sexta-feira, 21 de junho de 2013

A AURORA DOS DESVALIDOS

Ao que parece, ninguém ficou espantado com as manifestações na Turquia. Foi fácil de entender que existiam duas Turquias em confronto: Uma mais progressista e ocidentalizada e uma outra conservadora e de tendência islâmica.
Para o comum dos Ocidentais, este era um confronto natural, algo que opunha a modernidade a um Islão bafiento e castrador, desrespeitador dos direitos humanos e da igualdade de género. No fundo, todos compreenderam o problema da sociedade Turca, que como é bom de ver, não se resumia à re-urbanização da praça Thair.

Já quando o fenómeno se replicou no Brazil, já se extremaram aí as posições, havendo pessoas que o conotaram com grandes movimentos sociais de tendência anarquista e esquerdizante, ignorando totalmente que 30 milhões de Brazileiros entraram na classe média nos últimos 20 anos, logo com acesso a informação e tecnologias A que antes não tinham acesso, fenómeno aliás que, mais tarde ou mais cedo haverá de ser replicado na China.

Claro que o “Black Block” lá apareceu a partir montras e a incendiar carros, como tem aparecido em todo o lado em que se esboce o mais pequeno movimento de carácter social. Normalmente são uma centena no meio de milhares, mas atraem as câmaras de vídeo e os fotógrafos,como uma lâmpada atrai as borboletas noturnas, e claro, os “media” adoram apresentar a versão violenta, nunca a versão pacífica.

Com estas duas explosões sociais, parece termo-nos esquecido de vários movimentos do mesmo tipo, passados em vários países da Europa, para já não falar da aparentemente tão distante Primavera Árabe.

O que se passa,é uma profunda desadequadação das nossas democracias, ditas Ocidentais, com o seu organigrama rígido e arcaico, às novas formas de comunicação, congregação e mobilização que têm tido origem na internet.

Aliás parecemos estar esquecidos que logo no dia seguinte aos ataques da Al Qaeda na estação de Atoxa em Madrid, José Maria Aznar foi liminarmente apeado do poder, através de SMS’s que o acusaram, e com justiça, de mentir ao povo Espanhol sobre a autoria dos atentados, e assim, Zapatero apanhou o poder por acaso, dado que estava muito atrás de Aznar nas sondagens.

Para qualquer observador mais atento, este caso poderia ter indiciado o que aí vinha, mas convenhamos que os políticos contemporâneos não primam pela sua atenção ao que se passa fora dos seus casulos de poder tecidos em interesses e ambições pessoais.

A fraude em que consiste a base das Democracias Ocidentais, radica na ideia que basta votar de vez em quando em políticos escolhidos pelas chefias, ter algum activismo sindical ou institucional, para que a Democracia seja plena e funcione regularmente.

A verdade é que não o é!

Embora apregoem com veemência a liberdade de expressão, antes das novas tecnologias, raros eram os que tinham acesso a orgãos de informação, pelo que a liberdade de expressão pouco mais era do que aquilo que era dito em conversas de café, jantares de curso ou durante um jogo de sueca.

Subitamente, com o crescimento explosivo de utilizadores das redes socias, com destaque para o Facebook e Twitter, a liberdade de expressão assumiu foros anteriormente inimagináveis, e a capacidade de mobilização, por uma vez, passou a residir na Sociedade Civil no seu geral, que é como dizer, na ponta dos dedos de cada indivíduo.

As petições públicas proliferaram como cogumelos, sendo facílimo atingir por via electrónica o numero de assinaturas mínimo, que anteriormente em muito restringiam a sua chegada aos parlamentos. Brotaram movimentos cívicos com fartura e vastas multidões conseguiram ser mobilizadas para aquilo a que o “stablishment” político, timoratamente apelidou de movimentos inorgânicos.

A incapacidade de lidar com este fenómeno traz consigo uma enorme necessidade de inovar os procedimentos políticos. Queixam-se os responsáveis de que, sendo estes movimentos inorgânicos, não há verdadeiramente interlocutores com quem negociar, e esse é o grande desafio: Quando o Povo não se sente representado pelos seus políticos, não existe negociação possível. Apenas há que escutar com atenção a “Rua” e atentar nos grandes anseios dos cidadãos, procurando inflectir as insatisfações, senão totalmente, pelo menos parcialmente.

A arrogância política tem de dar lugar à humildade do Serviço Público, e os Governos terão de agradar mais aos seus cidadãos do que às clientelas, nacionais ou internacionais que, como moscas, gravitam à sua volta. Será possível admitir que uma Europa inteira esteja a sofrer privações em função das eleições Alemãs???

Claro que seria ingenuidade pensar que os políticos do “stablishment” não tentam calvagar esta onda. Claro que o fazem, e a maior parte das vezes sem nenhuma vergonha na cara e com a conivência promíscua da Comunicação Social, o que aliás os afasta cada vez mais das suas bases sociais, coisa que parece não terem ainda entendido.

De um modo geral, o Homem é conservador e as Sociedades não são propensas a grandes mudanças, a não ser quando a corda estica demais e o divórcio entre elas e a classe política se torna irreversível. Esperemos portanto que exista um mínimo de inteligência para entender que algo tem de mudar.

Mudar e mudar muito!

O poder político tem de deixar de viver em mancebia com o poder económico pelo qual se deixou capturar. Como bem notou o movimento “Occupy Wall Street”, têm de ser os 99% a mandar e não o 1% que actualmente detém o poder. Os Governos e restantes poderes institucionais, reféns de sistemas partidários obsoletos e de constituções monolíticas que não conseguem acompanhar a velocidade dos tempos, têm de perder o monopólio absoluto que exercem sobre a vida política e deixar que sejam os cidadãos a escolher os seus representantes legítimos, coisa que com o sistema parlamentar representativo, raramente, ou nunca acontece.

Em boa verdade, todas as velhas teorias políticas, apoiadas em teorias económicas completamente obsoletas, elaboradas em alturas em que não existia dinheiro virtual nem as famosas “off-shore”, já não servem, principalmente a uma juventude que nasceu com as novas tecnologias e as entende como uma realidade da sua vida e uma arma para condicionar o poder político. É bom pois que a classe política faça um rápido “upgrade” aos seus processos e comece a lidar com estas novas realidades, pois como qualquer grande mudança social, esta tanto pode trazer benefícios se inteligentemente entendida, como trágicas consequências se olimpicamente ignorada.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A SENSAÇÃO DE PODER.


Em 1957, o visionário escritor Isaac Asimov escreveu um conto que tinha por título “A Sensação de Poder”. Esse conto, em resumo, passa-se numa sociedade futura, dominada pelos computadores, na qual um humilde técnico, pessoa modesta e apagada, percebe que pode manipular os números sem computador de modo a obter os mesmos resultados. Em suma, redescobre a aritmética, há muito tempo esquecida nessa Sociedade futura!
Nos meios militares, a constatação de que alguém conseguia “computar” sem computador, abriu um sem número de possibilidades militares e perante a aterradora ideia de que a sua “(re)descoberta” iria servir para incrementar a guerra, Myron Aub – assim se chamava o homem, suicida-se.
Durante as exéquias funebres, o Programador Shuman, responsável pelo projecto, tem este singular pensamento: ”Nove vezes sete, pensou Shuman com orgulho, sessenta e três. Não precisava mais que um computador lhe dissesse isso. Sua própria cabeça era um computador. E isso lhe dava uma fantástica sensação de poder.”
E assim termina o conto, um verdadeiro caso de antecipação da realidade, sobre o qual o próprio Asimov escreve o seguinte:

No meu conto “A Sensação de Poder”, publicado em 1957, lancei  mão de computadores de bolso, cerca de dez anos antes de tais  computadores se tornarem realidade. Cheguei mesmo a considerar a possibilidade de eles contribuírem para  que as pessoas acabassem perdendo a capacidade  de fazer operações aritméticas à maneira antiga.”

A verdade é que cada vez mais nos fomos habituando a que os resultados apresentados pelas calculadoras e pelos computadores são infalíveis, e como tal, jamais os questionamos.
Esquecemo-nos a maior parte das vezes que qualquer programa processado numa folha de cálculo mais ou menos complexa, não passa de um algoritmo, cujo resultado sempre dependerá da correcção da formulação das operações a executar e da correcção com que são introduzidas as variáveis afectas àquilo que se pretende apurar.
Ao não questionar a construção do algoritmo, ficamos à mercê das potenciais imprecisões contidas nos resultados obtidos e logo, das suas consequências.
Se em muitos casos esta situação não traz males de maior, casos há que se podem tornar dramáticas, tal como alterar a órbita de um satélite, esborrachar um avião contra uma montanha, e até iniciar uma guerra inadvertidamente.
Já foi profundamente escandaloso que o FMI viesse confessar o êrro no cálculo do multiplicador utilizado na medição dos efeitos recessivos da austeridade. Não era afinal de 50 cêntimos por Euro poupado, como defendiam e em que baseavam os cálculos, mas qualquer coisa que anda entre os 90 cêntimos e 1,7 Euros!
Claro que depois ficaram muito surpreendidos com os números do desemprego e a dificuldade de equilibrar as contas públicas nos países sujeitos a fortes programas de austeridade.
O caso mais recente, e aparentemente escandaloso, foi a teoria  de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, o qual se tornou a bíblia sagrada para gente como Vitor Gaspar, Wolfgang Schäuble, Geroge Osborne (Ministro das Finanças do Reino Unido), Oli Rehn e mais uma série de personagens com responsabilidade directa nas políticas de austeridade que estão a ser aplicadas a eito na União Europeia. Este estudo, que concluía que países com uma dívida pública acima dos 90% do PIB nunca conseguiriam crescer, foi agora contestado em vários aspectos:
Em primeiro lugar, este estudo exclui logo à partida países que se afastam do resultado que os autores pretendem demonstrar, com as consequências estatísticas previsíveis. Em segundo lugar, na calibragem destes dados, os coeficientes são iguais para todos os países, o que corresponde em linguagem popular a “misturar alhos com bogalhos”. Finalmente, um erro de código na folha de cálculo (vulgo Excel) utilizada para seleccionar dados, altera em definitivo os resultados finais do estudo.
Despeitados, estes eminentes economistas vêm assumir o erro, mas defendem que as conclusões continuam a estar certas (?).
Todas as revistas científicas e publicações especializadas publicaram o estudo, dando-lhe uma falsa credibilidade, a qual só foi abalada pelo trabalho de académicos da Universidade de Massachusetts, os quais Rogoff se apressou a acusar de querem politizar a questão (!).
É de gritos! Então um estudo que, no mínimo influenciou negativamente toda a economia Europeia não é uma questão emininentemente política?
E é aqui que entronca o simbolismo do conto de Asimov.
Esquecemo-nos de fazer contas. São demasiado complexas e trabalhosas, além de levam muito tempo a fazer, e como se sabe “time is money”... Tomamos como garantido qualquer resultado vomitado por um computador, sem sequer o questionar, eliminando assim a possibilidade de encontrar uma falha electrónica ou humana. Engolimos tudo o que nos dizem, e concretamente sobre a Ciência Económica, ficamos de gatas perante os intitulados “gurus” da economia esquecendo que há uma variável em toda esta situação que jamais poderão sistematizar: O comportamento humano em toda a sua diversidade, racionalidade e irracionalidade, frieza e emotividade e em todas as outras vertentes em que o nosso comportamento é diferente do comportamento de um “chip” de silício.
Enfim, precisamos de voltar a saber quanto são nove vezes sete sem auxilio de calculadora ou computador. Talvez assim recuperemos a verdadeira Sensação de Poder!

** Em desejando ler o conto referido, clique AQUI.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

POLÍTICOS PLAYSATION.

Recorrentemente ocorre uma discussão sobre os cada vez mais realistas jogos de vídeo.
Uma criança de seis ou sete anos, dedilhando com maestria e precisão o comando da sua consola de jogos, pode fantasiar com facilidade a melhor forma de matar zombies ou erradicar vampiros, no meio de realistas gritos de dôr e espalhafatosos esguichos de sangue. Por vezes o inimigo é mais rápido, e num indicador do écran vai-se esvaíndo a saúde do jogador, a qual ele pode recuperar se atingir certos objectivos.
Ao que dizem os psicólogos, isto não é grave, pois de um modo geral não passa de uma catárse em que a criança esgota ali o seu potencial de agressividade, etc... etc...
É evidente que neste tipo de jogo o jogador não corre qualquer tipo de risco, para além da remota possibilidade de um ego ligeiramente abalado, estando totalmente a salvo de uma paulada ou uma mordidela no pescoço.
     
A  profusão de figuras políticas de primeiro plano, que súbitamente invadiram a quase totalidade do nosso espaço televisivo, faz lembrar um pouco os meninos e os seus jogos de vídeo.
         
Com o comentário político, feito ao longo da semana pelas várias “vedetas” contratadas, e apresentadas em regime de contra-programação, os pontos obtidos nos tradicionais jogos de vídeo, são substituídos pela guerra das audiências, que exploram um “voyeurismo” político da mesma natureza da que leva o Povo a regozijar-se com eventuais cenas de sexo ou violência nos “reality shows”, tais como o Big Brother ou a Casa dos Segredos. O prémio, em vez de ser um “score” de créditos no fim do jogo, resume-se áquilo que chamam de “share” televisivo.
Ele são ex-Primeiros Ministros, ex-Ministros, ex-Lideres Partidários, ex-Deputados, e em tal profusão, que nem um honesto “zapping” permite que um sossegado cidadão se livre desta praga, sendo obrigado a levar com maus concursos, novelas ou séries profusamente repetidas nos canais do cabo. Parece uma maldição!
Tal como o jogador de consola não corre nunca o risco de ser mordido pelo vampiro que pretende aniquilar, estas “figuras públicas” também assim evitam todo e qualquer risco político. Fazem a apologia das políticas que levaram a efeito, e que em última análise nos conduziram à desgraça actual, sem o mínimo pudor ou a mais leve assumpção de culpas. Quem os ouvir poderá ficar a matutar sobre quem foram de facto os verdadeiros responsáveis pela situação económico/financeira que lançou Portugal nas garras dos chamados “mercados”, que mais não são do que os bancos e instituições financeiras daqueles países que era suposto serem nossos aliados, no âmbito de uma falhada União Europeia, actualmente moribunda, vítima do seu próprio cancro: O Euro!
Entretanto, nas pantalhas das nossas televisões, os verdadeiros obreiros da catástrofe vão perorando, sugerindo políticas que nunca puseram em prática, acusando os adversáriois e justificando as suas próprias actuações.
E isto sem risco nenhum, pois não estão a assumir nenhum compromisso eleitoral, nem  mesmo cívico. Estão para ali, a dizer baboseiras e formulando elocubrações de carácter teórico ou irrealista, na esperança de fazer uma prova de vida, não vá o destino meter-lhes o poder ao alcance da mão através de um qualquer acto eleitoral!
São políticos que estão a jogar playsation, jogo no qual os zombies ou os vampiros somos nós, cidadãos eleitores, torturados pelos resultados das más políticas e falta de seriedade, praticados nos Governos em que participaram e o prémio, para além do que de pecuniário possa ter, é a enérgica masturbação intelectual que tanto prazer lhes parece dar ao se inteirarem do seu famoso “share”.
José Sócrates, Santana Lopes, Marques Mendes, Santos Silva, Manuela Ferreira Leite, Jorge Coelho, Manuel Cravinho, Marcelo Rebêlo de Sousa, Francisco Louçã, Bagão Félix, Nuno Morais Sarmento, Paulo Rangel e mais uma legião de deputados-comentadores, vão desfilando no pequeno ecran, a uma velocidade quase supersónica, em programas semanais de “comentário” político, levando ao extremo o exercício do auto-elogio e da vaidade desmedida, praticando com naturalidade o tradicional jogo da demagogia e do mal-dizer.
      
Enfim... Política Portuguesa do Sec. XXI, uma verdadeira política levada a efeito por políticos Playsation!

segunda-feira, 18 de março de 2013

PORTUGAL SITIADO.

Há no ar uma sensação de sufoco! Um sentimento de impotência que nos aperta o coração, angústia a alma e faz nascer uma raiva que começa a ficar incontida.
Depois de ver como a UE tratou a questão de Chipre, a falta de respeito e a arrogância das suas posições, sinto que a Europa do Norte, marchando em passo de ganso ao ritmo do rufar dos tambores Alemães, não hesitará em apertar ainda mais o jugo sobre Portugal, país com 900 anos de História independente - com um breve hiato de 60 anos - e que tem sido tratado pela burguesia da Europa como um maltrapilho, sem eira-nem-beira e pouco merecedor do respeito dos outros.
Bem sei que as últimas décadas de uma democracia deficiente, oligárquica e distante do Povo, não nos terá granjeado grandes simpatias. O provincianismo bacôco de governantes deslumbrados, quais aves do paraíso, com o seu papel na História, puseram o País numa situação de grande dependência financeira, humilhante e da qual não parece ser possível sair pelos seus próprios meios.
Sem tradição política, passada a 1ª geração em democracia, emergiram os pequenos profissionais da política, oriundos da Juventudes Partidárias, provávelmente inúteis noutras profissões, e que rápidamente começaram a delapidar o País.
Inchados com as suas noveis funções governativas, passeiam-se impantes e convencidos nos carros pagos por nós, movidos com a nossa gasolina e conduzidos pelos motoristas a quem pagamos o ordenado. O decrépito Falcon da Força Aérea fá-los pensar que têm um avião particular, assim como os grandes magnatas da finança e da política. Gabam-se de tratar por tu vários 1ºs Ministros Europeus, e afinal, de que nos serviu a nós tamanha demonstração de ridículos novo-riquismo e vaidade?
Na hora da verdade, que inexorávelmente se abateria sobre as nossas cabeças, verificamos que nada de positivo nos é proposto e que nada se divisa, nem para lá da linha do horizonte, que nos apresente um futuro razoávelmente aceitável.
Portugal está sitiado!
Está sitiado por aqueles que deviam ser aliados e “compagnos de route”, o que torna a situação ainda mais amarga.
O Governo tem errado e falhado rotundamente, baseando-se em cálculos, projecções e previsões de um ministro que não consegue acertar em nenhuma das  suas profecias, e as promessas de que a crise tem fim à vista, vão sendo proteladas de trimestre para trimestre, de semestre para semestre, e enfim... de ano para ano! Esperemos que não venha a ser de década para década...
A credibilidade deste Governo, em que uma parte considerável dos Portugueses depositava esperança, tem apodrecido rápidamente, minando de forma quase irreparável os alicerces que suportam a estrutura da nossa sociedade. Depois, num assomo de esquizofrenia política, anuncia com um ar grave e decidido que “estamos no bom caminho!” (???)
Por outro lado, o maior partido da oposição é um deserto de ideias e soluções. Pomposamente criou aquilo a que chamou de “Laboratório de Ideias”, mas pelo que se vê este parece estar encerrado para balanço, pois de lá, que se saiba, nenhuma ideia saiu com vista a uma solução para Portugal. Apenas os ouvimos perorar acerca do erro do caminho seguido pelo Governo e afirmar que com eles existiria um Programa para o Emprego e para o Crescimento. Enfim... como dizem os Ingleses, “Wishfull Thinking”, pois, após arranhada a superfície desta trinotroante afirmação, deparamo-nos com um vazio absoluto.
Dos outros nem vale a pena falar. Mera política de terra queimada, que embora indiquem um caminho plausível, este jamais poderia ser trilhado da forma como advogam fazê-lo.
Claro que seria de supor que, integrados numa União Europeia, seríamos ajudados pelos nossos parceiros, mas como constatamos esta chamada “União” é uma palavra vazia de sentido e de conteúdo.
Esta União, que foi formada para refrear os históricos e compulsivos instintos hegemónicos da Alemanha sobre a Europa, acabou por criar a arma perfeita. Aquela arma que qualquer conquistador sonharia em ter. Algo que, como a bomba de neutrões aniquila a população sem destruir as estruturas, e a essa arma deram cínicamente o nome de Euro!
O Euro, criado à imagem do Marco, deu aos Países uma falsa sensação de pertença, uma moeda de todos e para a qual todos contribuíam.
Nada mais falso: O Euro não passa de um Marco travestido em moeda única, mas que apenas pertence à Alemanha servindo incondicionalmente os seus interesses e assim, de uma forma ou de outra, os Países foram baqueando uns atrás dos outros, vergados à poderosa economia Alemã que a todos impôs os seus “dictacts”.
É bom recordar que os nossos déficits são postos de trabalho e superavits comerciais na Alemanha, portanto a soberba dos seus reparos à nossa economia, poderia ser menos indecorosa.
A generosidade inicial enganou-nos bem, mas teve apenas como fito destruir a nossa indústria, pescas e agricultura. As normas Europeias foram-se tornando cada vez mais exigentes, esforçando a economia para lá do que era aceitável. Exigiram-se, por exemplo, a substituição das gaiolas das galinhas poedeiras, com enormes custos para os avicultores em nome do bem estar das aves, mas por outro lado foram-se retirando apoios sociais e permitindo a destruição de emprego, lançando na pobreza milhares de famílias. Pelos vistos, respeitam mais as galinhas do que as pessoas! Nem vale a pena continuar aqui a desfiar este rosário de misérias, pois infelizmente quase todos os Portugueses o conhecem.
Convinha pois começar a romper com alguns tabus, coisa que muito assusta os políticos e a banca, e começar por partir do principio de que só poderemos sobreviver a esta guerra se destruirmos a arma que contra nós é utilizada: O famigerado Euro!
Sempre que este assunto vem à baila, são acenados os fantasmas da desvalorização, da bancarôta, da miséria, etc... Mas afinal não é já isso que acontece? O nosso PIB decresce – e há-de continuar a decrescer - logo, a dívida aumenta percentualmente, consequentemente os juros sobem e miséria alastra.
Será isto que os Portugueses querem? Tão afoitos que foram no passado a enfrentar o desconhecido do grande Mar Oceano, encolhem-se agora perante as ameaças de contabilistas e seus amanuenses?
Não posso querer que todos pensem como eu, que estejam dispostos a correr os mesmos riscos, ou até se já se lhes varreu do espírito a noção de Pátria que ainda tenho tão arreigada em mim, mas ao menos forcem a discussão.
Não deixem que vos assustem só com ameaças de desgraça, em que o monopólio das opiniões vem normalmente de quem se enganou sempre e em tudo.
Vamos ver se por uma vez, em vez de andar para aí a gritar “ladrões”, “demitam-se”, etc... Que alivia, bem sei, mas não serve para nada, gritem exigindo uma revisão dos Tratados da (Des)União Europeia e a extinção dessa arma de destruição maciça em que o Euro se tornou.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

PORTUGAL ESQUIZOFRÉNICO.

Hoje, num programa de televisão, um “forum” com participação popular, fiquei siderado com a intervenção de um cidadão de Beja, empresário, de 37 anos de idade. Dizia então esse senhor: “Ora, se temos crianças com fome, então temos de mudar de Governo. É preferível ter outro Governo, do que ter crianças com fome em Portugal!” O tom da intervenção foi tão cândido, que quase podíamos ser levados a pensar que ambas as coisas estariam directamente relacionadas, sendo que os meios financeiros necessários para resolver os problemas da fome, não passariam de uma mera abstracção, que facilmente seria resolvida com uma mudança de Governo.
É claro que este raciocínio está profundamente enquinado pela forma como se faz política em Portugal.
Enquanto a oposição clama por “sol na eira e chuva no nabal”, o Governo tem preferido reparar a eira e lavrar o nabal, na expectativa de melhores resultados futuros. É claro que esta diferença de atitude tem um profundo reflexo na opinião pública, de um modo geral desinformada e intoxicada com propagandas partidárias várias, que pululam da esquerda à direita do espectro político nacional.
É evidente que a população que mais sofre com isto manifesta-se desagradada com as posições Governamentais, embalada que está no canto de sereia das oposições irresponsáveis.
É por demais evidente que o Partido Socialista, se agora ascendesse ao poder, não conseguiria fazer nada de diferente do que está a ser feito, ou então lançaria o País na mais desastrosa  bancarrota.
Portugal tornou-se num País políticamente esquizofrénico, em que toda a gente quer simultâneamente uma coisa e o seu contrário.
Uns pregam a austeridade a todo o custo, mostrando grande insensibilidade, e não reconhecendo que os resultados não têm atingido os objectivos esperados, mostram-se surpreendidos por isso, não admitindo nem por um segundo, que se tenham enganado nos pressupostos de partida. Os outros lá vão dizendo que são a favor da austeridade, mas não DESTA austeridade, sem apresentar nenhum plano concreto de alternativa viável.
O Governo anuncia que vai diluir os 13º e 14º meses ao longo do ano. Vem a Confederação Portuguesa do Comércio clamar que essa medida lhes daria cabo da vendas Natalícias. O Governo então decide que isto só acontecerá com o subsídio de férias, e logo os operadores de Turismo gritam que isso lhes vai destruir do negócio. E afinal em que ficamos? Numa solução salomonica, que pelos vistos não agrada a ninguém.
Os Portugueses dão 13% dos votos ao Partido Comunista e ao Bloco de Esquerda, mas depois dão-lhes força na rua para contestar o Governo que elegeram.
Enfim... Isto é esquizofrenia.
A desonestidade do comentário político é gritante! Diz-se que a TAP será vendida a preço de saldo, 20M de Euros, sem explicar que existe um passivo de 1.200M de Euros, mais uma necessidade imediata de reforçar os capitais próprios em 500M de Euros, além de toda a operação financeira necessária à renovação da frota.
Os demagogos contumazes do Bloco de Esquerda gritam que existem 12.000M de Euros para ajudar a Banca, mas que não há dinheiro para os reformados, “esquecendo-se” estrategicamente de referir que os Bancos estão a pagar uma taxa de juro de 8,5% ao Estado, dinheiro que foi emprestado a uma média 3,6%.
Enfim, um enorme fluxo de informação falsa, distorcida e demagógica, vai escorrendo dos jornais e das televisões, para uma opinião pública geralmente mal informada, e que teima em só ter como verdadeiras as notícias que lhe agradam.
Todos opinam sobre tudo e sobre nada!
E assim vai o nosso “Portugalete”, “pobrete, mas não alegrete”, confundido, desiludido e irado com a situação em que se encontra, com um medo irracional de correr riscos, esperando sempre que alguém os corra por ele, ou que no mínimo lhe dê garantias de ressarcimento caso as coisas não corram bem. Este “Portugalete” que se endividou a comprar casa própria porque nenhum Governo se atreveu a mexer numa lei da rendas, intocada, ou quase, desde 1948. Este “Portugalete” que na ilusão do dinheiro fácil e garantido, aderiu entusiasticamente à Europa e ao Euro sem cuidar da factura que fatalmente lhe viria ser apresentada. Este “Portugalete” que votou permanentemente em Governos que prometiam o que não podiam proporcionar. Este “Portugalete” onde o carreirismo é rei e a meritocracia mal vista. Este “Portugalete” onde a burocracia impera impunemente, alimentando-se do desespero dos cidadãos. Este “Portugalete” que só brama contra a corrupção quando lhe vão ao bolso. Este “Portugalete” que “engole” tudo o que lhe metem pela goela abaixo, na esperança de que as coisas possam vir a ser diferentes.
Einstein costumava afirmar que fazer a mesma coisa vezes sem conta à espera de resultados diferentes, não passava de uma forma de loucura.
Eu concordo totalmente com ele: Portugal está esquizofrénico!

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

SOB A TUTELA DO MEDO.



Quando era pequeno, lembro-me de me assustarem dizendo: “Se não come a sopa toda, chamo o polícia!”.
Não sei o que teria de assutadora, a figura gorda e cheia de bonomia, que regularmente patrulhava a nossa rua. Era um homem grande, que vestia uma farda de coçado cotim, com uma considerável concentração de gordura na zona da nuca, cujas calças largueironas eram presas por um largo cinturão, do qual sobressaía o coldre da pistola e pendia um ameaçador bastão.
Na realidade, por pouco assustador que o guarda de giro fosse, a verdade é que eu, mediante a ameaça, comia a sopinha toda e não refilava. Pelos vistos, o medo fazia o seu caminho e sobrepunha-se à minha falta de vontade de comer a mistela a que chamavam de sopa.
De facto, o medo sempre constituiu uma arma poderosa, que consolidou reinados, que impôs morais e que sempre constituiu uma poderosa arma política, que se bem utilizada, funciona com uma enorme eficiência. Na sua obra prima “O Principe”, já Nicolau Maquiavel dizia que a um soberano servia mais ser temido do que amado. Esta é realmente a verdadeira e sinistra dimensão política do medo.
Hoje em dia, nos tempos conturbados que atravessamos, somos regular e presistentemente ameaçados com a saída do Euro, e o alegadamente desastroso regresso ao Escudo.
Na verdade, vão aparecendo estudos e planos que não confirmam nem preconizam um desastre de grandes dimensões para essa eventualidade. Um regresso programado e bem organizado à moeda nacional para transacções internas e a constituição de reservas de divisas fortes para as transacções internacionais, não só se apresenta viável, como até recomendável.
Com soberania sobre a nossa moeda, poderíamos desvalorizá-la com cautela, de modo a controlar a recuperação da economia sem o desastre social, económico e financeiro que nos está, e continuará por largo tempo, a ser imposto.
Então porquê assustar as populações? Porquê instalar um medo quase irracional e apresentar como tragédia o retorno à moeda nacional, mesmo sabendo todos no intímo que mais tarde ou mais será inevitável acontecer? A quem aproveita este culto do medo do regresso ao Escudo?
Em primeiro lugar não podemos esquecer que de há umas décadas para cá, vivemos sob a tutela de poderes políticos totalmente capturados pelo poder financeiro, e este último só tem a ganhar com a situação vigente.
Os políticos, ao serviço do poder financeiro, através da forma como se foram endividando e hipotecando os seus Países, pensam com temor na quantidade de vantagens, poder, previlégios e mordomias que perderiam se não zelassem pelos superiores interesses de quem os tutela. A Banca, é claro, seria confrontada com um esquema cambial que em nada beneficiaria as pouco claras transacções e aplicações dos tais “produtos complexos”, acerca dos quais, nem mesmo eles entendem totalmente o funcionamento.
No fundo, como o padrão da moeda passou a ser a dimensão da dívida, confrontamo-nos com o paradoxo de que quem é mais rico é quem mais hipóteses tem de se endividar. O dinheiro deixou de ser um meio de pagamento, e passou ele próprio a ser uma simples mercadoria.
Estando Portugal inserido numa zona monetária, constituída por Paises com economias de sustentabilidade completamente diversa, pouco interessará às economias mais poderosas a recuperação das mais debilitadas, pois a situação actual dá-lhes competitividade à moeda, beneficiando da fraqueza dos mais pobres, mas que apesar de tudo constituem mercados de consumidores, que assim podem ser controlados pelas economias mais fortes. Lembrem-se das tremendas pressões de que Portugal foi vítima por parte do Governo Alemão, aquando a privatização da EDP, e que só não conseguiu os seus intentos porque os Chineses puseram a fasquia tão alta, que nem a Alemanha lá pôde chegar.
A tentativa de Germanização das economias da Europa do Sul, controlando intolerávelmente os custos do trabalho e do consumo interno, aliada aos movimentos políticos tendentes a modernizar a industria Rússa, dariam finalmente à Alemanha aquilo que ela não conseguiu por via das armas: Uma hegemonia Europeia de grande alcance político e económico e cuja arma utilizada, mais não é do que o Euro.
Não nos deixemos portanto sucumbir ao medo que nos está premeditadamente a ser instilado, com inconfessáveis e sinistros objectivos políticos.
Defendamos pois o regresso à soberania da nossa moeda e denunciemos as miseráveis manobras que estão sendo levadas a cabo, amedrontando e mentindo às populações, omitindo e falseando as opiniões e os estudos de reputados economistas, divulgando apenas o trabalho de gente que já está total e completamente capturada pelo poder financeiro e que nada está preocupada com o bem estar das Sociedades..

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

SOB O SIGNO DA ESTRELA DE DAVID.

Tenho de começar por esclarecer que nada me move contra os Judeus em geral, e muito menos em particular, já que tenho muitos amigos Judeus que muito prezo e admiro.
Esta espécie de registo de interesses justifica-se pelo facto de que se o não fizesse, seria provávelmente apelidado de xenófobo, racista e anti-semita, coisa que não sou.
Por outro lado, se a minha tolerância não tem eco do outro lado da “barricada”, então sinto-me suficientemente liberto e desinibido para exteriorizar sem complexos, algumas coisas que me incomodam, mesmo correndo o risco de ser “políticamente incorrecto”.
O facto de eu não ser anti-semita  não significa que eu aceite com facilidade as filosofias e políticas ditas Sionistas. O Sionismo, e para isso basta consultar a acessível  Wikipedia, trata-se de uma filosofia política, baseada num Nacionalismo exacerbado que, resumidamente, tudo justifica em prol do Estado de Israel, sem olhar a meios ou métodos, que não só o mantenham, como também o reforcem.
Vem tudo isto a propósito de uma conferência, recentemente ocorrida na Fundação Gulbenkian sob o signo de “Os Refugiados do Holocausto e Portugal”.
Não posso deixar de reconhecer a importância do tema, que ao que parece foi ampla e abertamente discutido. Não tendo assistido a este simpósio, mais não me resta do que comentar o que a imprensa de referencia publicou sobre o assunto, e assim, aqui me arrogo o direito de interpelar o Embaixador de Israel em Lisboa, Sr. Ehud Gol, que no âmbito deste encontro se atreveu a tecer juízos e comentários  que de forma nenhuma posso aceitar.
Diz este diplomata  que Portugal tem “uma nódoa” que os Judeus não esquecem. E que “nódoa” é essa? A de que “Portugal foi o único País  que colocou a bandeira a meia haste durante três dias, quando foi conhecida a morte de Hitler”.
Pois bem, se me perguntarem se concordo? Não concordo! Mas que raio, eu ainda nem tinha nascido, e portanto, com propriedade me pergunto, o que tenho eu a ver com isso?
Não creio que o senhor Gold achasse correcto que fosse intrepelado  pelo facto dos seus antepassados terem libertado o ladrão Barrabás e enviado Cristo para a cruz.
Depois surge uma crítica sobre a ruína em que se encontra a casa de Aristides Sousa Mendes, utilizando termos, no mínimo indelicados, afirmando a certo passo: “Não venham ter connosco, ou com os EUA para tratarmos da casa. Façam vocês algo para promoverem os vossos “justos”.” Ora bem, os meus "justos" sou eu que os classifico e não qualquer estrangeiro, seja ele Diplomata ou carroceiro.
Dadas as circunstâncias históricas, no meu ponto de vista, isto não só é ofensivo, como realmente intolerável! Temos tanto Património histórico a recuperar, que não descortino a enorme prioridade dada à casa de Sousa Mendes, um solar em ruínas, como muitos outros, perdido lá na profundeza das Beiras, e sobre o qual, nem os herdeiros se entendem.
Para lá desta enorme falta de educação e de arrogância, o embaixador mostrou-se chocado pelo facto de os “professores Portugueses não aprenderem nem ensinarem o suficiente sobre o holocausto”, acrescentando que esta formação é ministrada  pela escola internacional do Yad Vashen (o Memorial do Holocausto em Jerusalem). Ora bem, e porquê? Isso será mais importante do que, por exemplo, do que ensinar sobre o desastre de Alcacer Quibir?
Não acredito que qualquer pessoa com um módico de sensibilidade e humanidade, possa ficar  insensível à barbárie em que consistiu o holocausto, mas daí a tornar-se obrigatóriamente um assunto prioritário no nosso programa de ensino obrigatório, vai uma enorme diferença.
Há também que não esquecer os massacres prepretados por Israelitas em aldeias Palestinas nos anos do pós-guerra, do constante atropêlo aos direitos humanos levados a cabo sobre populações civis na faixa de Gaza, da insidiosa invasão de colonatos em território da Cisjordânia,  o massacre levado a cabo por Ariel Sharon sobre campos de refugiados Palestinos na Jordânia, no qual nem os cavalos escaparam, e tantas outras indignidades, como a construção de um "muro", com todas as suas conotações, que define a fronteira entre Israel e Gaza.
No seu geral, trata-se de uma história triste e repleta de barbaridades, que não pode ser perpetuada, sendo permanentemente extirpada dos actos de um lado e potenciada pelos actos do outro.
Tenho institucionalmente respeito pelo Corpo Diplomático e pelos Diplomatas em geral, mas como “quem não se sente, não é filho de boa gente”, aconselho o senhor Gold a ter alguma moderação na forma como se dirige aos Portugueses. Em primeiro lugar, porque objectivamente não participaram, nem directa ou indirectamente no holocausto, e em segundo, porque não aceitamos lições de moral de ninguém, muito menos do representante de um Povo, que tendo sido vítima de um crime hediondo, não se pode arrogar ao direito de invocar esse crime “ad saeculae saecolorum” como uma justificação para crimes do mesmo tipo, praticados em nome de uma filosofia política igualmente odiosa, dando sempre como justificação o seu próprio sofrimento. Sem se dar conta (ou talvez não), o Estado de Israel está-se a colocar moralmente ao mesmo nível daqueles a quem acusam de tentarem o seu genocídio.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

ACERCA DE “BEZERROS DE OURO” E “VACAS SAGRADAS”.


Não sou historiador, nem mesmo um estudioso, mas a ideia que tenho é de que o primeiro simulacro de um texto Constitucional foi-nos trazido pela mão de Moisés e mais não continha do que um conjunto muito simple de regras, às quais chamámos de “Dez Mandamentos”.
O Decálogo não passa da enunciação simples de dez princípios básicos que deveriam reger a humanidade. O “Não matarás!” é absoluto, mas fica depois para as autoridades vigentes, a avaliação da culpa, se foi por maldade, legítima defesa, negligência, etc... No entanto a base está lá e é absoluta: “Não matarás!”
Claro que Moisés, para fazer respeitar o Decálogo teve de se impor ao seu Povo, destruindo um blasfemo e pagão Bezerro de Ouro, que vinha sendo adorado à sombra de orgias, roubos e assassinatos. A partir desse momento, o simbolismo do Bezerro de Ouro passou a ser utilizado para infamar e expurgar das Sociedades todos os vícios e desvios que atentavam contra a sã convivência e respeito pelo próximo, como meio de promover a concórdia, explicitando bem o que não pode ser feito, e por exclusão de partes, o que é permitido fazer.
Se repararmos bem, este devia ser verdadeiramente o papel de uma Constituição: Derrubar os Bezerro de Ouro e promover a justiça e a concórdia entre os Cidadãos. A regulamentação desses comportamentos, essa ficaria sempre a cargo das elites dirigentes, que sempre poderiam divergir nas ideologias, mas nunca nos princípios morais fundadores do respeito do Homem pelo Homem.
Já em 1215, a “Magna Charta Libertatum seu Concordiam inter regem Johannen at barones pro concessione libertatum ecclesiae et regni angliae”! (Grande Carta das liberdades, ou Concórdia entre o rei João e os Barões para a outorga das liberdades da Igreja e do rei Inglês), mais conhecida somente por Magna Carta, foi outorgada, não para defender os poderosos, mas sim para equilibrar os vários poderes e proteger o Povo, e assim, quase 800 anos depois continua a representar a base Constitucional do Povo Inglês, que pode ser acusado de tudo, menos de antidemocrático.
A constituição dos EUA, redigida por Thomas Jefferson, tem na sua origem pouco mais de uma folha, tendo essa mesma folha promovido a democracia por quase um quarto de milénio.
Por cá, por esta Europa continental infectada pelos preceitos da Revolução Francesa e seus ideólogos radicais, entendeu-se que as Constituições deveriam comportar ideologia, com aquela ideia redutora professada pelas elites inferiores e inseguras, de que o Povo deveria ser defendido de si próprio, e assim, as Constituições que deveriam ser a prevenção de noveis Bezerros de Ouro, tornaram-se elas próprias em Vacas Sagradas.
Específicamente entre nós, após a primordial Constituição de 1820, vieram-nos dizer em 1910 que TÍNHAMOS de ser Republicanos, em 1933, com o advento do Estado Novo, a "Bem da Nação" não havia qualquer possibilidade de discordância com o regime estabelecido. Em 1976 disseram-nos que TÍNHAMOS de ser Socialistas, ou tendencialmente Socialistas(?)!
Curioso, este entendimento da Democracia, que em certos casos não nos dá liberdade de escolha e em outros nos impõe a sua própria escolha, sob o argumento de que a Assembleia Constituinte tinha a representatividade Popular. E não tinha como todos sabemos, não só pela forma como foi constituída a Assembleia, como pela forma em que foi votada e aprovada a Constituição!
E assim, retocada mas intocada na sua carga ideológica, a Vaca Sagrada prosseguiu a sua marcha, ao sabor de todas as incompetencias governamentais e de todos os interesses partidários, quando não mesmo de interesses meramente pessoais ou corporativos.
Deste modo, presos na nossa própria teia, reféns da incúria e estupidez das várias classes dirigentes, dificilmente conseguiremos enviar a Vaca Sagrada para o matadouro, no qual há muito deveria ter sido levada a cabo uma piedosa e indolor execução, extirpando-lhe de vez toda e qualquer carga programática.
Entretanto, com o mundo a mudar à nossa volta, com manifesta incapacidade de gerarmos riqueza, com condições internas e externas completamente diferentes das de 1976, vamos alegremente alimentando a Vaca Sagrada, na ilusão de que ela nos protegerá da cólera dos Deuses, como se pensara há milénios, acerca do profano Bezerro de Ouro.
Com as questões ideológicas protegidas ou proíbidas pela chamada Lei Fundamental, é de prever que, de tão alimentada ideológicamente, a Vaca Sagrada que é a nossa Constituição, acabe por nos soterrar no seu próprio estrume, o qual será inevitávelmente lavado para as sarjetas pelas mangueiras do progresso.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

UMA REFLEXÃO OPORTUNA.



Ontem revi o filme de Bertolucci, "Kundun". É um filme muito bem feito e que retrata de uma maneira carinhosa, mas fiel, a ímpar figura do actual Dalai Lhama.
Não sou budista, mas entendo quanto é sedutora uma filosofia, tornada religião, que professa os valôres fundamentais de uma moral universal: O respeito pela vida em todas as suas manifestações, o profundo respeito e amôr ao próximo, a tolerância e a apologia da não-violência, levada às suas últimas consequências.
Esta história, que tão bem conhecia, levou-me a pensar de novo no que estará errado na nossa sociedade, no que gera os conflitos, no que nos torna intolerantes.
No fundo, a verdade é que nos custa aceitar os que não pensam como nós, os que não agem como nós e os que não são como nós.
Esta reflexão, apanhou-me ao adormecer, pensando se não deveria ser mais consensual, ou talvez menos conflituoso, naquela "twiligth zone" em que a política e a vida pública se misturam de forma quase osmótica com o espírito e a moral.
Hoje, esperando num consultório médico a hora de ser atendido, passei os olhos naquelas revistas "jurássicas" que se amontoam normalmente nas salas de espera.
No meio daquele monte confuso de papeis, uma pequena publicação, quase artesanal, chamou-me a atenção. A data era de 1988 (!) e o nome a "Cruzada".
Curioso passei-lhe uma vista de olhos. É uma publicação católica, simples e "naíf", com artigos díspares sobre a Igreja Católica, vidas dos santos, testemunhos de fé, etc... Um desses artigos, recordando a personalidade do Papa Paulo VI, reproduzia o seu testamento, que eu li com interesse.
A determinado passo, diz Paulo VI:

 
"Sobre o mundo: Não se julgue que é ajudá-lo adoptar-lhe os pensamentos, os costumes e os gostos, mas sim estudá-lo, amá-lo e servi-lo."

Apercebi-me de súbito que esta pequena passagem respondia em grande parte às interrogações com que tinha adormecido na véspera.
Cáspite! Como me foi aparecer à frente uma publicação de 1988 com tão singular texto?

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

NÃO FUI EU! FOI AQUELE MENINO...


Quem não se lembra, nos idos tempos de escola, do “queixinhas” da turma? Aquele que fazia a asneira e quando era repreendido, de olhos húmidos e nariz ranhoso, baixava o olhar e apontando indiscriminadamente para alguém, respondia com voz sumida: “Não fui eu! Foi aquele menino...”
Este personagem antipático, incapaz de admitir a sua culpa com dignidade, era sempre apontado como aquilo que cada um de nós, ainda crianças, não nos devíamos tornar em adultos.
Esta lembrança remota do “queixinhas” de serviço, tem-me ocorrido nos últimos tempos, sempre que oiço alguém afirmar com um ar indignado que não foi o culpado da crise que o País atravessa, que não gastou acima das suas possibilidades e que não é responsável por uma dívida que não contraíu.
O passo seguinte é o de encontrar os ”verdadeiros” culpados, e aí a panóplia é vasta. Desde os revolucionários do 25 de Abril, passando pelos vários Governos e terminando fatalmente no actual, há versões para todos os gostos e paladares.
A única coisa que não vi, foi alguém assumir as verdadeiras responsabilidades.
Todos nós somos culpados! Não interessa sequer saber se somos mais ou menos culpados. Somos culpados, PONTO FINAL.
Independentemente da perplexidade que me assalta à vista das últimas manigancias e trapalhadas em torno do Orçamento de Estado para 2013, não posso deixar de concordar com o Ministro das Finanças, quando ele afirma que os Portugueses terão de escolher entre impostos altos e funções sociais do Estado.
E vamos mesmo ter de escolher!
Um País que durante décadas consumiu mais 10% do que produziu, e isto são dados reais, objectivos e mensuráveis, é colectivamente responsável pelo actual descalabro das contas públicas. Um País de pelintras que é o País Europeu no qual existe o maior numero de pessoas com segunda habitação, é solidáriamente responsável pela dívida externa de Portugal.
Como não entender que com uma inversão total da pirâmide demográfica, é impossível assegurar as reformas esperadas, se dentro de poucos anos não teremos gente suficiente para descontar para elas? E, em última análise, quem votou nos sucessivos Governos que nos enterraram em anteriores intervenções do FMI, que fomentaram o despesismo individual, que nos impuseram o raio de uma moeda que só nos tem empobrecido e em políticos incapazes de alterar uma Constituição decrépita e prenhe de ideologia? Fomos todos nós!
Há depois quem diga que não votou, que votou em branco ou que votou sempre em partidos que não ganharam. Pois é! Mas é assim que diz a nossa Constituição e são assim as regras do jogo, por muito que não concordemos com uma e com as outras. Platão dizia que quem não se envolve na política, acaba sempre por ser governado por gente inferior, o que manifestamente parece ter a concordância de toda a gente, pelo menos a avaliar pelo descrédito generalizado da classe política e que se transforma num clamor quase nacional, relativo a abusos e previlégios, que sempre existiram e com os quais nunca ninguém verdadeiramente se preocupou.
Portanto, assumamos as nossas responsabilidades. Somos todos culpados!
Desde baixas médicas com pouca justificação real, até a várias habilidades com prestações sociais, passando situações de benefício, mesmo que legal, dificilmente justificáveis, toda a gente participou, com maior ou menor benifício, no déficit das contas públicas.
Não vale a pena, pois, imitar o “queixinhas” da escola, e com os olhos lacrimejantes, dizermos: “A culpa não foi minha! A culpa foi deste ou daquele...” pois isso não corresponde à verdade.
Na realidade, a culpa foi nossa, nossa de todos nós, dos que fizeram ou deixaram fazer, dos que roubaram e dos que se deixaram roubar, dos que votaram e dos que se abstiveram, dos que aproveitaram ou deixaram aproveitar.
Não vale a pena enjeitar responsabilidades, pois não é isso que as vai fazer mitigar, nem fazer desaparecer como num passe de mágica, a difícilima situação em que nos deixámos colocar

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O RICAÇO E O PELINTRA.


O Fonseca já não via o Antunes há uns bons anos.
Desde os tempos de colégio, nos quais partilhara a sua carteira com ele, as suas vidas divergiram, e só de tempos a tempos, em notícias de jornal ou pela boca de velhos conhecidos comuns, se foi dando conta de que o Antunes tinha subido na vida e se instalara no topo da pirâmide social. Em suma: O Antunes fizera fortuna!
Assim, quando se dirigia para o edifício do velho Colégio, no qual se organizara um encontro dos alunos do seu curso, perguntou-se se o Antunes lá estaria. Teria descido à plebe, com o objectivo de resgatar velhas memórias dos tempos do idealismo e da inocência?
Pois bem, logo que franqueou a porta, o Antunes dirigiu-se a ele, de braços abertos e estreitou-o num estranho, mas efusivo e forte  amplexo.
“Fonseca! Há quantos anos companheiro? Não imaginas as vezes que tenho pensado em ti... que é feito de ti, rapaz? “. Um pouco desconcertado, Fonseca, a quem a vida não tinha corrido de feição, retribuiu o cumprimento e balbuciou um clássico e muito Português“...lá vou andando...”
Trocaram-se mais alguns cumprimentos de circunstância, e como a cerimónia estava chata e a hora do jantar se aproximava, o Antunes alvitrou que fossem os dois jantar para “pôr a conversa em dia”. Um pouco atrapalhado e pensando na escassez do seu saldo bancário, o Fonseca sugeriu, meio envergonhado, que só se pagassem a conta a meias, ao que o Antunes logo acedeu, dando-lhe uma palmada nas costas. “Tal como nos velhos tempos, não é Fonseca?” E lá partiram os dois em direcção à baixa em busca de um restaurante.
O bulício da rua, a vozearia geral, as gargalhadas dispersas, e aqui ou ali, a buzina de um carro, quase causavam tonturas ao pobre do Fonseca, que dava tratos à cabeça para se lembrar de um restaurante digno, mas que não fosse muito caro.
Afinal, ele um pelintra, com um emprego de que não gostava, mal pago e precário, estava ali para jantar com o seu amigo que entretanto se tornara milionário. E se acaso o Antunes lhe arranjasse um trabalho? Poderia ele sugerir isso de forma pouco ostensiva? Seria que ele o ajudaria? Bem podia, caramba...
De repente viu um restaurante que conhecia, que era razoável e acessível, ao qual ele de vez enquanto levava a jantar uma das suas sucessivas namoradas. Agarrou o braço do Antunes e sugeriu: “Olha lá, vamos aqui a este. Eu conheço o pessoal.  Eles são sempre muito simpáticos e...” O Antunes olhou para dentro do restaurante, torceu o nariz e retorquiu: “Eh pá, aqui a comida não presta, vamos antes aquela marisqueira ali à frente.” E a passos largos dirigiu-se para uma marisqueira que exibia na montra uns aquários com os mais diversos crustáceos. O Fonseca titubeou qualquer coisa, tomado de aflição, mas não teve outro remédio senão seguir o outro.
Já sentados à mesa, o Fonseca olhou para a ementa e os seus olhos pregaram-se na coluna da direita, não querendo sequer saber quais os pratos disponíveis.
Quando o criado se aproximou, cumprimentou o Antunes com alguma familiariedade e perguntou ao Fonseca: “Que vai querer o senhor?...” O Fonseca com uma voz meio sumida respondeu: “Olhe... traga-me um bitoque e uma imperial.” O Antunes, sem levantar os olhos da lista pediu: “Olhe, para mim é uma lagosta à Thermidor e uma garrafa de Vinho Verde Alvarinho muito fresca.” Pousou a ementa, olhou o Fonseca nos olhos e perguntou-lhe: “Finalmente, explica-me lá o que tens andado a fazer estes anos todos?” Com a voz sumida, e pensando já no cheque sem cobertura que iria ter de passar para pagar a metade do jantar, respondeu: “Ora, nada de especial... sabes como é? Trabalho, umas festas, umas miúdas de vez em quando, enfim... tu sabes, o costume!” e com uma certa melancolia apercebeu-se naquele momento de que nada na sua vida iria mudar.

É uma historieta que me apeteceu escrever, e que teve basicamente como modelo inspirador o que aconteceu a Portugal quando decidiu aderir ao Euro. Uma fábula que de algum modo pretende ilustrar a imprudência política e o desastre económico que foi a entrada de Portugal na moeda única Europeia.
Pouca cautela, ambição e no fundo querer fazer-se passar pelo que não era e assim, como o “Fonseca”, estamos a pagar metade de um jantar, pantagruélico para alguns, mas muito modesto para outros.
Ao abdicarmos da nossa moeda e aderirmos a um espaço monetário que enquadrava moedas  fortes, como o Marco, o Florim e até o Franco, ajudámos, juntamente com outras economias fracas, a manter o Euro com um câmbio baixo, potenciando e ajudando as exportações das economias ricas, enquanto nós, sem competitividade e afogados em dívidas, não temos qualquer instrumento para relançar a nossa economia.
Se neste momento a Alemanha, por exemplo, tivesse moeda própria, com o dinamismo da sua economia e os superavits comerciais que possui, o Marco estaria muito mais valorizado do que o Euro, e aí pergunto-me a quem venderiam eles os seus Mercedes, Audis’s e BMW’s.
Perante esta perspectiva, só um tonto ou um ingénuo pode sonhar com a solidariedade Alemã, e consequentemente da UE,  pois isso seria totalmente contra os interesses das mais dinâmicas economias Europeias. Quanto mais economias na Europa estejam em dificuldades, mais competitivo fica o Euro para os Países do Norte, e assim permaneceremos, agrilhoados a esta moeda maldita, não para nosso interesse, mas para interesse dos outros.
Quanto a nós, os pelintras, temos de agradecer a Mário Soares e a Cavaco Silva a imprudência de terem ido jantar com o “Antunes” Europeu, que é como quem diz, com quem beneficia muito mais do que nós com a actual situação.
Por esta razão é necessário que Portugal se mentalize que se quer continuar a ser um País soberano,  É URGENTE SAÍR DO EURO!

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

ANATOMIA DE UMA DESILUSÃO.


Confesso que me iludi!
E de facto, como o meu Pai muito bem afirmava, só se desilude quem primeiro se ilude. Profundamente preocupado com o rumo que as finanças do País tomavam, foi com alívio que vi o voto afastar para Paris o obreiro de um desastre económico sem precedentes na nossa história recente.
A postura séria de Passos Coelho, a aura de que vinha rodeado Vitor Gaspar, o sucesso académico de Santos Pereira, a fama de Paulo Macedo e os demais nomes já conhecidos, indiciavam que realmente Portugal poderia tomar um rumo sério em direcção a um futuro prometedor e mais próspero.
Admito que torci o nariz à presença de Miguel Relvas no enlenco Governamental, mas admiti que alguma experiência política poderia ajudar o novo Governo nas tarefas mais delicadas.
Concordei em absoluto com as medidas que desde logo foram anunciadas, que embora duras, pareciam adequadas à emergência do momento.
Sobre as prometidas reformas estruturais, conhecendo bem a natureza do País em que vivo, admiti que tivessem de ser bem “trabalhadas”, com negociações mais delicadas e com prazos de entrada em vigor mais alargados.
Depois começaram os pequenos incómodos: Nomeações políticas discutíveis, excepções à regra no âmbito de empresas públicas, acessores aos quais de forma enviesada não lhes eram retirados os subsídios subtraídos ao resto da função pública, e o práticamente total abandono do compromisso de reduzir o numero de Municípios, mascarando este sinal de grande fraqueza com um pífio plano para fundir Freguesias.
Aí ainda a ilusão permanecia.
Um pouquinho abalada, é certo, mas permanecia, pois parecia patente que todos os Portugueses estavam conscientes da gravidade da situação e pareciam dispostos a colaborar com o Governo na solução dos mais prementes problemas.
Depois começam a surgir casos mais graves: Começou com o chamado caso das “secretas”,dossier desastrosamente gerido pelo Primeiro Ministro, e que acabou por descambar nos sucessivos escândalos envolvendo Miguel Relvas. Mentiras, contradições, uma licenciatura estranhíssima, e cavando um pouco mais fundo, histórias pouco edificantes acerca da sua ascenção política e pessoal.
A estranheza começou a tornar-se tanto mais incómoda, quanto mais o Chefe do Governo insistia na protecção de Relvas, sendo profundamente manifesto que o Ministro estava políticamente incapacitado, e passou a ser mediáticamente representado por António Borges, que pago a peso de ouro, parecia desempenhar um papel de ministro-sombra. A questão da RTP foi um desastre! Sem modelo definido, falou-se de todo o tipo de soluções, algumas de tal forma estapafúrdias que ameaçaram estalar o verniz entre os partidos da Coligação Governamental.
Entretanto, aquele precioso consenso político que parecia existir, começava a esboroar-se em virtude de uma olímpica ignorância a que o Governo votou, não só o principal Partido da Oposição, como também não honrou vários pontos do acordo de Concertação Social, conseguido com muito esforço através de uma muito corajosa posição de João Proença.
Finalmente surgiu aquele fatídico dia de 6ª feira, 7 de Setembro!
Meia hora antes de um jogo de futebol da Selecção Nacional, o Primeiro Ministro vem à televisão, e perante o pasmo de todos, anunciou “tout court” que ia retirar 7% dos salários dos trabalhadores por conta de outrém e os ia transferir, em boa parte, para as empresas empregadoras. Em seguida, com um ar bem disposto foi com a mulher assistir a um espectáculo musical, aparentando uma enorme insensibilidade.
Não sou economista, mas confesso que se a medida tivesse alguma justificação plausível, ou fosse “genial” como mais tarde a apelidou António Borges, o mínimo exigido é que ela fosse apresentada detalhadamente aos destinatários, explicando bem o seu alcance e eventual bondade.
Aí a desilusão instalou-se!
A Coligação Governamental tremeu, um milhão de pessoas saíu à Rua sem enquadramento partidário ou sindical, o Presidente da República convocou o Conselho de Estado, e dois dias depois a medida caíu, morrendo na praia de forma totalmente inglória. Na confusão instalada, prepassou a ideia de que o Governo ficara desorientado, e de facto começaram a surgir notícias de medidas orçamentais para 2013, que tanto apareciam anunciadas por idóneos porta-vozes, como rápidamente eram desmentidas. No meio deste enorme e aparente desnorte, a Coligação voltou a tremer, desta vez mais violentamente e o consenso político, antes tão elogiado, esfumou-se de vez.
Agora damo-nos conta de que o Governo falhou em varias previsões. O Primeiro Ministro que em Agosto assegurou aos Portugueses que 2013 iria ser o ano do alívio e da retoma, aparece em Outubro a apresentar o mais violento Orçamento de Estado de que há memória, tudo isto no meio de um tremendo mal estar político.
Confesso que estou desiludido!
Estou desiludido porque me iludi. Achei que por uma vez tinha chegado ao Governo alguém com a força e a vontade necessárias para enfrentar os lobbies, afrontar as corporações, combater os interesses instalados e proteger os Portugueses dos desmandos destes últimos 30 anos. Estou desiludido pois constato que essa força e determinação que nos tinha sido prometida, afinal se esvasiara como um balão furado.
No entanto mesmo sem ilusões, ainda mantenho a esperança, esperando não estar de novo a caír na ingenuidade de mais uma ilusão.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A MALDIÇÃO DO EURO TEM DE SER ESCONJURADA!


Convinha começar por colocar a seguinte pergunta: Quem foram os irresponsáveis que nos “enfiaram” no Euro sem curar de estudar todas as suas implicações, inclusivamente a que presentemente nos assola? Não sou economista, nem coisa que se pareça, mas desde o início sempre me pareceu uma imprudência. É como um “teso” ir jantar a um restaurante de luxo com um “ricaço” e saber que no fim vão dividir a conta. É só o “ricaço” que ganha com isso, não vos parece lógico?
Claro que para o nosso “establishment” político e financeiro, a simples alusão à saída de Portugal do Euro, provoca reacções de histeria que só encontram paralelo com as reacções do mundo Árabe a um filme ridicularizando Maomé.
Para quem acha que é inevitável permanecer agarrado a uma economia germanizada, que não nos dá nem espaço para respirar, aconselho a leitura deste estudo feito por Pedro Cosme Costa Vieira, da Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Não é uma solução única, pois há muita gente que se debruça sobre o assunto, mas pelo menos tem o mérito de nos apontar uma direcção possível.
Se observarmos bem, não me parece que toda esta crise das dívidas soberanas e respectiva evolução, seja uma obra do acaso, ou pelo menos que não tenham um aproveitamento oportunístico.
A Alemanha, quando nos vendeu submarinos ou pretendeu vender o equipamento do TGV, não parecia nada preocupada com a nossa dívida, como não se preocupou a financiar a Grécia para a construção do novo aeroporto de Atenas ou as infraestruturas para as Olimpíadas, sem falar nos 8 (OITO) submarinos que vendeu ao Governo Grego. Em relação à Espanha e à Itália, embora o caso seja diferente, não se descortina o mínimo esforço para viabilizar soluções capazes de debelar a crise de uma forma séria e duradoura.
Toda esta situação está a criar um profundo fosso económico entre a Europa do Norte e a Europa do Sul, onde provavelmente a França irá ficar situada, por muito que tente escapar.
E isto é de interesse para os Alemães? Claro que é!
Com as economias do Sul enfraquecidas, o Euro torna-se numa moeda extraordinariamente competitiva para as exportações dos Países fortemente industrializados. De facto, se não houvesse moeda única, o Marco Alemão estaria altamente valorizado, pelo que seria muito difícil exportar os Mercedes, BMW’s, Audis e outros produtos industriais, dado o valor exorbitante que atingiriam devido ao mercado cambial.
Assim se cumprirá o grande desiderato Germânico de domínio Europeu, que o não tendo conseguido por via das armas nas duas Grandes Guerras do Sec. XX, está a consegui-lo pela via financeira, consagrando na sua órbita os Países da ex-URRS, a Holanda e alguns Nórdicos, que enriquecerão e engordarão à custa do mau desempenho das economias do Sul, que sem meios nem instrumentos para debelar a crise, sempre ficarão reféns desse conjunto de Países e se encarregarão de manter o Euro em câmbios muito vantajosos.
É uma real ameaça da instalação de um bem sucedido IV Reich!
Por trás desta situação parece pairar a sombra diáfana e sinistra do Banco Goldman Sachs, o qual tem conseguido colocar os seus homens de mão em lugares chave desta decrépita Europa. Por cá Carlos Moedas e António Borges, por lá Papademus, Monti, e muitos outros que decerto não conseguiremos identificar.
Esta política financeira predatória, própria do Capital sem Pátria, que destrói Países e rouba soberanias, não teria sido fácil de executar se a Europa não tivesse criado a arma perfeita: O Euro!
Assim, se Portugal estiver disposto a ser pouco mais do que um escravo financeiro da Alemanha, e em última análise a sua fronteira Ocidental, então deverá permanecer no Euro, definhando, empobrecendo e sempre de mão estendida à caridade, sem nunca mais recuperar a soberania necessária para se poder defender através dos instrumentos tradicionais, tais como a desvalorização da moeda e a subida controlada da inflação.
Caso contrário, daqui uns anos, os catastrofistas que hoje prenunciam que a saída do Euro nos ia custar mais de 60% do poder de compra, vão verificar que vamos perder esse mesmo poder de compra, ou mais, sem no entanto nos libertarmos das grilhetas que nos aprisionam e que todos os sacrifícios entretanto pedidos, ou melhor, exigidos aos Portugueses, foram completamente em vão.
Eu estou disposto a sacrificar-me, mas a sacrificar-me por Portugal e não a sacrificar-me pelos outros, que mais não fazem do que nos chupar e infectar o sangue, tal como o mosquito do Dengue já anda a ameaçar fazer em território nacional!