quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A QUESTÃO CATALÃ.

Instalou-se na opinião pública e publicada (provávelmente de forma deliberada), que o Referendo na Catalunha, corresponderia inevitávelmente a uma declaração unilateral da independência Catalã, a qual tem sido um desejo centenário das gentes da Catalunha.

A verdade é que, o referendo limita-se a fazer uma pergunta tão simples, como a de perguntar aos Catalães se gostariam ou não de ser independentes.

Pelo que tenho lido e ouvido na imprensa e televisão Espanholas, fonte oficiais afirmam que apenas uma minoria ruidosa deseja a independência, ao contrário de alguns intelectuais e uma tradicional “maioria silenciosa”.
Se é realmente assim, sendo o referendo declarado ilegal, e portanto as suas consequências nulas, não entendo a enorme ofensiva do Governo de Madrid, pois se, como eles proclamam, ganhasse o NÃO, o assunto morria ali, é tão cedo não voltaria à baila.

Portanto só me resta à conclusão de que Rajoy teme que ganhe o SIM, o que embora não tivesse consequências a nível imediato, obrigaria a uma revisão profunda do regime autonómico Espanhol, o que levaria a demoradas e exigentes negociações. O próprio Pablo Iglesias, líder do Podemos, afirmou na televisão que considerava impensável uma declaração unilateral de independência por parte da Catalunha.

E Rajoy, presa dos seus temores, e evidenciando os ancestrais tiques hegemónicos do reino de Castela tomou a pior das decisões, que foi a deslocação de um tremendo aparelho repressivo para a Catalunha, prendendo responsáveis políticos, apreendendo material eleitoral em nome de uma legalidade conferida pela Constituição de 1978, esquecendo um princípio fundamental que demonstra que a repressão violenta é o melhor cimento para uma rebelião e uma fábrica de Nacionalistas entre as hordas, aparentemente numerosas, dos que se declararam indecisos.

Parece difícil que este braço-de-ferro não acabe muito mal, e definitivamente, parece-me impossível que acabe com o Nacionalismo Catalão.

Interessa aqui referir, algo que tem sido escamoteado: é verdade que a Constitição de 1978 foi referendada pelos Catalães por uns expressivos 90%. O que é omitido, é que após esse referendo, a Constituição voltou ao Tribunal Constitucional, que procedeu a várias alterações que vieram desvirtuar considerávelmente o texto referendado, situação que só um ingénuo acreditaria não ter sido premeditada.

Mais tarde ou mais cedo, o assunto vai voltar a ensombrar a política Castelhana, e será inevitável que um dia o SIM ganhe inequívocamente, a bem ou a mal.
O medo, justificado, de que o País Basco e a Galiza tenham as mesmas tentações da Catalunha, poderia, na mão de políticos inteligentes e corajosos, transformar a Espanha numa Confederação, mudança que terminaria com os conflitos internos, e possibilitaria uma paz política que, aí sim, até poderia tornar possível uma União Ibérica, dando mais força à Península e tornando-a mais homogénea, através de um Governo Confederado, em moldes a negociar com muita cautela e habilidade.

Enquanto o Governo Central de Espanha não perder os seus tiques hegemónicos de superioridade política e social, a Espanha será sempre um foco de instabilidade, que arrasta consigo toda uma impossibilidade de progredir para soluções modernas e inteligentes, tanto a nível Peninsular, como Internacional.

domingo, 24 de setembro de 2017

BREVE RESUMO HISTÓRICO DA SITUAÇÃO CATALÃ, FACE CASTELA, E POSTERIORMENTE AO CENTRALISMO ESPANHOL.


Nota prévia: A Dinastia de Trastâmara, fundada pelo rei Henrique II, governou o reino de Castela de 1369 a 1516 . 

(Estes textos não da minha autoria, mas recolhas informação na internet, recolhidos e dispostos através da técnica copy/paste)

No Sec. XII, os novos reis de Trastâmara não estavam acostumados ao pactismo e sistema político da confederação catalano-aragonesa. A Catalunha, em concreto, não viveu bem essa situação. Os novos reis tentaram centralizar o reino ignorando as Cortes catalãs. Além disso, as constantes guerras pela conquista do mediterrâneo conseguiram enfraquecer a economia. A Peste Negra veio reduzir a população. Esta cada vez encontrava-se mais dividida. O comércio já não dava resultados e a economia agrária sofria de desigualdade prante o comércio. Paralelamente, os reis de Trastâmara emprenderam conquistar Nápoles, numa altura em que os episódios de terramotos não ajudaram a levantar cabeça. Toda esta situação cresceu até rebentar definitivamente numa guerra civil na Catalunha onde a Diputació de la Generalitat, que exigia ao rei que respeitasse as Cortes catalãs, defronta-se contra o rei Tratâmara. A população, por sua vez, dividida, também entra em guerra. A guerra é qualificada de inútil pelos historiadores porque, além de trazer mortes, não resolveu a situação de probresa económica e falta de respeito pela soberania catalã. Tanto que em 1474 o sucessor aragonês Fernando II o Católico casa com Isabel I de Castela, reforçando a unificação.

A 12 de outubro de 1492 o navegador português Cristóvão Colombo descobre América sem saber. Pensa que chegou às Índias. A descoberta é comunicada aos Reis Católicos no mês de abril de 1493 em Barcelona. É o início dos Descobrimentos. A Catalunha passa a ser um reino periférico dentro da confederação hispânica que com os descobrimentos e casamentos reais consegue dominar a Europa e o mundo durante os séculos à seguir. A Catalunha, arruinada por tantas guerras, perde protagonismo e os mercenários catalães irão descobrir mundo sob a marca Espanha. Os Bórgia, uma das famílias nobres mais conhecidas do Renascimento, eram valencianos, ou seja, pertenciam aos chamados Países Catalães, mas passam a serem espanhóis dentro deste período. Aliás, trabalharam muitas vezes pelo interesse de Castela. Foi o caso dos tratados que separaram as conquistas hispânicas das portuguesas. No entanto, o catalão foi a língua usada em Roma durante a estadia dos Bórgia.

Carlos V de Espanha, neto dos reis católicos, concretiza tal domínio. Quando foi coroado rei, o mundo estava quase todo aos seus pês. Herdou  por parte do pai os Países Baixos, Flandes, Artois, Luxemburgo e a France-Comté. Do seu avo materno, herda Aragão, Catalunha, Valência, Mallorca, Nápoles, Sicília, Sardenha e as fortalezas de Buia e Trípoli. Da sua avó materna, herda Castela, Navarra e as Índias castelhanas. A morte do seu avo paterno recebe o título de arquiduque de Áustria, Estíria e Tirol. Em 1519 é escolhido imperador do Sacro Império Germânico. Contudo, a coroa hispânica acrescentou nos anos a seguir Portugal e as colónias americanas, asiáticas e africanas portuguesas. A coroa castelhana usou o sistema de confederação para manter imenso reino. Assim, cada reino tinha as suas próprias leis, moedas, cortes ou línguas. Mas as tendências absolutistas castelhanas, a política do pacto colonial em favor de Castela, o pouco respeito devido às Cortes, o absenteísmo do monarca ou a imposição do castelhano na Península Ibérica, deu o início do final de tal domínio. Os primeiros a se revoltar contra a coroa hispânica foram os Países Baixos. Depois vieram a Catalunha e Portugal contra o rei Felipe IV.

No caso dos catalães, o matrimónio com a coroa castelhana, impossibilitou-os de comerciar e foram obrigados a virar-se para Lisboa ou Sevilla. Além disso, a língua catalã caiu em decadência, pois os reis tentaram impor o castelhano, fazendo que a própria nobreza catalã se virasse para Madrid. O Século de Oro espanhol contrasta com a Decadência catalã. A pequena burguesia é afastada. Impossibilidade de fazer carreira política, a nobreza catalã é marginalizada. A isto, acrescenta-se o contato dificultoso com os turcos. A crise económica arrastrada do fim da Idade Média não é superada.

Paralelamente, na Península Ibérica, o conde duque de Olivares pretendia iniciar um processo de centralização total do reino através dos impostos e da constituição de uma armada unificada, para satisfazer a política agressiva e expansionista do monarca Habsburgo; projeto que tem o nome de “Unión de Armas”. A pobreza nos campos e os anos de decadência vividos na Catalunha fazem que em 1626 as Cortes catalãs rejeitem parente Filipe IV o projeto de “Unión de Armas”, além de lhe apresentar uma grande lista de queixas e reivindicações.

Mas a guerra na Europa não espera e Richelieu ataca os Habsburgo em território catalão. As Constituições catalãs diziam explicitamente que a Catalunha só defende território nacional, ou seja, catalão. Para provocar uma revolta, Richelieu trás premeditadamente a guerra para a Catalunha. Em 1640 a obrigação de alojar tropas castelhanas, o abuso dos militares e as consequências derivadas da guerra provocam grande desagrado entre a população catalã. Em 7 de junho do mesmo ano, durante a festividade do Corpo de Deus, um ceifeiro (em catalão “segador”) é morte, o que a sua vez leva à morte do Conde de Santa Coloma, a maior autoridade da Catalunha nessa altura. Começa a Revolta dos Segadores. Castela exige à Portugal de contribuir militarmente e ajudá-la a sufocar a rebelião. Portugal nega-se e inicia por sua conta uma guerra paralela para restabelecer a sua própria soberania. É a chamada Guerra de Restauração.
O final do confronto é desfavorável para a Catalunha que perde na guerra e vê como a França se apodera do condado do Rosilhão e parte da Sardenha através do Tratado dos Pirineus. Em Andorra a situação é vivida com receio, a questão da soberania andorrana também está em jogo. Portugal terá de batalhar até 1668 para ver recuperada a sua independência.

Durante a Conferência de Münster, Vestfália, a Catalunha foi representada por Josep Fontanella que tentou defender e, sobretudo, conseguir que alguém ouvisse o ponto de vista catalão sobre a necessidade de desligar a Catalunha da monarquia hispânica. Esta atitude também foi apreciada por outras nações durante a Conferência. Foi o caso dos Países Baixos e de Portugal. Ambas, tal como a Catalunha, estavam integradas a coroa castelhana, mas todas desejavam abandoná-la.

O Século XVIII catalão também esteve marcado pelo Iluminismo. Quando a Catalunha perde a 11 de Setembro de 1714, o novo monarca decide fechar todas as universidades catalãs para evitar assim a proliferação de informação, cultura e memória. O castelhano é imposto na área das letras na única universidade que ficou em pê, a Universidade da Cervera.

Ao longo do século XIX a Catalunha representa a força industrial da Espanha. A nação catalã é a primeira a introduzir a Industrialização através do vapor em primeiro lugar e depois através da eletricidade.
 Por outro lado, a nação espanhola é todavia agrária. Tem dificuldades para se adaptar à nova indústria e impõe travões à renovação. O monarquia hispânica não quer  adaptar-se ao liberalismo económico e devido a isso o século XIX catalão e espanhol está marcado por guerras constantes.
Na segunda metade do século XIX a Catalunha é diferente da Espanha. Tem língua própria, cultura própria, tradições próprias e visões próprias. Além disso, a nação catalã construiu-se através de uma sociedade moderna, industrial e urbana. Esta sociedade procura consolidar os seus rasgos pessoais. O movimento da Renaixença deve ser, por tanto, compreendido como a consequência de uma sociedade industrial e adaptada aos temos que decorrem.

Países Catalães é a expressão ou conceito nacionalista catalão para referir o conjunto dos territórios de língua e cultura catalã. O termo aparece no século XX porque no século XIX a situação dos territórios que formam os Países Catalães permitia atingir com mais facilidade o conceito de Grande Catalunha.

Setmana Tràgica é o nome que a historiografia deu à repressão vivida em Barcelona na semana do 15 de julho ao 2 de agosto de 1909. A Espanha encontrava-se em guerra contra Marrocos nas já habituais guerras arrastadas do século XIX entre Espanha, Marrocos e França. Então, duranta a Segunda Guerra de Marrocos, a Espanha exige reservistas catalães, mas estes não se querem apresentar. Sindicatos, anarquistas e socialistas aproveitam para promover uma manifestação em Barcelona que exiba o mal estar catalão para com a guerra colonial marroquina. Assim, durante a semana do 15 de julho até ao 2 de agosto de 1909, saem à rua milhares de pessoas para protestar contra o monarca e este reage com violência. Manda as tropas e estas reprimem arbitrariamente as manifestações, aplicam processos militares e penas de morte. Francesc Ferrer i Guàrdia, membro da Escola Moderna, morre por pena de morte. A imprensa internacional informa da tragédia com grande repulsão. A semana do 15 de julho até o 2 de agosto de 1909 fica conhecida como Semana Trágica.

Devido ao crescimento do proletariado, aos desejos independentistas catalães e bascos, a crise económica pela contração dos mercados devido a Primeira Guerra Mundial e à pouca aceitação da autodeterminação das colónias, o monarca aceita o Golpe de Estado de Primo de Rivera, que encontra o apoio no exército, na burguesia castelhana e na Igreja Católica. Influenciado pelo fascismo italiano, o sistema de governo de Rivera reprimiu o catalanismo e toda amostra de catalanidade, radicalizando o nacionalismo castelhano, suprimindo a Mancomunitat, proibindo uma vez mais o catalão, os símbolos nacionais da Catalunha e do País Basco, etc. Perante a situação de ditadura e repressão o catalanismo mobilizou-se volta do Estat Català, liderado por Fancesc Macià, tentando fazer fracassar a ditadura através de um assalto que se estava a preparar no sul da França e que pretendia partir da Andorra até chegar a Barcelona e forçar a queda da ditadura. A Liga Regionsalista, o nacionalismo catalão mais moderado, perdeu prestígio, por estar contra, o Estat Català chegou a máximos históricos durante as eleições da Segunda República.
Em 1929 a ditadura de Primo de Rivera cai definitivamente ao mesmo tempo que o crise da Bolsa Americana deixa a Europa economicamente pior do que já estava. Afonso XIII resolve convocar eleições municipais e estas serão finalmente o fim da monarquia Espanhola. O 12 de abril de 1931 os partidos republicanos ganham em território espanhol com maioria e por plebiscito. O monarca prefere abandonar para evitar um banho de sangue. Abdica e a República é proclamada por segunda vez. As eleições foram totalmente favoráveis ao partido político Esquerda Republicana da Catalunha, uma união entre diferentes partidos independentistas e republicanos, entre os quais estava Estat Català.
A vitória republicana fez saír à rua a população que celebrou o final da ditadura e da monarquia. Na Catalunha, Francesc Macià, líder do ERC e futuro presidente catalão, aproveita a situação para proclamar a República Catalã em fraternidade com os povos da Península Ibérica. Mas a proclamação não foi bem aceite pelo governo de Espanha, embora fosse uma proclamação federalista.
A partir desse momento, foi elaborado um Estatuto para a Catalunha aprovado com 99% dos votos por referéndum e uma participação de 75%. O novo estatuto dava oficialidade a língua catalã, restabelecia o autogoverno da Catalunha e designava a nação como um estado. Mas o Estatuto foi totalmente modificado pelo governo republicano espanhol que não via com bons olhos que a Catalunha se achasse um estado autônomo. Depois de modificado o Estatuto de Núria passou a reconhecer a Catalunha como uma simples região autónoma, algo totalmente contrário à aquilo que tinham expressado os catalães nas urnas. 

Em Espanha o nacionalismo espanhol radicalizou-se virando para o lado fascista. Não se aceitava de nenhuma das maneiras que a Catalunha e o País Basco se pudessem governar a eles próprios. As tentativas de criar uma República federada que soubesse incorporar as nações catalã, basca e castelhana fracassavam num contexto político altamente tenso. Isso veio revoltar a direita contra o governo republicano que tinha iniciado tímidas reformas agrária e progressistas, tais como o sufrágio feminino. Mas as reformas não eram aceites pelas classes que dominavam desde a monarquia, tais como latifundários, Igreja Católica e elite agrária.

Efetivamente o ditador italiano, Mussolini, e alemão, Hitler, assim como outros países fascistas, resolvem ajudar o golpe militar fascista na Espanha. Durante 3 anos a guerra condena a morte milhões de pessoas e obriga a mais de meio milhão de pessoas a pedir refúgio. O destino principal foi a França e a Andorra. As nações catalã e basca colocam-se do lado republicano, enquanto que em Castela –de forma geral– o fascismo ocupa quase todo o território.

O Ebro representou o ponto decisivo da guerra. A Catalunha foi o último território a resistir a ofensiva fascista e na Batalha do Ebro não resistiu por mais tempo. O governo catalão foi obrigado a refugiar-se em França. Então entra o fascismo vitorioso em Espanha e proclama uma ditadura chefiada por Francisco Franco. A ditadura franquista foi uma das mais repressivas da Europa, ao mesmo nível do nazismo e fascismo Italiano.

O regime de Francisco Franco impôs a censura e a exterminação da oposição. Foi particularmente duro para com catalães e bascos porque pretendeu exterminar qualquer sinal identitário catalão e basco. As empresas catalãs foram boicotadas. Entraram em recessão. A economia entrou numa fase de paralisia. Fome, autarquia, corrupção, proibições energéticas, paragem industrial e crescimento do mercado negro. 

Os anos 1960 e sobretudo os 1970 são considerados como o ponto de retrocesso da ditadura. Em 1959 a resistência antifranquista decide finalmente sair a rua e não se esconder mais. A partir deste momento a oposição ao regime é cada dia mais visível e isso faz incrementar a pressão policial na sociedade. Os Fets del Palau de la Música marcam, neste sentido, o início do fim do medo. O dia 19 de maio de 1960 é celebrada uma homenagem ao poeta catalão Joan Margall no Palau de la Música. O regime proíbe os assistentes de cantarem El cant de la Senyera, poema de Joan Margall. Mas o público desobedece e a subsequente repressão não passa desapercebida. Entre os detidos está o futuro presidente da Catalunha, Jordi Pujol.

Os jovens começam a perder medo e pouco a pouco saem também a rua. O regime resolve tentar parar a situação com repressão sistemática. Mas as publicações clandestinas têm cada vez mais apoio. Foi neste contexto que se criou a Gran Enciclopèdia Catalana. Os membros dos partidos políticos em clandestinidade aumentam e a música em catalão começa a representar uma forma de resistência ao regime. Em 1961, por exemplo, a criação do grupo de música catalão Setze Jutges marca o início da Nova Cançó (do catalão, Nova Canção). A Nova Cançó foi o nome que se deu o renascimento do catalão no âmbito musical. Proibido durante anos, o catalão foi revitalizado através da música rock. Deste período destaca-se o grupo SAU e a sua canção “Boig per tu”.

No mês de junho de 1977 as primeiras eleições democráticas após o início da Guerra Civil de 1936 colocam Adolfo Suárez, da Unión de Centro Democrática, um antigo franquista, na presidência do país. Na Catalunha os partidos em favor de um Estatuto novo ganham com maioria absoluta. Mas o partido independentista Esquerda Republicana da Catalunha(Esquerra Republicana de Catalunya) ainda não foi legalizado. Mesmo assim, no dia Nacional da Catalunha, 11 de Setembro de 1977, milhões de catalães saltam à rua para reclamar “llibertat, amnistia, Estatut d'Autonomia” (do catalão, Libertade, amnistia, Estatuto de autonomia).
O governo de Adolfo Suárez é então obrigado a restituir definitivamente o governo catalão e permitir o regresso do presidente catalão, Josep Tarradellas, exiliado devido à ditadura, o que acontece a 23 de outubro de 1977.
Paralelamente, no dia 6 de dezembro de 1978 a nova Constituição do reino de Espanha é aprovada por referendum. Estabelece um regime de monarquia parlamentar com Juan Carlos de Bourbon na chefia de Estado e com uma estrutura federada, chamada popularmente “café para todos”. Quer dizer, a Constituição é criticada por analistas em ciências políticas, historiadores e independentistas catalães e bascos, além de republicanos espanhóis. Isto porque durante o processo constituinte a população nunca foi perguntada sobre a Constituição, nem sobre se achava que devia passara para regime republicano. Também porque as nações catalã e basca são obrigadas a viver em regime de região autonómica (eufemismo para não falar de Estados federados) junto de outras autonomias artificiais. Para diferenciá-las, a Constituição fala de regiões históricas ou nacionalidades (eufemismo para não reconhecer explicitamente a existência de nações) e regiões autonómicas (simples regiões transformadas artificialmente em estados). Além disso, a língua castelhana volta a ser imposta e o catalão e basco recebem caráter de co-oficiais, estabelecendo desta maneira uma hirarquia entre línguas. Outros elementos acontecidos nos anos 1980 permitiram reforçar estas avaliações.
Com as primeiras eleições nacionais catalãs que dão a vitória a Jordi Pujol, este assume o governo no dia 8 de maio de 1980. Membro do partido CiU, é eleito presidente e consegue durante a década ganhar todas as eleições, colocando-se no poder até 2003. Os objetivos do governo de Pujol foram a melhoria das condições materiais, a coesão social e a recuperação nacional catalã.

A entrada da democracia na Espanha foi feita sem ter em consideração as nações catalã e basca. Prova disso os Estatutos de autonomia da Catalunha e País Basco que definem estas nações como regiões. Neste sentido as línguas catalã e basca são consideradas como co-oficiais, tendo o castelhano uma posição superior ao resto de línguas do estado espanhol. Por estes motivos, e para atender as reividicações históricas de autodeterminação do povo catalão e basco, é que os governos catalã e basco apresentam ao governo espanhol novos Estatutos. Estes novos contratos com o estado espanhol pretendiam reconhecer as nações catalã e bascas como tais, além de defender a cultura e línguas respectivas. No caso basco a proposta do novo Estatuto, o Plano Ibarretxe, pretendia que o estado espanhol reconhecesse o direito a autodeterminação do povo basco, o direito à nacionalidade basca com plena validez política, jurídica e administrativa, um poder judicial próprio, mais autogoverno e presença nacional basca no exterior. Estas reivindicações, inscrijjjtas no novo Estatuto, foram votadas e aceitadas pelo povo basco através de referendo no ano 2004. Mas o parlamento espanhol não aceitou e resolveu a situação cedendo mais autonomia fiscal ao País Basco. No caso catalão, era reivindicada mais autonomia para o governo catalão, reconhecimento da Catalunha como nação e garantir à língua catalã o estatuto de língua veícular. Neste caso, o governo espanhol de Rodríguez Zapatero prometeu que "vou apoiar a reforma do Estatuto que for aprovado pelo Parlamento catalão". O novo estatuto, que concebe a Catalunha como uma nação, é aprovado pelo povo catalão através de referendo. O Partido Popular, chefiado por Mariano Rajoy, manda do texto para o Tribunal Constitucional espanhol que altera 50% do conteúdo. A negativa de reconhecer a Catalunha como nação é o ponto de partida do processo que leva a Catalunha a regressar à luta pela independência.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

O CARICATO DE UM MISTÉRIO DESVENDADO.


(Quando partilhei este vídeo sobre a avaliação de certos conceitos de arte contemporânea, lembrei-me de este texto, escrito em 2005, sobre um caso verídico passado nessa altura na Figueira da Foz...
Se querem rir um bocado, leiam o texto...)

O jornal “Público” de 28 de Dezembro dava à estampa uma notícia, sob o título “Peças de Lavatório de Jimmie Durham Roubadas na Figueira”, a qual muito me intrigou.
Ao que parece, na exposição patente no Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz, alguém teria roubado uma “peça” do referido artista e que consistia em partes de um lavatório partido, dispostas no chão da casa de banho, junto a um lavatório inteiro.
Pelo que se subentende da notícia, os referidos “cacos” deviam ser suficientemente valiosos para despertar a cobiça alheia e justificarem igualmente um seguro de 27.000 Euros.
Afinal o mistério foi desvendado: Uma diligente e eficiente empregada de limpeza, ao ver os cacos de um lavatório no chão, apanhou-os escrupulosamente, provavelmente cogitando algo sobre o vandalismo que impera nos dias de hoje, e simplesmente colocou-os no contentor do lixo!
Confesso que o imprevisível desfecho deste caso, quase policial, me deu um tremendo gozo!
Normalmente este tipo de manifestação dita “artística”, tem como finalidade a polémica, na qual o dito artista pretende dar mais importância ao criador do que propriamente a sua criação. Salvador Dali fê-lo amiúde, só que Dali era realmente um génio, e aos génios normalmente perdoam-se grande parte dos seus desvarios.
Fiquei deliciado! No fundo, uma simples mulher da limpeza repôs a verdade dos factos: o lixo foi para o lixo, lugar onde realmente pertencia e apenas resta saber como vai a seguradora reagir ao pedido de indemenização pelo roubo da referida “obra”.
Já há tempos, em Berlim, uma instalação que consistia em latas de conserva usadas, foi “confundida” com a sua verdadeira natureza e também foi parar ao contentor do lixo, passando por restos de uma merenda de turistas pouco asseados.
Imaginativamente, a solução encontrada pelo Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz para obviar a repetição de situações deste tipo, foi a de ministrar formação profissional sobre arte moderna à suas funcionárias da limpeza, de modo a que estes “lamentáveis equívocos” venham a ser evitados de futuro.
Fracos sinais dos tempos, estes em que corremos o sério risco de confundir a arte com o lixo ou o lixo com a arte. Supremo vexame, o do artista, que em vez da “polémica”, da “ruptura” ou do “choque”, se limitou a ver a sua obra seguir para o lugar ao qual de facto pertencia, um simples contentor do lixo, pela mão profissional de uma “ignorante” funcionária da limpeza.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

ENTRE O FOGO E A FRIGIDEIRA.

A necessidade, quase compulsiva de rotular as pessoas, leva a erros, que embora pouco graves são a demonstração de pouca imaginação, cultura política e maniqueísmo.
O facto de eu me ter declarado Eurocéptico, ter ficado satisfeito com o Brexit e demonstrado alguma simpatia por Marine Le Pen, fez imediatamente de mim um elemento da extrema-direita, mais concretamente, um perigoso fascista.

Sobre a Europa, nunca tive ilusões do destino de realidades que são construídas começando pelo telhado, sem curar da necessária existência de um módico de alicerces, capazes de sustentar a estrutura.

Não tendo desgostado da CEE, na sua vertente específicamente económica - embora a existência da Comissão Europeia e respectiva burocracia  já constituísse um núcleo cancerígeno, pronto a lançar as sua metástase - começou por parecer um projecto viável e interessante.

Depois vieram os tratados, desastrosos, mal pensados e que representaram uma espécie de fuga para a frente, do tipo "depois logo se vê... E infelizmente, viu-se mesmo!

Maastritch lançou as bases dessa arma de destruição maciça de economias, que dá pelo nome de euro. 

Nice, num furor agregador e com uma notável demonstração do secular receio do Imperialismo Russo, apressou-se a integrar a trouxe-mouxe, tudo o que eram países adjacentes à Alemanha, finalmente livres do jugo soviético, não por méritos próprios, mas por mérito de um homem que se apercebeu da triste realidade soviética, e que dá pelo nome de Gorbachev.

Lisboa foi a cereja no topo do bolo, redigido ao gosto dos grandes grupos de tendências hegemónicas, e que ostentam designações como Nova Ordem Mundial, Clube de Bildeberg, Trilateral, etc... e que se destinou a substituir, sem referendos, uma maldita Constituição Europeia vergonhosamente recusada na mesa de votos pela Holanda e pela França.

E assim nasceu uma ficção política que se auto-denominou de União Europeia. Muito a propósito disto, lembro-me de um artigo do respeitado Eduardo Lourenço, no qual ele afirmava que a Europa era "uma utopia à procura de um projecto". Decididamente, esse projecto nunca apareceu, a não ser para reforçar, o já exagerado poder hegemónico da Alemanha.

Aqui chegados, e com a preciosa ajuda da total desrugalação das regras que deveriam sujeitar o capital, o dinheiro deixou de ser a representação simbólica de uma riqueza, o que lhe conferia o estatuto de meio de pagamento, e passou a ser ele próprio, uma mercadoria abstracta, em que activos inexistentes ou derivados de imparidades, passaram a ser agregados em "produtos complexos" artificialmente valorizados, vergonhosamente impingidos aos clientes por banqueiros sem escrúpulos, e que na verdade, mais não fizeram do que falir meio mundo, tornando-o devedor de uma pequena oligarquia, que fácilmente subordinou o poder político, tornando-o, não numa sublimação do lberalismo, com os seus sufixos "neo" ou "ultra", mas naquilo que, para quem é tão atreito à necessidade de rótulos, eu chamaria de "fascismo financeiro".

A crise declarada em 2007, provocada pelos atropelos às boas práticas bancárias, acabou por ter consequências funestas.

A sua principal vítima foi a chamada classe média, cujo comportamento pragmático, serviu nos últimos 70 anos como uma espécie de rgulador da democracia, funcionando como um pêndulo, que girava em sentido contrário, sempre que algum dos "extremos" ameaçava ganhar demasiado poder.
Com o desaparecimento desse "centro" regulador, as sociedades começaram a ser empurradas para os extremos, o que veio ditar a decadência dos partidos moderados, para grande espanto (!?) e escândalo dos seus protagonistas.

Com uma extrema esquerda, com tiques colectivistas, com ideias igualitárias, qualquer estímulo ao sucesso pessoal desaparece, inviabilizando de vez o tão decantado "elevador social" capaz de transportar as pessoas para camadas sociais superiores, mercê o seu esforço e qualidades.

Por outro lado, uma extrema-direita, alicerçada em valores nacionalistas, de protecção de uma globalização em que se é obrigado a competir com gente que ganha salários miseráveis, pode ser mais cativante para os antigos militantes do centro, porque, apesar de tudo, lhes abre perspectivas, ilusórias, de poderem apanhar o tal "elevador social", o que os salários e cargas fiscais aplicados, isso torna-se quase impossível.

Claro que, como todos sabemos, a história é escrita pelos vencedores e por isso a extrema-direita foi indelévelmente associada aos crimes do fascismo e do nazismo, enquanto a extrema esquerda, que engloba gente como Lenine, Stalin, Mao Tse Tung, Pol Pot e outros "beneméritos" prepertadores de crimes tão ou mais hediondos que os de Hitler e Mussolini, parece ter ficado imune a essa vergonhosa reputação, sendo, pelo menos aparentemente muito mais considerada do que o seu extremo oposto.

Com isto não estou a defender nenhuma da partes, nem a atribuir-lhes qualquer tipo de mérito, mas não posso deixar de constatar que a tendência que grassa nas democracias Ocidentais, é a da bipolarização entre os dois extremos, que rápidamente ocuparão o espaço deixado livre pelo centro político em vias de total extinção.

Assim, com um panorama empobrecido como este, e que qualquer pessoa minimamente informada, fácilmente constatará, pouco mais resta a cada um, do que escolher qual das barricadas vai ocupar, o que no fundo se resume na prosaica escolha entre o lume e a frigideira.

Com o regresso de níveis aceitáveis de soberania, isto poderia ser mitigado, ou até
mesmo revertido.

Daí que, constatando à luz da informação que tenho e a actividade saudável de alguns neurónios, serei sempre partidário, pelo menos nesta fase, de qualquer movimento que possa enfraquecer, reformar se for possível, ou acabar de vez com este sinistro projecto Europeu. 

Eu não sou ingénuo ao ponto de acreditar que qualquer atitude nesse sentido,  poderá alguma vez vir a ser implementada por um pequeno país, mas sim de uma desagregação que, por questões de sobrevivência, terá de ser planeada e monitorizada pelo colectivo dos países, designadamente aqueles que mais peso têm na economia, e consequentemente na política.

Em jeito de epílogo, cito aqui Nuno Brederode Santos, tristemente desaparecido há pouco tempo do nosso convívio, e pessoa que eu estimava, e que assim escreveu:

"(...)
Eis o que me cumpre advertir à cabeça. A minha responsabilidade morre aqui.
Para a frente, leitor, está apenas o que a fortuna guardou para seu sentido de aventura. Tenha a sorte que merece. Que eu, por mim, preveni-o de tudo. Das contingências e limites que lhe pus na mão: Os depoimentos avulsos de um cidadão medianamente afónico, sem caixa de ar para gritos mais sonoros. Só capaz do que aqui dá, mas dando aquilo de que é capaz. E de consciência tranquila, mesmo sabendo que, por mais que berre, não consegue produzir senão estas cónicas de Domingo à noite.
São tiros de espingarda de rolha com guita para puxa. Não fazem estrondo. Não vão além de um rumor civil."

Nuno Brederode Santos (1944-2017)

domingo, 26 de março de 2017

...DE VEZ EM QUANDO, FOGE-LHES O PÉ PARA A CHINELA.


NOTA: Dada a vulgaridade dos termos usados por Jorge Sampaio, na sua Biografia recentemente publicada, achei oportuna a re-publicação de um texto de 13 de Outubro de 2004, no qual bem podemos aferir a fraca qualidade do Presidente da República, que ele foi...

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Já tínhamos sido informados de que o Presidente da República ia ser agraciado pelo Rei de Espanha com o Prémio Carlos V.
Ao que vim a saber, trata-se de um prémio concedido pelo estado espanhol a personalidades que se tenham distinguido em várias áreas, sendo que Jorge Sampaio foi indicado para o referido prémio pelo seu "apoio à construção europeia".
Tudo bem! Até acho honrosa a atribuição desta distinção. Por outro lado, o que conheço do trabalho de Sampaio em prol da construção europeia, tem a ver exclusivamente com o seu papel como Presidente da República Portuguesa, e não com o mero cidadão que ele é, quando não investido das suas funções institucionais que lhe foram conferidas pelo voto da maioria dos portugueses (que não eu, é claro!).
Assim, acho de uma tremenda mesquinhez e falta de estatura política e estatura moral que Jorge Sampaio tenha públicamente anunciado que se vai "abotoar" com o prémio de 90.000 Euros. Segundo vários orgãos de comunicação social (pelo menos TSF e Público), o Presidente terá afirmado que desta vez iria ficar com o prémio, em vez de o doar a uma instituição de beneficiência, como conviria à mais elementar ética política. "Desta vez vai ser para mim. Os tempos estão maus!" ter-se-ia justificado Jorge Sampaio.
Concordo que os cargos públicos são muito mal pagos em Portugal, mas a verdade é que só concorre a eles quem quer e parece-me de profundo mau gosto que o Presidente, em fim de mandato, se comece a “abotoar” com prémios que são fruto da função que exerce e não da sua condição de simples cidadão. Nesse caso, por exemplo, acharia o prémio muito mais justificado a António Vitorino do que a Jorge Sampaio.
Infelizmente, por muito que nos queiram dar uma imagem de ombridade, honradez e desprendimento, quando menos se espera, acaba por lhres "fugir o pé para a chinela".
Se Sampaio está tão mal de finanças, porque não se candidata desde já a um eventual lugar na “Quinta das Celebridades”? É que para além do rídiculo e da degradação de valôres patenteados pelo referido programa, parece que pagam muito bem. Se lhe restar dignidade, sempre poderá jogar no Euromilhões que dá prémios astronómicos. Quem sabe se não o veremos um dia aos comandos de um jacto Falcon que não seja pago por nós.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

POBRE PORTUGAL...


  1. (TEXTO ESCRITO E PUBLICADO A 7 de OUTUBRO de 2004)

Pobre deste nosso País-À-Beira-Mar-Plantado, que mais não tem que fazer do 
que discutir acaloradamente a saída de um pseudo comentador político de uma estação de televisão de grande audiência.
Devo começar por informar de que não gosto deste governo nem um bocadinho por causa da sua manifesta incompetência e ineficácia.
Dito isto (já pareço o Marcelo a falar), vamos ao que interessa:
Em primeiro lugar há que reconhecer que os comentários que Marcelo expendia até ao passado Domingo na antena da TVI, não eram de todo uma análise política. Eram apenas e tão só um verdadeiro tempo de antena, privado, de que o "Professor" usufruiu 45 minutos por semana, sem qualquer oposição, debate ou questionamento, durante o módico espaço de tempo de cerca de quatro anos e meio.
Convenhamos que é um previlégio que não conhecemos a qualquer outro político, nem no tempo da "outra senhora".
O facto destas "crónicas", chamemos-lhe assim, irem para o ar através da TVI também é sintomático. O "Professor" escolheu uma "tv-tabloide", que relata tudo quanto é crime e vilania, dedicando a estes assuntos largos e detalhados directos, nos quais entrevistam furiosamente tudo e todos. É evidente que esta escolha não é inocente, pois era este o tipo de programação popularucha que mais convinha ao "Professor". Atingindo um público tradicionalmente ignorante, que segue embevecido as várias edições do "Big Brother" e mais recentemente a "Quinta das Celebridades", Marcelo tornou-se uma espécie de pitonisa da política caseira.
Esse povinho que morre espremido nos transportes públicos, que lê "A Bola" ou o "Record" no café e em casa pouco consegue passar da vulgaridade da "Nova Gente", gosta de saber de política, mas tem pouca cultura, tempo ou preparação para a seguir com regularidade. É neste contexto que entra o "Professor", com os seus dotes de comunicador exímio, que lhes serve em 45 minutos um compacto "digest" da política caseira.
Assim, na Segunda Feira de manhã já sabem do que falar quando chegarem aos serviços e repartições. No fundo o "Professor" é a capa que os protege da exibição da sua própria ignorância. Por isso é que ele é o "Professor", não é?
O grave é que o "Professor" só lhes ensina o que ele quer que aprendam, o que não é dispiciendo quando se sabe que a audição das suas "homílias" dominicais eram seguidas religiosamente por cerca de um terço dos votantes nacionais.
Agora, com esta rábula que foi encenada por si próprio, Marcelo Rebêlo de Sousa está livre para se candidatar às próximas eleições presidenciais: Como alto militante do PSD terá os votos da direita que antipatiza com o actual Primeiro Ministro e potencialmente terá os votos de muita da esquerda sociológica que decerto se compadece desta vitimização estudada ao promenor, e como o "pôvo é quem mais ordena", lá estará para ajudar, a grande legião de fieis seguidores do grande Oráculo da política: O "Professor".
Suponho quem nem Maquiavél conseguiria imaginar tão hábil manipulador e maquinador!
Eu como velho monárquico endurecido nunca votei nas eleições presidenciais pela mesma razão que não jogo no totoloto: Não acredito nesses concursos! Agora, aos que acreditam aconselho-lhes muita cautela. Com Marcelo eventualmente na Presidência até irão ter saudades de Mario Soares.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

SERÁ QUE ENTERRÁMOS DEFINITIVAMENTE O PREC...?

TEXTO ESCRITO EM 13 de JUNHO de 2005


A minha formação moral e cristã não me permite que exulte ou me sinta agradado pela morte de alguém. Quem morre parte desta Vida em direcção a uma outra realidade, na qual é suposto ser avaliado pelos seus actos terrenos e assim acho, que tanto Vasco Gonçalves como Álvaro Cunhal, estarão nesta altura em boas mãos, prestando contas dos seus actos em Vida.
Se me atrevesse a imaginar no que poderá constituir a justiça divina e fosse um verdadeiro cristão, deveria até sentir pena e comiseração por estas almas que partiram.
Infelizmente não o sou e a única coisa que consigo associar a estes dois ilustres defuntos foi o facto de serem os construtores e executores de um dos mais negros períodos da nossa história moderna: O Processo Revolucionário Em Curso, o famosíssimo PREC!
Tendo em Cunhal o ideólogo e no “companheiro” Vasco o seu sicário e executor, o PREC atingiu grande parte dos objectivos previstos, sendo, para além da incompetência política posterior, o maior factor de atraso para o Portugal que se desejaria moderno e competitivo.
De uma penada privatizaram a Banca, os Seguros e todas as empresas de maior dimensão existentes à época em Portugal, cuja administração ficou entregue a comissões de trabalhadores e a comissões “ad-hoc” constituída por militares de baixa patente e nenhuma preparação. Os saneamentos políticos dos gestores e técnicos competentes, levou a uma sangria sem precedentes das elites preparadas que existiam, levando-as ao exílio. A reforma agrária e a ocupação selvagem de terras por trabalhadores rurais, constituídos em cooperativas agrícolas ineficientes e mal geridas, colocaram a já fraca agricultura portuguesa na total e completa bancarrota. As permanentes intervenções estatais nas empresas públicas, injectando capitais sobre capitais para disfarçar as gestões ruinosas, criou um inesgotável e insaciável sorvedouro dos dinheiros públicos, estes cada vez mais parcos, dada a ineficiência e laxismo de todo o sistema fiscal. Para finalizar, a cereja em cima do bolo: Uma constituição quase marxista, de grande carga ideológica e blindada em relação a um grande conjunto de normas, que nos dias de hoje nos retiram a necessária competitividade como País e inibem de forma quase irremediável a atracção de investimento estrangeiro.
Todo este processo, é preciso notá-lo, tinha como desfecho confesso e explicito a instituição de uma ditadura do proletarieado em Portugal, a qual só foi travada a 25 de Novembro, com o recuo dos comunistas e a escassos milímetros de uma guerra civil fratricida e sangrenta.
Enfim, retirando o enorme volume de tragédias pessoais provocadas por estas políticas, algumas das quais ainda se reflectem nos dias de hoje, é este, em traços largos, o retrato do PREC.
Este sinistro processo, visto e analisado à luz de hoje, tem as consequências que se conhecem e das quais resulta o estado caótico em que o País se encontra, em nada tendo ajudado a péssima qualificação e manifesta fraqueza dos políticos nacionais.
É sabido que se consegue destruir em minutos aquilo que demora anos a construir. Pode ser a implosão de um edifício, a quebra de uma confiança ou a destruição de uma economia, e neste particular, o PREC foi de uma eficiência perfeitamente demolidora.
Debatendo-se hoje Portugal com todas as carências estruturais que se conhecem e que resultam na gravíssima crise orçamental e económica que aflige o País, custa-me constatar, ou mesmo a admitir, que haja quem tenha o atrevimento de considerar os principais artífices de tão sinistro processo como “perdas irreparáveis” ou grandes “patriotas”.
Repetindo o meu início, não exulto com a morte de ninguém, mas reservo-me o direito, e quem sabe se o dever, de não sentir qualquer saudade ou respeito pela sua memória. 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

A MELANCOLIA DE UM DESENCANTO.

Texto publicado em 27 de Janeiro de 2005

Quando eu era “menino e moço” a política nunca foi uma prioridade para mim!

Não o era para mim, como também não o era para muitos dos chamados “Militares de Abril” que conheci nessas minhas meninice e adolescência.

A vigência do Estado Novo com toda a sua miríade de organizações juvenis, actividades lúdicas e moral institucional, a isso não só propiciava, como formalmente obrigava.

Militava eu na altura numa auto-denominada “Juventude Monárquica”, a quem o Regime não ligava nada, mas que nos dava um certo sabor a ilegalidade e risco subsequente. De facto pouco mais fazíamos do que lançar pequenos folhetos, duplicados manualmente, do alto do Elevador de Santa Justa, nos quais exaltávamos as virtudes da Monarquia perante uma Republica implantada pela maçonaria, através de um sangrento Regicídio.

No começo da adolescência falaram-me do socialismo!

Entusiasmado, partilhei com o meu Avô o que me parecia a justeza de um regime. Nessa noite, como por magia, surgiram na minha mesa de cabeceira as duas obras primas de Orwell: “Animal Farm” (estupidamente traduzido para português como “Triunfo dos Porcos”) e “1984”.

Devorados rapidamente os livros, apercebi-me de que estava definitivamente curado dessa potencial “primo-infecção” de cariz socialista.

O 25 de Abril apanhou-me em Angola, tornando inviável um certo tipo de futuro que eu ingenuamente engendrara. Regressado a Lisboa rapidamente me apercebi que os obreiros da denominada “Revolução dos Cravos”, outros não eram que velhos companheiros de escola e folguedos, aos quais os problemas laborais com que se debatiam no seio das suas carreiras militares, rapidamente foram politizados através de “sessões de esclarecimento” e outros “hapenings” de carácter político, sabiamente orquestrados pelo “esquerdalho” stalinista tão em voga na época.

Enfim, compreendi então que a política era imperativa e aceitei que o sistema democrático e o estado de direito corresponderiam realmente a um sistema justo e equitativo.

Segundo eu entendi, um sistema democrático possibilitava-nos a escolha, o que significava que o povo escolheria os seus representantes.

Rapidamente me apercebi que a tibieza e desconfiança reinantes na “Assembleia Constituinte” tinham produzido um tal aborto de Constituição, que muito mais importante do que o acto de escolher, era o acto de excluir, através da peregrina figura do "voto útil", que passados trinta anos ainda continua a fazer doutrina. Parecia-me um atentado ao conceito de democracia e à liberdade de escolha, mas enfim, levando em conta o Regime anterior, até que não era assim tão mau.

O tempo passou. O País “europeizou-se”, saiu daquela espécie de limbo em que se mantinha desde finais do Século XIX e… Ao que parece, tudo piorou!

No momento actual, no limiar de eleições legislativas importantíssimas, chego à conclusão que para lá de me ter sido retirado o direito de escolher, foi-me igualmente retirado o direito de excluir.

Afinal o que fazer? Escolher entre o muito mau e o péssimo? Abster-me? Votar em branco (que é o mesmo que me abster)? Vociferar? Insultar? Preparar atentados à bomba?
Francamente não sei o que fazer e o desencanto absoluto invade-me por todos os poros. O “establishment” da democracia instituída proclama que o voto é a arma do Povo, ao que os anarquistas ripostam, afirmando que se o Povo vota perde definitivamente a sua arma. Quase me inclino para concordar com estes últimos. Pelo menos não se escondem atrás de sofismas.

Ou me engano muito, ou quem vai ganhar estas eleições é o “partido” da abstenção, que basicamente colhe os seus “votos” no descontentamento, na descrença, na indiferença, na impotência e, basicamente, na revolta.

Que Deus nos proteja, pois pelo que me é dado constatar, estamos entregues à “bicharada”, o que com o actual sistema político nos condena a penar, vítimas da incompetência dos governantes, da incapacidade dos partidos, da voracidade das “jotas” e, principalmente, dos "sebastianismo" e passividade do Povo português.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

NO EXTREMO DO ARCO-IRIS.

Texto escrito em 28.07.05

Na minha meninice, idade de todas as crenças e ingenuidades, sempre me foi dito que existia um pote de ouro no extremo do arco-íris.

Nessa época morava em frente ao mar, a escassos metros do tormentoso mas belo Oceano Atlântico. As dunas, varridas pelo vento espraiavam-se até ao limite da minha vista perdendo-se depois gradualmente nas neblinas típicas das praias nortenhas de forma um tanto ou quanto fantasmagórica.

Por alturas da Primavera, quando os fortes aguaceiros alternavam com o sol frio mas radioso e transparente, formavam-se com frequência vistosos e espectaculares arco-íris, por vezes duplos e até triplos.

Era nesses dias límpidos e frios que nos juntávamos ao fim do dia para observar magníficos ocasos na esperança de vislumbrar o mítico raio verde, fenómeno fugaz, que ao que se dizia, rutilava por breves fracções de segundo, no momento em que o ultimo pedacinho de sol mergulhava nas águas azuis prateadas do horizonte, lançando no espaço um brevíssimo brilho de cor verde.

Confesso que nesses tempos de credulidade nunca vi realmente o raio verde, embora por vezes, tanto eu como os meus irmãos jurássemos a pés juntos que o havíamos vislumbrado, para grande gáudio e satisfação do meu Pai que afiançava sempre a existência do efémero fenómeno.

Olhando os arco-íris da minha janela continuava ingenuamente a acreditar na possibilidade de existir um pote de ouro num dos seus extremos, embora se me afigurasse impossível procurá-lo, já que normalmente o seu início se localizava para lá da inultrapassável fronteira da via férrea e o seu fim caía inevitavelmente no meio da turbulenta e furiosa rebentação das vagas que continuamente fustigavam a praia.

Uma manhã, bem cedinho ainda, ao olhar pela janela deparei-me com uma situação extraordinária: A maré estava vazia, com as ondas bem recuadas para lá da barreira das escuras rochas, e um magnífico arco-íris, nascido sabe-se lá onde, terminava sobre a areia molhada a poucas dezenas de metros da minha casa, ali mesmo à mão de semear.

Vesti-me atabalhoadamente, desci as escadas a dois-e-dois e corri pelas dunas em direcção à praia e ao local onde terminava tão espantoso arco-íris.

Eram apenas algumas dezenas de metros, mas de forma misteriosa, quanto mais eu me aproximava do fim do arco-íris, mais ele subtilmente se afastava de mim, mantendo uma distância constante como se eu corresse sobre um tapete rolante.

Ofegante, continuei a correr até que me dei conta de que estava já longíssimo de casa e o arco-íris permanecia exactamente à mesma distância de mim.

Depois foi a desilusão. Um raio de sol mais forte provocou um ligeiro tremeluzir naquele maravilhoso caleidoscópio que se esfumou repentinamente como se nunca tivesse existido.

Nesse dia quando me deitei, percebi uma coisa importantíssima: O pote de ouro devia realmente existir no extremo do arco-íris, o problema é que este aparentemente tinha uma natureza inatingível, pelo que deveriam existir melhores formas de chegar ao pote de ouro.

Esta recordação, desgarrada e talvez um tanto espúria, fez-me reflectir um pouco sobre o rumo de Portugal e do seu Povo durante estes últimos trinta anos. Durante esta era de democracia, os Portugueses parece que ainda não se aperceberam da natureza do arco-íris e continuam em busca do seu fim à procura do almejado pote de ouro.

De tentativa em tentativa, os diversos governos têm arrastado o País nesta busca infrutífera. Começaram por construir estradas e auto-estradas na ânsia de encontrar uma das pontas do arco-íris, depois construíram um Centro Cultural para melhor se posicionarem para a sua localização. Vendo que isto a nada os levava, organizaram a Expo 98 e o Euro 2004 pensando que talvez assim tivessem mais sorte. Agora já cogitam perseguir o fim do arco-íris através de um caríssimo TGV e de um Aeroporto Faraónico.

Esquecem-se do essencial da questão: A natureza do arco-íris!

A sua existência é virtual e não passa de um fenómeno de refracção da luz através de minúsculas e efémeras gotas de água, razão pela qual, embora o vejamos num local perfeitamente definido, este mudará sempre de acordo com a nossa localização, pelo que, ainda acreditando que lá se encontra um pote de ouro, já desisti de o alcançar.

Ao invés disso, arranjei um bom trabalho, trabalhei, adequei as minhas ambições ao meu horizonte de possibilidades e com a maior das tranquilidades tornei-me num homem feliz, mesmo sem ter encontrado o ouro no fim do arco-íris.

Que pena o Povo Português não se conseguir munir de alguma simplicidade e perceber esta verdade tão básica e tão simples em vez de continuar a sua vã busca do pote de ouro - que inicialmente parecia residir na União Europeia - mas que na realidade se encontra na capacidade de trabalho e diligencia de cada um.

E no entanto não há impossíveis!

Há três anos, a bordo do ferry que liga Santander a Southampton, sentado no deck e beberricando uma cerveja, observava o pôr-do-sol no mar alto. Recostado na espreguiçadeira, sem tirar os olhos do sol que se punha, contava à minha mulher as antigas observações em família e a vã busca da observação do raio verde, acrescentando que aquela história provavelmente não passaria de mais um dos vários devaneios próprios e característicos do meu Pai.

O sol acabou de pôr, e para minha estupefacção, no momento em que o disco dourado mergulhou na falsa e traiçoeira calma do mar da Biscaia, num relâmpago fugaz e com o incomparável lampejo de uma esmeralda polida entrevi por um brevíssimo instante o raio verde em que não acreditava.

Pode ser que afinal o Povo Português encontre o seu pote de ouro no extremo do arco-íris, da mesma forma que eu encontrei o meu raio verde, não como um desígnio ou solução de vida, mas tão-somente como mera recompensa de um trabalho árduo e profícuo.

terça-feira, 23 de junho de 2015

HIPOCRISIAS...

Texto escrito em  26.07.04

Infelizmente, ao longo da minha vida tenho sido confrontado com grandes hipocrisias.

Aqui há uns anos, no decorrer da minha actividade profissional, foi-me solicitado por certa senhora a execução de trabalhos de jardinagem em sua casa. Tratava-se de pessoa conhecida na nossa ridícula "society", nome sonante, com voluntariado conhecido e militante em várias instituições e senhora de uma respeitável fachada moral.

Como é comum nestes casos, enviei um jardineiro e um ajudante, dado o trabalho ser o adequado a esse tipo de equipa. Resta apenas acrescentar que o ajudante em causa era um jovem deficiente, a trabalhar comigo há já muitos anos, extremamente esforçado e aplicado, apesar das limitações específicas derivadas da sua deficiência.

Pouco tempo depois recebi um telefonema da cliente, que constrangida me pediu para substituir jovem deficiente. Afirmou que achava meritório que eu desse emprego a "esta gente", mas que em casa dela não dava pois "as crianças ficavam impressionadas."

Neguei-me terminantemente a fazer-lhe a vontade e o contracto terminou logo ali!

De tempos a tempos lá vou vendo a dita senhora, nos seus sociais "voluntariados", sendo entrevistada aqui e ali sobre a melhor maneira de ajudar o próximo (!).

Veio-me hoje esta história à cabeça após ter lido uma notícia no jornal "Público" acerca de umas pessoas que tentam combater por todas as formas e meios, uma pequena alteração num Centro para deficientes motores, destinada a dar-lhes mais conforto e operacionalidade, em suma, dar-lhes um pouco de qualidade de vida que infelizmente a vida lhes não deu. Invocando os mais mirabolantes argumentos que vão desde a violação do Plano Director Municipal (se fosse para fazer uma garagem para guardar o carro já o Plano Director decerto não interessaria) até à hipotética desvalorização das suas casas, tudo têm feito para, por trás de argumentos aparentemente objectivos, se eximirem à única razão realmente verdadeira: Os deficientes incomodam a sua pacata e burguesa existência!

Por acaso moro perto do local, conheço bem o Centro em questão, algumas pessoas que lá trabalham e alguns deficientes que lá habitam. Conheço também alguma da vizinhança que tanta sanha tem mostrado em relação ao projecto, e tal como a senhora da situação anterior, é tudo boa gente, solidária e bondosa... Desde que seja longe, é claro!

As obras foram legalmente autorizadas, as tentativas de embargo inviabilizadas por várias instâncias e mesmo assim, esta boa gente, amiga e solidária, afirma sem vergonha que recorrerá aos tribunais se necessário for.

Deus lhes dê muita saúde!

Se tiverem idade para ter filhos, que não lhes saia nenhum com uma deficiência. Se essa idade já tiver passado, não se esqueçam dos netos... Pois nunca saberemos o que o destino nos reserva!

Hipocrisias!

Bons cidadãos, conscientes, solidários, contribuintes de instituições e no entanto incapazes de conviver com o incómodo e a crueza do sofrimento alheio.

Nota:
Para que não fiquem dúvidas, a instituição visada por estes modelares cidadãos, que constituem a Associação de Moradores de Nova Oeiras, é o Centro Nuno Belmar da Costa e pertence à Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral.

domingo, 21 de junho de 2015

A TRANSCENDENTE IMPORTÂNCIA DO ÓBVIO.

Normalmente passamos uma parte da nossa Vida à espera de acontecimentos extraordinários.

O ritmo e forma de como a informação nos chega, molda-nos a atenção de forma a desprezar ou pelo menos minimizar – a importância do singelo, daquilo que é quotidiano e que, por assim dizer, acaba por constituir uma elevadíssima percentagem dos acontecimentos que se passam à nossa volta e também dos nossos próprios actos.

Diz-se que o jovem Sidartha, futuro Buda, a primeira vez que conseguiu sair da gaiola dourada que o protegia do mundo exterior, sentou-se debaixo de uma árvore observando um homem que esforçadamente conduzia um arado, puxado por uma poderosa junta de búfalos, lavrando um solo duro e difícil.

Enquanto Sidartha observava impressionado o esforço do homem, um pequeno pássaro sobrevoou a parte já arada do campo, e numa manobra rápida, apanhou um verme que se contorcia sobre o terreno seco.

Nesse momento Sidartha apercebeu-se de que todas as coisas no mundo estão relacionadas, pois se aquele homem não tivesse lavrado aquele campo, não teria desenterrado aquela minhoca, a qual não teria sido apanhada por aquele pássaro.

Possivelmente a minhoca teria sido poupada para continuar o seu misterioso destino na escuridão do subsolo e o pássaro ter-se-ia contentado com um insecto, o qual deixaria de polinizar uma série de plantas.

Esta constatação, embora de uma simplicidade cristalina, escapa-se-nos muitas vezes, pois a nossa atenção está mais virada para nós próprios do que para o papel que poderemos desempenhar no Mundo e na Sociedade.

Cada pequeno acto da Natureza ou da Vida, influencia de forma muito sub-reptícia todo o futuro do mundo. Muitos pequenos actos, relacionados e potenciados por outros pequenos actos ou acontecimentos, moldarão inevitavelmente o futuro, de uma forma tão sensível que esse mesmo futuro será sempre diferente se algum desses pequenos actos não for praticado.

De que forma podemos ajuizar quando a recusa de uma simples moeda a um mendigo, de um empréstimo a um amigo necessitado ou até a necessária montagem de uma ratoeira na nossa dispensa, poderá alterar o nosso futuro?

Jamais o poderemos avaliar!

Esta constatação acaba por nos atribuir responsabilidades mais pesadas, pois irá sempre obrigar-nos a ponderar todas as nossas acções e a olhar o Mundo e a Vida com redobrada atenção e sentido de responsabilidade.

Será pois talvez a hora de abrirmos os nossos sentidos e a nossa mente a tudo o que se passa à nossa volta, e sermos capazes de nos maravilhar com a simplicidade do que é óbvio e singelo.