quinta-feira, 31 de maio de 2012

CASTELOS NO AR

Os anos que passei em S. Paulo, foram vividos num bairro sossegado, numa rua pequena, quase sem transito. No fim da rua existia uma simpática “lanchonete”, propriedade de emigrantes Portugueses, onde parava muitas vezes para tomar um café ou uma cervejinha gelada.
Nesse simpático “boteco”, costumava lá estar sentado a uma mesa, um rapaz novo, de ar triste, sempre à volta com leituras e tomando apontamentos num caderno de capa já muito surrada.
“Mora aqui perto”, informou-me certa vez o proprietário, “é de gente rica, mas é meio amalucado, o coitado.”
Nada me poderia ter despertado maior curiosidade, e assim não descansei enquanto não meti conversa com o Fábio, assim se chamava ele. Descobri um rapaz melancólico e introvertido mas de uma curiosidade imensa. Os livros que lia já não eram normais nem  para a época, nem para a idade: Descartes, Rosseau, Nietzsche e até Fernando Pessoa, entre outros.
A conversa foi ficando fácil, e passados uns dias já discutíamos animadamente temas filosóficos ligados à metafísica e à ontologia, como se esses “brain storms” durassem já há largo tempo. Um dia perguntei-lhe porque não estava na universidade. “Para quê” respondeu ele enfadado “lá só ensinam besteiras.”
Um dia deixou de aparecer.
Informou-me o proprietário da “lanchonete” que os pais o tinham internado numa instituição de saúde mental que não distava muito dali.
Um Domingo fui visitá-lo. Sentado num banco do grande jardim relvado e povoado de árvores decorativas, ele, surumbático, continuava agarrado aos seus livros. Não se entusiasmou com a minha presença, mas também não se sentiu incomodado. Após um silêncio um tanto embaraçoso, perguntei: “Então Fábio, porque o puseram aqui?” Com uma certa amargura na voz, fixou os olhos no céu acinzentado, e respondeu-me com siceridade: “Tive azar, cara. Repararam em mim!”
Já a caminho de casa continuava a meditar naquela resposta tão simples e tão verdadeira, e no intimo pensei na sorte que tinha em não terem ainda reparado em mim.
Na realidade, a mente humana é demasiado complexa para que seja possível traçar uma linha definida entre a total sanidade e um estado patológico. As várias dimensões, cognitivas, emocionais, comportamentais e tantas outras que percorrem incessantemente as volutas do nosso cortex cerebral, geram um tal leque de variáveis que, como diz o Povo na sua imensa sabedoria, de génio e  de louco todos temos um pouco.
Alguém de quem eu muito gostava e que sofria de uma grave esquizofrenia, disse-me um dia: “Os paranoicos constroem castelos no ar, os esquizofrénicos moram lá dentro e os psiquiatras afadigam-se à procura das chaves.”
Presa destas considerações, vou disfarçando a minha presença, não vão um dia, por azar, finalmente reparar em mim.

2 comentários:

Matilde disse...

Eles só reparam quando "os nossos castelos" são melhores do que os deles...

Anónimo disse...

Obrigada querido. Tão bem escrito também.