáveis que, como diz o Povo na sua imensa sabedoria, de génio e  de louco todos temos um pouco.
Alguém de quem eu muito gostava e que sofria de uma grave esquizofrenia, disse-me um dia: “Os paranoicos constroem castelos no ar, os esquizofrénicos moram lá dentro e os psiquiatras afadigam-se à procura das chaves.”
Presa destas considerações, vou disfarçando a minha presença, não vão um dia, por azar, finalmente reparar em mim.

Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

O "REQUIEM" PELO EURO, OU A (DES)UNIÃO EUROPEIA.


Acerca da crise do Euro, existem duas correntes de opinião principais, que tendem a analizar o problema de forma totalmente oposta.
Por um lado, os que culpam a Alemanha e Angela Merckl pela sua obsessão pelas políticas restritivas, defesa intransigente de baixa inflação e limitação da actuação do BCE. Os outros, por seu lado, recusam esta tese e afirmam compreender essa obsessão, uma vez que os Países perdulários deverão fazer sacrifícios (nem que isso lhes mate a economia) e acertarem de vez os seus déficts comercial e orçamental, afirmando que os contribuintes Alemães não têm a obrigação de pagar os desmandos dos Países financeiramente corrécios.
Ora bem, parece-me necessário acertar aqui uns “detalhes” antes de embarcar numa ou noutra posição.
Claro que é compreensível a relutância dos contribuintes Alemães, mas se os contribuintes Europeus e Americanos tivessem tido a mesma relutância, provávelmente a Alemanha nem sequer existiria como um estado soberano. Após ter destruído a Europa duas vezes ao longo do Sec. XX, a Alemanha acabou por beneficiar de um enorme esforço financeiro por parte dos contribuintes Americanos, com o plano Marshall, e da Europa que haviam destruído, através do perdão das reparações de guerra, com algum  destaque para a actualmente martirizada Grécia, além de que em tempos de Guerra Fria, com metade do território sobre influência Soviética, não dispenderam um tostão em despesas militares e de defesa, deixando-as a expensas da defesa das suas fronteiras aos Países da Nato.
Claro que os equilíbrios financeiros são necessários e os ajustamentos urgentes, mas parece que se esqueceram de explicar aos contribuintes Alemães que o nosso endividamento externo corresponde a muitos postos de trabalho na Alemanha e que os nossos déficts comerciais são a razão de ser do tão elogiado superavit Germânico.
Pôr a questão do Euro como uma questão de solidariedade, é uma prespectiva estúpida!
Não foi por solidariedade que os Países vencedores da guerra ajudaram os Alemães. Arguto como era, Churchill apercebeu-se que a II guerra mundial teve origem nas tremendas condições impostas aos Alemães no Tratado de Versailles, e de toda a humilhação que daí derivou. Nessa altura declarou: “Agora que ganhámos a guerra, temos de ganhar a paz”, e assim nasceu o plano de ajuda à recuperação da destruída e exangue Alemanha.
Não há que pedir solidariedade a ninguém! Há é que olhar as possíveis consequências da actual política Europeia. A eventual, e quase certa saída da Grécia do Euro, arrastará fatalmente atrás de si  a desagregação da Moeda Única, e provávelmente da Europa, esse frágil edifício, construído pelo telhado e à revelia dos povos. Fala-se da tremenda queda do valor financeiro das moedas nacionais reabilitadas, mas parece esquecerem que isso acarretaria um enorme valorização do futuro Marco Alemão, o que inviabilizaria grande parte das exportações que fazem da Alemanha o País que é.
Sendo assim, provávelmente seria preferível que se acabasse de vez com esta bambuchata da União Europeia e do Euro, regressando humildemente à antiga CEE, que apesar do seu excesso de burocracia e da sua falta de democraticidade, não era um projecto mau de todo.

Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

AS VERDADES DE CADA UM

Aqui há tempos, no velório de uma pessoa amiga, encontrei um velho conhecido, engenheiro e físico, que trabalha no Laboratório Nacional de Engenharia Nuclear.
Trata-se de um homem interessante, de conversa fácil e fluída, com aquele tipo de espírito curioso que permite conversas mais densas e cerradas, hoje difíceis de manter no limitado universo de pessoas que nos cercam.
Veio a talho de foice, talvez por estarmos num velório, a questão da alma, da vida após a morte e fatalmente a conversa desaguou num tema teológico, no qual se punha a questão suprema: A existência, ou não existência de Deus.
A conversa animou-se, e eu, presa de todas as minhas dúvidas, argumentava que no limite não se conseguiria de forma nenhuma negar a sua existência, e parafraseava o meu Pai, portador de dúvidas iguais às minhas, que afirmava que a probabilidade do Universo, em toda a sua perfeição, ser obra o acaso, era a mesma que lançar ao ar um pacote de massa "sopa de letras" e cair no chão um dicionário já pronto.
Por seu lado, o meu amigo, usando toda a sua argumentação científica, afirmava que nos aceleradores de partículas já se conseguiam recriar os instantes precedentes ao "Big Bang" e nada provava qualquer interferência ou manipulação da energia e da matéria, para além do que aquilo que era matemáticamente previsível.
Com o decorrer da discussão, interroguei-o como é que ele aceitava fácilmente a premissa de que um electrão podia coexistir simultâneamente em dois locais diferentes, e lhe era tão difícil acreditar num Plano superior que comandasse o Universo, tivesse esse Plano o nome que tivesse.
A resposta fascinou-me! Com a maior das calmas, afirmou ele que isso era algo que tinha lógica perfeita no universo das partículas sub-atómicas.
Não me senti com vontade de prosseguir a conversa.
De facto, aquilo que para ele tinha lógica no microcosmos que ele aparentemente tão bem conhecia, consistia para mim num mistério tão absoluto, como o da própria existência de Deus.
Na realidade, todos os dogmas são por natureza impossíveis de explicar, e cada um acredita nos seus. Para alguns Deus existe e comanda a toda nossa existência, para outros, uma minúscula partícula eléctricamente carregada pode estar em dois lugares ao mesmo tempo...
Afinal, discutir para quê?

Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

EM BUSCA DA PARTÍCULA DE DEUS.


Nada para mim se aproxima mais da bruxaria, do que a chamada física teórica.
Assisto com a mesma curiosidade às experiências levadas a cabo no CERN, situado nas profundezas da montanha da fronteira Franco-Suíça, como a que assistiria às misteriosas manipulações de um alquimista para transmutar o chumbo em ouro..
Procura-se então o Bozão de Higgins, a que, significativamente chamam a “Partícula de Deus”.
Ao que parece, tudo o que tem sido estudado na física de particulas ( e são imensas, tais como o electrão, o protão, o fotão, etc...) apenas explica a existência de energia no Universo e não como se formou a matéria.
 Para que isto fizesse sentido, o Sr. Higgins teorizou uma partícula, o dito bozão, sem a qual a existência da matéria não era possível, e  consequentemente o Sol, a Terra e Vida sobre ela, começando pelo próprio Homem. Sim, poderá ser considerada a “Partícula de Deus” , pelo menos como  condição primeira para a nossa existência.
É isto que tão activamente procuram no LHC, um anel com trinta Km. de extensão, no qual se podem acelerar partículas até às fronteiras da velocidade da luz com a singela finalidade de as fazer colidir frontalmente.
Explicava um cientista que a colisão em si não era interessante, pois o que importava eram os seus resultados, que consistiriam em mapear com rigor absoluto as trajectórias das sub(?) partículas daí resultates. Dizia o senhor que era como fazer colidir frontalmente dois Fórmula 1 a 300 Km/h e definir a trajectória e o ponto de queda de cada um dos destroços resultantes, do maior ao mais infímo parafuso.
Acredito piamente na utilidade disto tudo e dos biliões de Euros enterradeos nas montanhas Franco-Suíças, mas tal como Higgins, apenas suspeito de que esta espantosa experiência traga resultados práticos à humanidade, para além do prazer quase iniciático que parece extasiar os físicos teóricos e outros esotéricos cientistas .
Mas será que trará benifícios?
Tudo isto depende das quantidades de energia aplicadas ao Acelerador ( o tal LHC ) de modo a que as partículas adquiram tão estonteântes velocidades e esta energia tem vindo a ser progressivamente aumentada, o que tem levado os catastrofistas a temer pela segurança do Mundo. Houve até quem intentasse uma providência cautelar para parar a experiencia, argumentando que haveria a possibilidade de se criar um “buraco negro”, o qual poderia sugar a Terra e pôr  assim termo à sua existência como planeta, tal como a alegoria em que a cobra começa a comer a própria cauda até desaparecer.
No que me diz respeito, qualquer das situações é positiva. Se houver benefícios para a humanidade, óptimo! Se criassem o tal “buraco negro”, o apocalipse seria quase instantâneo, levando todos consigo sem dor nem sofrimento. Não ficava ninguém para carpir e não haveria saudade dos desaparecidos. O mundo morreria de súbito ataque cardíaco em vez de sucumbir ao longo e doloroso cancro que parece ser o seu destino.
E convenhamos, seria de uma extrema ironia que o Homem destruísse o Mundo, não à bomba, como o previsto, mas sim a tentar desvendar os mistérios da Criação, tal Eva tentada a comer  o Fruto Proíbido da àrvore do Conhecimento.

ACERCA DO SEXO DOS ANJOS.

No momento em que os Otomanos  tomavam a cidade de Constantinopla, pilar da religião Católica, e terminava de vez o Império Bizantino, as autoridades eclesiásticas, em vez de prestarem o ânimo e o conforto espiritual aos soldados que desesperadamente defendiam a cidade, discutiam séria e longamente se os anjos teriam sexo ou não.
Esta estéril discussão, que não salvou nem a Igreja nem o Império, tornou-se no paradigma da conversa inútil e desligada da realidade, que estimula o mero diletantismo em detrimento da adopção de soluções práticas e expeditas.
Assim como os clérigos Bizantinos discutiam o sexo dos anjos, enquanto as muralhas ruíam fragorosamente e o sangue escorria pelas ruas de Constantinopla, assim os líderes Europeus continuam a sua própria versão, modernizada e de carácter aparentemente técnico, a histórica discussão Bizantina.
Discutem eles a Europa! Uma Europa gizada e implementada à revelia dos Povos, construída a partir das cúpulas em vez dos alicerces e que em virtude de todo este voluntarismo e atropêlo democrático, se encontra em crise profunda. Avançou para o Euro não cuidando das assimetrias dos vários Estados, criando assim as tristes situações que hoje sofremos na pele e que ameaçam tornar-se num cancro capaz de cooroer todo o Projecto Europeu.
Os vários diagnósticos para a saída da crise estão feitos, as sugestões estão dadas, mas em vez da Europa se unir para defender a sua integridade, tem vindo a abandonar os mais vulneráveis à sanha da matilha de chacais que mordem permanentemente as canelas das economias mais fracas, provocando uma dolorosa sangria com consequências eventualmente mortais.
Enquanto as muralhas Europeias se vão esboroando às mãos de políticos incompetentes e de eleitorados egoístas e boçais, a unidade vai-se esvaíndo ao som tronitroante de declarações de princípio, amplificadas até ao absurdo pelos media, e que mais não são do que a repetição da discussão Bizantina acerca do sexo dos anjos.
Cá pelo País, na presssecução do “ideal” Europeu, temos discussões do mesmo tipo, dando tremenda importância ao pormenores e esquecendo a verdadeira essência dos problemas. Para o constatar, basta seguir o debate parlamentar ou acompanhar qualquer das comissões de inquérito.
Enfim, uma verdadeira lástima...

Segunda-feira, 7 de Maio de 2012

SEBASTIANISMO SOCIALISTA

A Europa socialista exultou!
Depois de uma verdadeira travessia no deserto, o Partido Socialista Francês (PSF), lá conseguiu eleger um PR por uma margem de cerca de 1,5%, mais por demérito da frenética e zigzagueante política de Sarkozy, do que por algum mérito de um aparelhista, cinzento e carreirista, falho de carisma e senhor de promessas irrealizáveis, como é apanágio de qualquer socialista emergido do Sec. XX.
Curiosamente, tanto Holande como António José Seguro, parecem clones do tipíco socialista "funcionário", que mais do que ter rasgos de inteligência política, governa para os "aparatitch" partidários que o puseram no poleiro, com todos os pequenos vícios e interesses corporativo/partidários associados a este comportamento político, autoconvencendo-se de que está a governar para o seu País.
Holande vai começar por desiludir os seus correligionários e depois disso, todos os Franceses, como afirmava com notável sagacidade política, Marine Le Pen.
O gaudio que reina no nosso depauperado PS, afirmando entusiasticamente o fim da aliança Merkozy, depressa passará a desilusão, com a inevitável constatação do aparecimento de uma aliança Merkolande, que apesar de alguma cosmética para "épater le bourgeois", pouco vai diferir da anterior.
E assim vai a Europa, de finanças germanizadas, de regimes liberais timoratos e de socialistas incompetentes. Nada que seja novo nesta Europa, que nunca foi unida e jamais o será.
Enquanto isto, Seguro e "sus muchachos" exultam, pois pensam que na manhã de espêsso nevoeiro que envolve a Europa, emergiu finalmente o seu D. Sebastião, triunfante e de rosa na lapela.

Sábado, 5 de Maio de 2012

SUSPENDENDO A CIDADANIA !

Manuela Ferreira Leite aventou uma vez, que para proceder às difíceis reformas que se tornavam imperiosas à altura e que hoje estão em curso, se deveria suspender a democracia por um período de 6 meses.
Não deixa de ser bem pensado, mas políticamente muito incorrecto...
Pela parte que me toca, na qualidade de Natural e Habitante deste País tão maltratado, prefiro suspender a minha Cidadania!
Não que ela valha muito, aliás, tanto lhe gastaram o nome que passou a valer muito pouco mais do que o gélido "zero absoluto".
Assim, e porque a Cidadania, no actual contexto, não vale mais que uma acção de uma empresa falida ou do que um "depósito a prazo" no extinto BPN, declino das propaladas vantagens do seu usofruto.
Dantes eu tinha uma Pátria!
Dantes eu tinha um País!
Dantes eu pertencia a um Povo!
Agora, a Pátria tornou-se um conceito nebuloso e até despristigiante(?).
O País foi diluído numa espécie de creme de legumes, diligentemente atomizado por uma "varinha mágica" política, pomposamente apelidada de "Ideal Europeu", que eu, de todo em todo desconheço.
O Povo diz-se Europeu, por muito que a Europa regularmente o faça sentir uma espécie de "pária".
Definitivamente, suspendi a minha Cidadania!

Sexta-feira, 4 de Maio de 2012

A GUERRA DOS CLICK'S

Costuma afirmar-se que a guerra é a continuação da diplomacia por outros meios.
De facto a evidência indica que tanto a diplomacia como a guerra, se destinam básicamente a obter vantagens geo-estratégicas, financeiras e económicas, de um país sobre outro, e assim mostra a História, que quando a diplomacia não funciona, parte-se então para a guerra.
Hoje em dia, em pleno sec. XXI, o patriotismo, o sentido de dever e o espírito de sacrifício, são valores há muito abandonados nesta Europa decrépita e incapaz, pelo que encetar uma guerra no seu sentido tradicional se tornaria quase impossível, e ainda bem que assim o é.
A imagem das baixas militares e civis, dos bombardeamentos, das hordas de refugiados procurando desesperadamente salvar a vida, passou a ser-nos servida ao jantar, de preferência acompanhada de um suculento bife e um vinho de marca. A imagem tornou-se de tal maneira corriqueira, que desde que a guerra não seja "nossa", acabamos por vê-la como vemos qualquer super-produção de Hollywood, comentando com os nossos botões a sorte que temos em não viver em tão violentas paragens.
Mas na verdade estamos a viver uma guerra, não tão sanguinária como as guerras tradicionais, mas igualmente devastadora: A guerra dos Click's.
Se neste mundo globalizado e de interdependências absolutas, no qual o poder político acabou totalmente capturado pelo poder financeiro há algo de verdadeiramente real, é a capacidade de mover uma verdadeira guerra, com os mesmo objectivos, clicando apenas no rato do computador.
E assim as agências de "rating" determinam os juros que cada um vai pagar, baseadas em critérios de grande subjectividade, os especuladores afiam as garras, e com uma sanha de ganancia selvagem, atacam as dívidas soberanas dos Países económicamente mais débeis, enquanto que aqueles que poderiam e deveriam ser solidários, assobiam distraídamente para o lado, pensando apenas na sorte de não viverem nesses países, enquanto tal como nós, saboreiam o bife e a cerveja geladinha.
E assim, à custa do sacrifício e o sofrimento dos povos, de click em click, se vão arruinando nações, retirando-lhes a soberania, destruindo as suas economias, ferindo o seu tecido social, e tal como os traficantes de droga, fornecendo apenas o dinheiro suficiente para uma parca sobrevivência, aumentando os juros de tal modo que a dívida se torna imcumprivel, justificando "a posteriori" os pressupostos que serviram de base aos ataques iniciais.
Estamos pois em estado de guerra. Uma guerra aberta e feroz pela sobrevivência, em que só com o esforço, o patriotismo e espírito de sacrifico, conseguiremos levar a melhor.
No 1º de Dezembro de 1640, Miguel de Vasconcelos foi defenestrado por traição a Portugal. O hábito de assim castigar os traidores perdeu-se nas brumas do tempo, e por um lado ainda bem, pois se assim não fosse Portugal tornar-se-ia intransitável, tal a profusão de cadáveres a juncar o chão de Lisboa e não só.

Quarta-feira, 2 de Maio de 2012

RESSUREIÇÃO DO "VELHO DA MONTANHA"

Nascido em 2003, este blogue foi posteriormente transferido para os blogues do Sapo, que me fizeram o supremo favor de o eliminar, perdendo assim muitos textos que teria gostado de recuperar. Paciência...
Após todos estes anos, decidi proceder à ressureição deste tão antigo blogue, dado que em virtude da minha reforma, vou tendo pouco para me entreter e o "Velho da Montanha" poderá contribuir para aplacar a proverbial neurastenia do "fareniente".
Alimentar um blogue, não é coisa fácil! Há que encontrar temas interessantese e a devida inspiração para os tratar de forma adequada, e isso, no dia em que se torna uma obrigação, torna-se simultâneamente num fardo que deixa de apetecer carregar.
Deste modo, tentarei ir actualizando o blogue de forma regular, mas enquanto não tomo o devido balanço, irei partilhar, via Facebook, alguns dos posts que na época, mais gostei de escrever.

Terça-feira, 2 de Março de 2004

O VELHO MUDOU DE CASA.
Já um pouco farto da minha cabana bafienta, lá no topo da montanha, decidi mudar de casa, pelo que agora me encontrarão no seguinte endereço:

http://ovelhodamontanha.blogs.sapo.pt (Actualmente desactivado)

Convido pois, todos os meus amigos e leitores a me visitarem no meu novo poiso e já agora, não se esqueçam de actualizar a vossa lista de links.

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 2 de Março de 2004

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2004

UM LIVRO?!
Provávelmente por mera simpatia, o Pedro Guedes, autor do Ultimo Reduto, desafia-me a passar os meus pensamentos intímistas à forma de livro, no que foi seguido por alguns visitantes regulares do meu blogue que sempre me manifestaram grande simpatia.
Costuma-se dizer que um homem só se realiza após ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro.
Pois bem, pelo que me toca, tive quatro filhas, por môr da minha profissão já plantei centenas de árvores, faltando-me aparentemente escrever um livro.
Ora eu acho que, de uma forma abençoada, este blogue acaba por ser o meu livro, pelo que me realizo completamente com escritos que insisto em reputar de despretenciosos. Pretencioso sim, seria ter o despudor de publicar um livro que provávelmente só interessaria a meia dúzia de pessoas.
Para além disso há ainda um enorme e insuperável obstáculo: Não sei escrever um livro!
Tenho ideias repentinas sobre as coisas, tenho uma escrita demasiado sintéctica e tenho a maior dificuldade em arranjar uma "cola" que dê consistência aos meus textos. Seria o mesmo que querer construir uma casa, tendo os tijolos mas sem possuir o cimento.
Agradeço a simpática e tentadora ideia do Pedro Guedes, mas acho que podemos partir do principio que este blogue é o meu LIVRO.
Nesta prespectiva acho que poderei afirmar a minha plena realização: Tive filhos, plantei árvores e, finalmente, parece que escrevi um livro.

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 27 de Fevereiro de 2004

A MORTE DO DINOSAURO (Fábula acerca da auto-extinção)

O grande predador bateu com a cauda no chão, enquanto que com uma das pequenas mãos tentava evitar que um parasita se lhe entranhasse na pele escamosa. O seu aspecto era deplorável. As escamas, antes brilhantes e coloridas, apresentavam-se acizentadas e baças, deixando entrever por baixo um esqueleto que anteriormente se escondia atrás de uma portentosa massa muscular. As garras há muito tinham deixado de estar aceradas e temíveis, esboroando-se e partindo-se por manifesta falta dos minerais necessários.
Com melancolia o enorme animal fitou a paisagem desolada que se desdobrava perante a sua vista. Uma terra calcinada pelas geadas, pontilhada ali e acolá por alguns arbustos mais rústicos. As colónias de liquens emprestavam um tom amarelado a algumas manchas esparsas, no meio das quais alguns roedores tentavam desesperadamente encontrar o seu sustento. Era esta a paisagem que se estendia até ao anel de gêlo que o cercava e que, lenta e inexorávelmente, se ia apertando em torno de si.
Nem sempre tinha sido assim.
Ainda se lembrava bem das planícies viçosas e verdejantes, povoadas por animais de todos os tamanhos que pastavam paulatinamente ou se dessedentavam nos pequenos lagos que se formavam nas depressões. Era o seu terreno de caça e bastava um rugido seu para que tudo em redor se quedasse estático e silencioso, naquela expectativa intemporal que precede o pânico da fuga desordenada.
Um dia, vinda de sul, uma nuvem de poeira avermelhada começou a invadir os céus, em questão de dias adensou-se tanto, que o sol quase só podia ser adivinhado. A temperatura começou a descer com uma regularidade sistemática até que um dia avistou a norte o brilho frio e azulado do gêlo que avançava.
Entretanto as plantas foram fenecendo e os animais que delas se alimentavam foram rareando.
Na longa peregrinação para sul, fugindo ao glaciar que parecia cada vez mais próximo, as circunstâncias iam piorando de tal forma, que pela primeira vez na sua já longa vida sentiu as agruras da fome.
Um dia estacou estarrecido: À sua frente, vindo de sul, deparou-se com outro glaciar!
Terminara a caminhada!
Ainda se ia conseguindo alimentar parcamente de alguns roedores, que no fundo consumiam mais energia para ser apanhados, do que a que forneciam àquele enorme corpo debilitado. Os glaciares de norte e de sul acabaram por se unir, primeiro a nascente e depois a poente. O anel de gêlo foi-se apertando cada vez mais, de tal forma que, olhasse para que lado olhasse, apenas conseguia divisar uma parede de gêlo assustadoramente mais próxima.
Na sua ânsia de fuga, o animal começou a caminhar ao longo do glaciar, na fútil esperança de encontrar uma brecha que lhe permitisse escapar daquele gelado e mortal abraço.
De repente estacou! Algo no interior da espêssa camada de gêlo lhe chamara a atenção.
Cristalizado no glaciar jazia um animal da sua espécie. Apanhado na armadilha branca, parecia vivo, apresentando um ar de espanto que dava uma aparência de vida ao corpo mumificado da criatura.
Confrontado com a visão de alguem da sua espécie, confundido pelo desespero e pelo sofrimento, o animal soltou um uivo, um uivo prolongado e pungente como o uivo de uma sereia de nevoeiro em noite fria e de cerração. Era um uivo que encerrava todas as emoções: A saudade da vida passada, o mêdo de um futuro cruel e a angústia de uma solidão profunda.
Nesse momento único e sublime tudo à sua volta mudou. De repente o prado floriu, manadas de animais corriam e saltavam despreocupadas e o grasnar dos pássaros que evoluiam sob a luz intensa do sol, ecoava nas alturas.
Tomado de súbita alegria, o animal sentiu a vida fluír-lhe no corpo. Endireitou-se, fitou com intensidade a múmia que parecia olhá-lo de dentro do gêlo, lançou um urro de alegria e num arranque fulminante correu na sua direcção.
A enorme massa do seu corpo embateu com violência na parede de gêlo e com o crâneo desfeito, o animal escorregou lentamente para o solo enquanto a vida lentamente o abandonava.
Terminara enfim o seu sofrimento e ele morria suavemente acompanhado pelas dôces recordações de um passado feliz e despreocupado.

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 27 de Fevereiro de 2004

Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2004

ESTUPEFACÇÃO E DESGOSTO.
Por que acho que não devemos ignorar a unica certeza da Vida, tenho-me regularmente pronunciado algumas vezes sobre a morte. Comentei-a quando a vi rondar a vida de um dos meus netos quando ele foi atropelado, comentei-a também aquando a trágica morte em directo do futebolista Miklos Fehér. Falei mesmo sobre a lenda do encontro em Samarcanda, que é o paradigma da sua inevitabilidade. Todos estes comentários sempre partiram do princípio que é da natureza humana a luta pela vida, a luta contra a morte.
Infelizmente nem sempre é asssim.
O filho de um grande e velho amigo, um rapaz saudável, educado e sociável, embora reservado, decidiu, assim sem mais nem menos, pôr termo à sua vida.
Fazia um mês de diferença da minha terceira filha, exactamente vinte e nove anos. Lembro-me de quando nasceu e uma fotografia tirada no calçadão de Copacabana lembrou-me que bonito bébé ele era. Cresceu, foi bom aluno, tirou o seu curso de Psicologia e arranjou um emprego a que se dedicava com afinco. Tudo parecia ir bem.
Na noite de Sábado de Carnaval, após o jantar, disse aos pais que ia dar uma volta e só se voltou a saber dele quando o seu cadáver foi encontrado dilacerado pelas rochas da encosta norte da Ponte da Arrábida.
A camara de vigilância de um estabelecimento próximo registou a chegada do automóvel. Arrumou-o cuidadosamente, retirou a antena do rádio e guardou-a no porta luvas, depois fechou o carro e ao afastar-se saíu do raio de acção da referida câmara. Sabe-se agora o desfecho de tão trágico passeio.
Algumas reflexões prepassam na minha cabeça: Não as suas razões, pois essas levou-as com ele, o que me atormenta é imaginar a dôr interior, a angústia e o sofrimento que poderão levar alguém a tão tresloucado acto e só essa reflexão por si própria, provoca-me um imenso desgosto.
Diz-se muita vez que o suícidio é uma fuga, que é um acto inútil. Talvez, no entanto deve haver um limiar de sofrimento intímo e silencioso que parece legitimá-lo.

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 25 de Fevereiro de 2004

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2004

RECORDAÇÕES DO MEU PAI (IV)
Na linha de outros posts sobre este assunto (se alguem os quiser consultar poderá procurar nos arquivos de Novembro, entre os dias 12 e 13), apetece-me hoje falar do meu Pai, de quem tenho cíclicamente dolorosas e verdadeiras saudades.

Quando eu era criança, um amigo muito querido lá de casa oferecia todos os anos o pinheiro de Natal. Era sempre um abêto, nativo da Serra da Cabreira, muito bonito, bem formado e com dimensões bastante consideráveis. Igualmente todos os anos, o referido abêto era colocado com as suas parcas raízes num vaso com a ideia de que iria posteriormente ser plantado no jardim. E não há dúvida que todos os anos, a transplantação, acompanhada de um certo ritual, era formalmente executada. Na realidade, nenhuma das árvores sobreviveu ao ar frio e fortemente marítimo que sempre nos assolava o jardim a partir do mês de Janeiro.
Um ano a árvore era maior do que o costume. Imediatamente se instalou a discussão de como iria ser instalada, já que a sua altura era superior ao pé-direito da casa.
Corta-se-lhe o tôpo, alegava a minha Mãe, "Nem pensar!" retorquia ele, afirmando que isso desfiguraria a árvore.
Então corta-se por baixo, aventei tímidamente eu. "Está doido? E vamos destruir-lhe as raízes? Como a plantaremos depois?"
O impasse parecia instalado até que surgiu a ideia luminosa: A casa era térrea, com soalho de madeira sobre uma caixa de ar, portanto com um machado partiram-se umas tábuas no canto da sala e lá se encaixou o enorme abêto, sem lhe danificar o tôpo ou as raízes.
Passou o Natal.
A árvore, como as outras transitou para o jardim e lentamente faleceu, até se tornar num lenho sêco e enegrecido.
No canto da sala, o buraco aberto para salvar a árvore permaneceu.
Cuidadosamente dissimulado por um tapête, foi resistindo ao tempo. De inverno, o frio penetrava por ele, obrigando-nos todos a ficar mais junto da lareira enquanto o meu Pai resmungava acerca de um pertenso carpinteiro que ele nunca chamara.
Um dia, anos mais tarde, uma tia nossa, desavisada, caíu no buraco. Foi um sarilho! Ficou magoada, barafustou, gritou e acabou no hospital transportada por uma ambulância tão barulhenta como ela.
Nesse dia, com ar grave e severo, o meu Pai tomou uma decisão: "Temos de mudar de casa!"
Dois ou três meses depois mudámos de casa, deixando definitivamente para trás um buraco nêgro e traiçoeiro no soalho, além de vários cadáveres de árvores de Natal espalhados pelo jardim.
E era assim o meu Pai...

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 20 de Fevereiro de 2004

Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2004

10.500
Jamais me passaria pela cabeça, naquela escaldante noite de Julho, em que o termómetro marcava mais de 40º e Portugal ardia plácida e insistentemente (fosse pela mão dos incendiários, pela incompetência política ou pela falta de técnica dos seus bombeiros), que esta aventura que apelidei de "VELHO DA MONTANHA" chegaria alguma vez às 10.500 visitas.
Havia descoberto a Blogosfera uns dias antes e a ideia de fazer uma espécie de diário electrónico, a partir do qual pudesse partilhar com os mais intímos alguns pensamentos e reflexões, pareceu-me uma boa ideia, até porque quase todos os que amo se encontram longe.
As reflexões e pensamentos, de carácter intimísta, que me parece serem a base deste blogue, não parecia que tivessem um interesse desmedido e por isso, à medida que o contador evoluía e os "feedback" se multiplicavam, a minha surpresa aumentava.
É certo que muito enriqueci o meu conhecimento, que partilhei muitas opiniões, que concordei, que discordei, que agradeci e que me zanguei.
Nesta altura, e ao olhar para o numero 10.500, penso naqueles que nos antecederam, que se interessaram, que se interrogaram, que se angustiaram e que se alegraram pela pura partilha de reflexões, pensamentos e ideias em geral, como decerto se alegrariam por ter tido ao seu alcance uma ferramenta tão universal e poderosa como a que nós temos hoje em dia.
A todos os que visitaram este blogue, que eu que não sou dado a modéstias, considero despertensioso, envio os meus sinceros agradecimentos por tudo o que partilharam comigo.

Por uma questão de curiosidade, abaixo transcrevo o meu primeiro post:

A CHEGADA À BLOGOSFERA.
Após uma trajectória de intercepção, caracterizada por um larguíssimo angulo de ataque, efectuei algumas órbitas de observação à Blogosfera que se me apresentava, convidativa, mas misteriosa e talvez um pouco assustadora.
O panorama não era claro, mas o apêlo era algo irresistível e assim decidi-me a aterrar, disposto a enfrentar tanto os perigos como as compensações.
Portanto, aqui estou eu! Arranhando a textura da superfície, um pouco assustado e de certa forma solitário, tentando perceber básicamente o que é e o que não é, qual Ciber-Hamlet, presa da suprema dúvida existencial.

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 29 de Julho de 2003



Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 19 de Fevereiro de 2004

Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2004

SERÁ QUE DEUS SE TORNOU INVISÍVEL?...
Qual não foi o meu espanto quando ao consultar o magnífico blogue do Henrique, que tem o título "E Deus tornou-se visível", me deparei com este único post:

Tenham paciência!
Os meus últimos posts provocaram um ataque de um leitor despeitado que, depois de lançar para o ar algumas insinuações acabou por ser desmascarado e revelou a sua intenção destrutiva. E como não posso esperar que toda a gente seja bem-educada e não estou para ser insultado nem responder na mesma moeda, estou a pensar o que hei-de fazer. Estou indeciso em relação a continuar com o blog porque já sei que reacções desse género são inevitáveis e não tenho formação para lidar com gente mal-educada. Para já, os últimos posts passarão para o antigo testamento e este novo testamento fica em stand-by, até ver. Tenho a informação necessária para o refazer se assim o decidir.


Como este único anúncio não prmite "feedback", atrevo-me a usar o meu blogue para lançar um apêlo ao Henrique:

Meu Caro. Como em tudo, e você sabe-o bem, há do melhor e do pior. Esse tipo de energúmeno que se infiltra nas nossas caixas de "feedback" e parte para a simples destruição, insulto gratuíto e ofensa soez, só se sente compensado quando os seus intentos resultam em estrago visível.
São como esses vírus informáticos que a coberto de insuspeitas mensagens se infiltra nos nossos sistemas com a única intenção de os destruír.
Por isso, caro amigo, não lhes faça a vontade. Não prive os seus amigos verdadeiros de tão agradável e substancial convívio. Desistir agora seria a vitória do destruidor.
Claro que você é, e será sempre senhor da sua vontade, mas não queria deixar de lhe fazer sentir que seria injusto privar-nos do seu convívio, só porque um idiota (e há tantos...) se entreteve a chateá-lo e a ofendê-lo. Parafraseando o pôvo, e neste caso com redobrada propriedade, venho lembrá-lo que "vozes de burro não chegam ao céu"!
Amigo Henrique, daqui lhe lanço um apêlo: Não nos abandone!

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 16 de Fevereiro de 2004

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2004

UMA SINGELA HISTÓRIA DE AMÔR.
(Factos reais passados há muito pouco tempo...)

Eram um casal normalíssimo! Ambos pessoas de idade, Bodas de Ouro cumpridas, filhos criados, netos amigos e alguns bisnetos ainda balbuciantes. No fundo, uma Vida em conjunto com todas as suas alegrias e tristezas. Afinal nada mais que um casal unido pudesse esperar após mais de 50 longos anos de convívio, primeiro de paixão, depois de amôr, seguidos fatalmente de amizade, dedicação e até de uma saudável dependência.
Até que um dia ele adoeceu.
Adoeceu de uma doença degenerativa, longa e dolorosa e que infelizmente só poderia têr um desfecho possível.
Ela, uns anos mais nova, mulher corajosa e dedicada, decidiu cuidar do marido doente, declinando com doçura as várias soluções que os amigos e familiares iam sugerindo, numa mesericordiosa prespectiva de a poupar ao trabalho e ao sofrimento.
Foram três longos anos! Anos de dôr e dedicação.
De dôr, por ver a pessoa com quem tinha partilhado toda uma Vida, presa de sofrimento e incapacidade das quais sabia bem não haver retôrno possível.
De dedicação, pois jamais um esgar de impaciência, desistência ou desespêro lhe prepassaram sequer pela fronte apesar do penosos sofrimento que decerto a assolava.
O máximo que se lhe escutava, no seu jeito dôce e paciente, é que estava muito cansada, embora de boa saúde.
Um dia ele morreu!
Ela, mulher forte e saudável, passadas 24 horas sucumbiu a um fulminante, e aparentemente inexplicável ataque cardíaco.
Compungido, o médico que assistia o casal, explicou à família atónita que o fim daquele tremendo stress, longo de três anos, tinha subitamente cortado a produção de adrenalina, estimulada incessantemente pelos anos de calvário, o que lhe provocara aquele inesperado ataque de coração.

Ainda bem que a ciência nos ajuda e explica o que por vezes parece inexplicável.
Na minha prespectiva, mais terrena e prosaica, prefiro pensar que ela morreu simplesmente de amôr!

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 10 de Fevereiro de 2004

Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2004

A BALANÇA DE PESAR AS ALMAS (II).
Confesso que fiquei surpreendido com a ressonância que o post anterior obteve, não só no meu blogue, mas também no blogue do Henrique, além de alguns outros de diversas proveniências.
Por outro lado, ainda mais me espantei com a diversa tipologia dos comentários: Uns completamente simbólicos, outros de índole mística, outros ainda de cariz mais científico. Também os havia meramente filosóficos e até tão somente cinematográficos.
É realmente curioso observar para que lado cai a areia quando a lançamos ao ar!
De certa forma, de uma maneira um tanto subreptícia, nuns casos, e totalmente descarada em outros, deu-me a ideia de ter sido posta em causa a minha afirmação de que o facto dos "21 gramas" serem o pêso da alma, não era sequer uma ideia original (sendo isto totalmente independente da qualidade do filme, é claro!).
Para estes cépticos, embora em 1988 a Internet fosse apenas um projecto pouco menos que experimental, deixo aqui dois links que abordam o assunto, há já muito tempo ventilado: Nem que seja por uma questão de curiosidade, passem uma vista de olhos neste link e neste outro.

“The inescapable conclusion is that we have now confirmed the existence of the human soul and determined its weight,” Dr. Becker Mertens of Dresden said in a letter printed in the German science journal Horizon." (Penso que não será exacatamente o "24 Horas", e embora seja uma citação, decerto será possível confirmá-la.)

A única coisa que pretendo é não acharem que estou a levantar uma questão nova sobre o título de um filme. Essa prática não me assenta e confesso não têr paciência para algum tipo de insinuações.
Ao Henrique deixo os meus agradecimentos por ter encarado de forma tão desasombrada e descomplexada um "desafio" que, pelo menos para mim, foi extremamente gratificante.

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 9 de Fevereiro de 2004

Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2004

A BALANÇA DE PESAR AS ALMAS.
Fui hoje confrontado com o anuncio da estreia de um filme da autoria de Alejandro Gonzalez Igñarritu, basco certamente, com o título de "21 Gramas" e com o subtítulo em inglês "how much does life weigh?"
Eu não vi o filme, e não tenho mesmo a certeza se o verei, mas sei onde o autor foi beber a inspiração.
No final dos anos 80 li uma pequeníssima notícia no jornal, que de imediato referenciei ao meu círculo mais íntimo (ainda hoje conferi e todos se lembram), que noticiava um insólito estudo levado a efeito por um médico alemão. Este clínico trabalhava numa enfermaria onde permaneciam vários doentes em estado terminal e, colocando balanças de precisão nos pés das camas, verificou um decréscimo súbito de 21 gramas no preciso momento da morte. O mais estranho, referia o médico, é que o pêso de 21 gramas era uma constante em todos os óbitos, independentemente do pêso ou sexo da pessoa falecida.
Na altura, fascinado com a notícia, opinei com a minha habitual arrogância que 21 gramas era o pêso físico da "alma".
Hoje, quase vinte anos depois e recordado por um realizador de cinema que considera os 21 gramas o pêso da "vida", e não própriamente da "alma", volto a questionar-me sobre o assunto.
A considerar verdadeiro este facto, que acredito ser científico, considero que os 21 gramas são realmente o pêso físico da Alma. Segundo julgo saber, e o Henrique poder-me-á esclarecer, segundo a lei da entropia nada se perde mas tudo se transforma, sendo que me pergunto para onde irão esses 21 gramas, de forma súbita e repentina, já que as explicações de perda de fluídos, etc... jamais poderão explicar este fenómeno e a perda de energia também não serve, pois a energia em si própria não tem pêso, pelo menos mensurável, penso eu.
Estes 21 gramas não foram inventados pelo Sr. Igñarritu, pois eu já conhecia a existência deste fenómeno há cerca de vinte anos, portanto deve haver, e há com certeza, registos destas experiências. Assim pergunto-me como é que a ciência não se debruça sobre este mistério?
Talvez mesmo porque seja um mistério, condição com a qual a ciência não se dá bem! Talvez porque a ciência se preocupe apenas em demonstrar o que já se sabe. Talvez porque a ciência não seja realmente ciência, ou mesmo porque a ciência talvez seja cobarde.
Na parte que me toca, 21 gramas é um pêso razoável para uma Alma e ficaria bem satisfeito se alguem conseguisse constatar, no momento exacto da minha morte, que o meu corpo havia perdido exactamente 21 gramas.

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 6 de Fevereiro de 2004

Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2004

ENCONTRO EM SAMARCANDA.
O destino por vezes parece que nos é imposto. De uma forma ou de outra, na sorte e no azar, somos compelidos a imputar ao destino tudo o que acontece, principalmente o que não nos é particularmente favorável ou aquilo que no nosso intímo sabemos ser de nossa responsabilidade.
Acerca deste assunto, muito tenho meditado na lenda do “Encontro em Samarcanda”.
Reza a história que um rico mercador árabe, percorrendo o buliçoso mercado de Bagdad, encontra a Morte e esta informa-o que dentro de três dias lhe vai levar o mais querido dos seus servos. Aflito, o mercador chama o servo, dá-lhe um saco de moedas e ordena-lhe que viaje para Samarcanda, cidade longinqua e cosmoplita, situada na movimentada Rota da Sêda, enganando assim os desígnios da Morte.
Dois dias depois, deambulando pela cidade, o mercador encontra de novo a Morte, e esta, surpreendida pergunta-lhe: “Que estranho! Que fazes aqui?”. Atrapalhado, o mercador respondeu: “Exerço o meu míster. Porque perguntas isso?” ao que a Morte responde: “Por nada de especial. Apenas fiquei espantada pois tenho amanhã um encontro com o teu servo em Samarcanda e não te esperava encontrar na Cidade.”
Esta lenda, com todo o seu encanto, levanta no entanto uma questão importante: E se o mercador não tivesse enviado o servo para Samarcanda? Será que desta forma enganaria a Morte?
Esta fábula soberba revela-nos um pouco do mistério que cobre a inevitabilidade, ou não, dessa aparente fatalidade a que chamamos destino. Trata-se pois de uma questão sem resposta: Ou servo morreria em Samarcanda, ou a Morte, fatal e inevitável, não teria marcado o seu encontro com ele se não se tivesse verificado a fuga para Samarcanda.
História sábia, não há dúvida! E com ela apenas podemos aprender uma coisa: De alguma forma podemos talhar o destino, pois de contrário será o destino fatalmente a talhar-nos a nós, o que não é rigorosamente a mesma coisa!
Pelo menos, há algo que o destino nos pode, e deve, proporcionar: Uma longa e séria reflexão sobre aquilo que pensamos e esperamos da Vida, porque na realidade o único destino inevitável que mais tarde ou mais cêdo nos espera, é o verdadeiro "Encontro em Samarcanda", já que a Morte é a única inevitabilidade que conhecemos a partir do dia em que nascemos.

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 5 de Fevereiro de 2004

Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2004

CRÓNICA MARCIANA.
(Dedicado ao grande mestre Ray Bradbury)

Foto da superfície de Marte.

A planície inóspita e avermelhada estendia-se à sua frente como um mar encapelado de ondulação estática e cristalizada. Olhou para a sua direita e espreitou para o fundo de uma gigantesca fenda aberta na planície como se um ciclope a tivesse cavado com as mãos. Não lhe conseguia vêr o fundo, fosse por a luz solar não o atingir, fosse pela enorme profundidade a que se encontrava.
Meditou na presistência da corrente de água, já há muito desaparecida, e nos milhares de anos que levara a cavar tão formidável fôsso, enquanto, por qualquer razão ainda não desvendada se dirigia, revolta e furiosa, para o polo, aonde ainda hoje permanecia sob a forma de uma espêssa e quase continental camada de gêlo.
Pequenos redemoínhos alaranjados, criados por uma aragem presistente e contínua que corria rente ao solo, dançavam à sua volta como se fossem azougados diabretes. Súbitas e fortes rajadas de vento surgiam e desapareciam quase instantâneamente, provocando uma sonoridade parecida com o estalar de um chicote que, devido à rarefacção da atmosfera, soava de uma forma quase longínqua.
A constante poeira alaranjada toldava-lhe a visão dificultando-lhe a marcha.
Estava cansado! Cansado e sedento!
Decidiu que era hora de descansar e premiu com decisão o botão vermelho de um pequeno dispositivo que transportava na mão.
Instantâneamente acenderam-se as luzes e um batalhão de técnicos, envergando batas e toucas brancas, percipitou-se para ele ajudando-o a desenvencilhar-se do complexo fato sensorial que envergava, abrindo fechos, desligando conexões e procedendo a complexas leituras instrumentais.
Meio cambaleante sentou-se numa cadeira a um canto da sala e bebeu quase de um trago o copo de água que alguém lhe oferecia.
Passados cerca de oito minutos, na superfície poeirenta e agreste do planeta vermelho, um pequeno robot com cerca de metro e meio de altura e de aspecto vagamente humanoide, virou-se lentamente em direcção ao sol, desdobrou um complexo par de paineis solares e imobilizando-se por completo, iniciou a sequência automática de recarga das baterias, ficando a aguardar, com aquela paciência de que só as máquinas são capazes, que um outro cientista se enfiasse no sofisticado fato sensorial, enviasse uma ordem por rádio, para oito minutos depois recomeçar a sua infindável peregrinação pelas sêcas e agrestes areias marcianas.

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 4 de Fevereiro de 2004

Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2004

A RAPÔSA E AS UVAS.
Decerto que todos conhecerão a famosa fábula da rapôsa que tenta esforçadamente chegar a um cacho de uvas numa latada. Ao constatar a impossibilidade, conclui: "Estão verdes, não prestam!" e apressa-se a seguir o caminho. Nessa altura cai uma parra, e ouvindo o ruído, pensando tratar-se de uma uva, a rapôsa vira-se num guloso ápice.
É uma fábula velha como o tempo e que todos lemos em alturas diferentes da nossa vida e na qual tanta vez nos estribamos para critícar os outros.
Aparentemente fui fazendo uma série de escolhas ao longo da Vida, escolhas que fui sublimando numa espécie de pensamento filosófico global, e que tem servido de suporte a um alargado conjunto de posições morais que de certa maneira tenho vindo a pregar, não sem uma pontinha de soberba.
São posições sobre a minha forma de estar e de encarar a Vida, sobre as quais muitas vezes me manifesto, por vezes com alguma sobranceria, arrogando para mim uma certa superioridade moral.
Há tempos, por exemplo, discutia com um amigo meu o fenómeno do consumismo. No fundo, dizia eu, embora difíceis, as minhas escolhas tinham-me levado para um caminho que contrariava toda a cultura de consumismo que me rodeava, contentando-me eu apenas com o pouco necessário para levar uma vida digna, etc...
À noite, naqueles momentos de meditação que antecedem o sono, lembro-me amiúde da fábula da rapôsa e das uvas. Será que escolhi mesmo? Será que foi uma escolha assumida ou apenas um mero mecanismo de defesa, criado por alguém que de facto não conseguiu atingir os patamares materiais de quem o rodeia? E se me saísse uma lotaria, seria a mesma pessoa?
Eu gostava de acreditar que sim, mas a dúvida, há anos instalada, parece impossível de derimir.
Até que ponto somos senhores das nossas escolhas? Até que medida nos podemos orgulhar de nós próprios? Até que ponto não seremos simples joguetes de complicados mecanismos psicológicos criados para nos manter equilibrados?
De qualquer forma, se o caso fôr esse, a existência de um mecanismo tão paliativo dá-me a prova insofismável da suprema sabedoria e bondade do Criador que tão engenhoso dispositivo instalou em nós, protegendo assim a integridade psicológica da sua criação, tal como um electricista coloca um fusível para proteger o resto de uma complexa instalação eléctrica.

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 2 de Fevereiro de 2004

Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2004

FALTA DE INSPIRAÇÃO.
Ultimamente tenho andado com uma enorme falta de inspiração. Eu bem me desculpo de que tenho pouco tempo, mas na verdade, tempo não é problema. Se estou inspirado, poucos minutos gasto a escrever um texto mínimamente aceitável, pelo menos pelo meu critério, que no que me respeita costuma ser mais exigente do que em relação a terceiros.
Assim, e porque acho que escrever por escrever não é o mais importante, vou deixar de impôr a mim próprio a quase obrigação de produzir algo diáriamente. Continuarei a cultivar o gôsto pela escrita, mas apenas quando a inspiração me tocar. Dizia Picasso que a inspiração é esquiva e que devemos estar muito atentos e aproveitá-la quando ela se digna visitar-nos.
Desta forma, e seguindo o conselho do grande mestre da pintura, vou estar atento e quando a inspiração se dignar a visitar-me, vou aproveitar ao máximo.
Desculpem-me o desabafo!

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 30 de Janeiro de 2004
NEM DE PROPÓSITO...
Acerca do meu último post, que no fundo reflectia sobre o inevitável fim da vida, o Citador dá-nos hoje uma frase extremamente oportuna e que me faz pensar nos tantos "acasos" que comigo têm ocorrido. A citação é a seguinte:

"O fim da vida não é a felicidade, mas o aperfeiçoamento"
Madame de Stael

Ele há realmente coincidências que dão para pensar...

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 30 de Janeiro de 2004

Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2004

CONSELHOS DEVERAS ÚTEIS.
Depois do verdadeiro trauma nacional causado pela morte do desafortunado Micki Fehér, o nosso Bisturi, homem da medicina e com a verdadeira vocação para a preservação e manutenção da vida humana (basta passar os olhos pelo seu magnífico blogue) e que diáriamente luta nos hospitais contra os avanços da Morte, pública no seu blogue um pequeno guia relativo ao suporte básico de vida. Pela sua actualidade, oportunidade e utilidade, a todos aconselho uma vista.
Espero nunca estar em semelhante situação (claro que não passa só de esperança, pois o acontecimento será inevitável, mais cêdo ou mais tarde), mas se, e quando acontecer, peço a Deus, que tanto me tem ouvido, que seja atendido pelo Bisturi ou por alguém da sua Raça.

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 29 de Janeiro de 2004