segunda-feira, 24 de setembro de 2012

ACERCA DE COMO CAÇAR JACARÉS.


Teria eu cinco ou seis anos quando fui confrontado com o meu primeiro enigma.
Era um inverno rigoroso e após o jantar a família tinha-se reunido em volta da lareira. Na altura, na ausência de TV ou outro tipo de distracção , a conversa era previlegiada e cultivada. Após uns momentos fitando as chamas que lambiam as paredes enegrecidas da lareira, o meu Pai inquiriu-me: "Sabe qual é a melhor maneira de caçar jacarés?" Fiquei embasbacado com a pergunta, e considerando que a resposta teria de ser mais sofisticada do que a simples solução de dar um tiro no animal, ou meter-lhe um pau na boca, como vira recentemente nas aventuras de "Tintin au Congo" - ainda não havia livros traduzidos - confessei a minha ignorância sobre o assunto.
Com um sorriso até às orelhas o meu Pai explicou-me então a sua visão de como era mais fácil apanhar um jacaré. Em primeiro lugar teríamos de nos munir de alguns objectos, a saber, um livro realmente chato, um binóculo, uma pinça e uma caixa de fósforos.
o caçador deveria então deslocar-se para a margem de um rio onde houvesse jacarés, e depois de dispor os utensílios à sua volta, pegava no livro realmente chato e começava a lê-lo. Como o livro era de facto chatíssimo, acabaria então por adormecer. Entretanto o jacaré saía do rio na sua direcção, e ao abrir as terríveis fauces soltava um rugido.
Acordando em sobressalto, ainda estremunhado, o caçador pegava nos binóculos para ver o que se passava, mas como estava ainda desorientado pelo despertar súbito e inesperado, pegava neles ao contrário e então via um animal pouco maior que uma lagartixa. Pegava então na pinça e cuidadosamente colocava o jacaré na caixa de fósforos.
Confesso que a história me fascinou por duas razões: Pela sua criatividade por um lado e pela sua inverosimilhança pelo outro.
Durante anos este pequeno "fait divers" da minha infância andou escondido pelas recônditas volutas do meu córtex cerebral, até que há algum tempo o recordei, com uma certa nostalgia por esses tempos de inocência.
Olhando à minha volta com atenção, parece-me descortinar uma legião de pessoas que parecem ter um par de invísiveis binóculos colocados ao contrário, sem ao menos se darem conta disso.
Para essa gente, a realidade é tão virtual como a diminuição da imagem transmitida por binóculos invertidos. Tudo lhes parece ao alcance da mão e tudo lhes parece realmente tão pequeno, quantitativamente, que parece ser fácil de colocar numa caixa de fósforos.
No fundo é uma sociedade que perdeu todo o sentido de perspectiva, que não valoriza o que tem e inveja aquilo que não tem.
Presas da sua tremenda ambição, vítimas dos seus êrros de prespectiva, esta gente deambula pelo mundo previlegiando o "ter" em vez do "ser". Esquece regularmente as suas obrigações para com o próximo, mesmo quando o próximo é realmente "próximo" como sejam pais, filhos, etc...
Estes pobres caçadores de jacarés, para sua infelicidade, não se apercebem de que mais tarde ou mais cedo vão ter de abrir a caixa de fósforos sem se lembrarem de colocar os  binóculos invertidos, e nessa altura, na sua dimensão real, o jacaré decerto não lhes  irá perdoar.

RECORDAÇÕES DO MEU PAI.


Teria eu aí uns oito anos quando recebi de presente de Natal a minha primeira espingarda de pressão de ar.
Era um modelo rudimentar, com pouca força, mas que representava um pequeno sonho realizado, já que uma das coisas que eu mais ambicionava na época era "ir aos pardais" como os meus amigos mais velhos.
O desenvolvimento das circunstâncias que rodearam a compra e oferta daquela caricatura de arma, só os vim a conhecer um pouco mais tarde, mas revestem-se de todo o exotismo e originalidade que sempre caracterizaram de forma indelével todas as acções que envolviam o meu Pai.
Já farto da minha pedinchisse, e como se aproximasse o Natal, decidiu comprar-me a almejada espingarda de pressão de ar. A minha Mãe, quando viu o artefacto chegar a casa, amiga dos animais como só ela conseguia ser, argumentou que não concordava nada com a oferta, já que achava uma selvajaria andar pelas ruas a abater inocentes pardais, que nem para comer serviam. Por seu lado, o meu Pai não discordou em absoluto do argumento e informou que ia tomar as suas providências.
Comprou uma grande e espessa placa de cortiça e uns dardos próprios para a espingarda, com a ideia de que eu iria praticar tiro ao alvo. Depois, olhou para a cortiça e achou que mesmo que lhe desenhasse um alvo, o artefacto era muito pouco atractivo e por consequência decidiu fazer as coisas à maneira dele, ou seja, da forma menos convencional que se possa imaginar.
Tinha adquirido há poucos meses uma caríssima enciclopédia da editora Grolier, magnificamente ilustrada com fotografias e desenhos impressos sobre um espesso e brilhante papel couché. Assim, agarrou numa tesoura, foi-se às nove ou dez páginas relativas aos Dinossauros, destacou-as do volume e entreteve-se durante horas a recortar com notável perícia os animais, um por um. Após esta morosa operação, colou-os todos na placa de cortiça, de forma mais ou menos aleatória e atribui-lhes pontuação, conforme a sua ideia do que poderia valer um troféu daquele calibre. Lembro-me como se fosse hoje que o Tyranosauro Rex valia 100 pontos e era o mais valioso de todos.
Pode-se bem imaginar o meu ar esbugalhado ao receber tão espectacular presente de Natal. Durante três ou quatro dias, encostava o alvo na parede da sala, e diligentemente tentava acertar no T-Rex. À volta do alvo, o reboco da parede foi sofrendo algumas consequências, e para desespero da minha Mãe, cada vez que um dardo falhava a cortiça lá saltava um pouco de estuque da sala de jantar.
Claro que ao quinto dia, com alguns escudos que recebera também pelo Natal, dirigi-me à Drogaria do Sr. Pedro e comprei uma caixa de chumbinhos "Diabolo" e fui com os meus amigos dedicar-me ao massacre dos desgraçados pardalitos, que em boa verdade, dado o modêlo rudimentar da espingarda, pouquíssimos foram atingidos.
Quando o meu Pai morreu a enciclopédia Grolier veio-me parar às mãos, e apesar de irremediávelmente mutilada, não pude conter umas lágrimas quando a folheei e encontrei o local onde antes tinham existido as lindíssimas páginas sobre os Dinossauros que haviam decorado o meu fantástico alvo. E era assim o meu Pai... 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A (PEN)ÚLTIMA VERDADE.


Reli há tempos, com o maior dos prazeres, um livro de Philip K. Dick chamado "A penúltima verdade" (Penultimate Truth, no original).
A acção passa-se no futuro (à época, pois agora já seria passado!) e aborda o podêr, e porque não dizê-lo, a verdadeira ditadura dos "media".
Nesse futuro alternativo, em plena guerra fria, perante uma real ameaça de guerra, a população mundial "enterra-se" em abrigos-fábrica e dedica-se denodadamente à produção industrial destinada ao esforço de guerra.

Nas entranhas dos abrigos, o único meio de saberem o que se passa à superfície é a emissão televisiva oficial que lhes chega por cabo diáriamente.
Cá em cima, após os primeiros tiros e sem a pressão social e política das populações, os militares de ambos os blocos apercebem-se da inutilidade de enveredar pela guerra e criam então uma enorme fraude, na qual emitem diáriamente para os abrigos imagens forjadas de bombardeamentos e batalhas, pedindo um aumento permanente da produção com o único fito de que a população não volte à superfície voltando a criar as inevitáveis pressões político-sociais para que uma verdadeira guerra viesse a eclodir.
É um livro interessantíssimo pois aborda um problema com o qual já hoje em dia nos defrontamos e que é a manipulação da verdade pelos "media", muito particularmente pelas televisões, e que começa já a grassar na Internet.
Há já uns anos largos, assistia eu a um documentário sobre a guerra russo-afegã, quando me apercebi que um velho refugiado, esfarrapado e com uma criança ao colo, se exprimia perante o repórter com um inconfundível "accent" Nova-Iorquino. Para mim foi o prenúncio da penúltima verdade e passei a dar a maior das atenções ao que me entra pela casa dentro. No fundo, a minha grande preocupação assenta no facto de ter a sensação de que a maioria das pessoas não se apercebe da tremenda manipulação de que é vítima, mesmo tendo a consciência do que é possível fazer com a propaganda.
Apesar de terem já passado tantos anos, não me passa pela cabeça que a humanidade, pelo menos a que se considera esclarecida, se tenha esquecido das doutrinas de propaganda advogadas por Goebbels e ao caos a que levaram.
Existe um provérbio Judeu que diz que "Uma meia-verdade, é sempre uma completa mentira" o que em muito facilita toda a tarefa de manipulação, e para isso basta pegar em dois ou três jornais e reparar na disparidade das manchetes em relação a um mesmo acontecimento. Isto é manipulação, e manipulação descarada!
Citando o falecido Daniel Boorstin (historiador e professor Norte-Americano que se debruçou sobre a influência dos meios de comunicação nos comportamentos sociais), não posso deixar de concordar que "o maior obstáculo à sabedoria não é a ignorância, mas sim a ilusão do conhecimento".

terça-feira, 18 de setembro de 2012

FALAR PATRIÓTICAMENTE MAL A LINGUA PORTUGUESA.

Enquanto Pessoa afirmava que “a minha Pátria é a Lingua Portuguesa”, Eça aconselhava a que se devia “falar patrióticamente mal as linguas estrangeiras”.
Em ambos os casos, estes “monstros sagrados” da nossa literatura denotavam a sua preocupação com o principal factor da nossa identidade cultural e histórica, marca indelével do nosso deambular oceânico, que disseminou a lingua pelas sete partidas do mundo.
É claro que uma lingua viva não é estática. A sua grafia evolui, as gírias e calões oriundos das várias sociedades de falantes, são adoptados mutúamente e assim se compreende que não escrevamos ou falemos hoje como se escrevia ou falava na idade média. No entanto estou em crer que essa evolução se foi fazendo de forma lenta e gradual, co-existindo as mais das vezes o mesmo vocábulo com grafias diferentes durante largos períodos de tempo, sem que daí viesse mal ao mundo. Ainda me lembro bem da minha Avó escrever “pharmácia”, e a senhora poderia ser tudo, menos iletrada!
Bem sei que as modernas necessidades de escolaridade obrigam a padrões uniformizados que permitam alguma coerência no ensino, mas isto não invalidaria a possibilidade de utilização de grafias, que embora diferentes, estivessem ambas correctas. O tempo, esse magnífico mestre, se encarregaria de seleccionar a que mais se adequasse, desaparecendo a outra ou outras, que por inanição e falta de uso, sem sobresaltos ou polémicas, seriam erradicadas com naturalidade da nossa lingua.
Na realidade não entendo a necessidade de um acordo ortográfico, principalmente quando este não é aceite pela unanimidade dos seus falantes. Que raio de acordo é este, que em oito países de Lingua Oficial Portuguesa, apenas é ratificado por três?
Os Espanhois, que tanto gostamos de citar, não têm nenhum acordo ortográfico e isso em nada diminuiu a importancia da Lingua Castelhana no contexto mundial, sendo que o Castelhano falado na América Central e América Latina, tem inúmeras variantes, consoante o País em que é falado.
Na realidade podemos especular se este acordo não visa apenas promover os interesses editoriais e culturais do Brasil, sem levar em conta o interesse dos outros países que compõe a CPLP.
Entre os vários argumentos que ouvi em defesa do Acordo, houve um que me pareceu realmente caricato, isto para não usar um termo mais forte. Afirma-se que o Acordo se destina a aproximar a escrita da oralidade, deixando caír as consoantes mudas e alterando variadíssimas regras de acentuação e até de pontuação. Ora isto jamais evitará que os Portugueses continuem a dizer “cómico” e os Brasileiros “cômico”, não sendo nenhum “comico” que resolverá esta diferença. Por outro lado, se este critério fosse realmente decisivo, teríamos de arranjar grafias alternativas dentro do nosso próprio País para diferenciar o nosso vernáculo “v” do “b” nortenho de acentuada influência Galêga, ou o “não” do “nã” Alentejano.
Pois é! Se este fosse realmente um critério, mais tarde ou mais cedo estaríamos a escrever “deiam” em vez de “dêm”, ou “hádem” em vez de “hão-de”, como o fez Jorge Coelho certa vez, que em pleno comicio do Partido Socialista, perante as televisões e rádios nacionais, gritava a plenos pulmões :”Eles hadem de ver!”
Não sou político, não sou filólogo ou linguísta, tambem não sou académico, por isso as minhas atitudes terão sempre pouco peso, mas uma coisa garanto, é que após a aprovação do Acordo Ortográfico, passarei a escrever - e talvez a falar - patrióticamente mal a lingua Portuguesa!

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

EÇA: ADIVINHO OU SÓ BOM OBSERVADOR?


Sou um admirador incondicional, quase furioso, de Eça de Queiroz.
Ainda hoje, tantas décadas passadas sobre as minhas primeiras leituras, rio com gosto da crítica mordaz e viperina que ele faz da sociedade portuguesa, pois na realidade, tudo aquilo que ele escreveu continua a servir como uma luva ao nosso país e à sociedade que o povoa.
Há tempos circulou na "net" uma caricatura do escritor a ilustrar uma das suas frases mais divertidas: "O governo não cai porque não é um edifício, sai com benzina porque é uma nódoa!"
Et voilá! (como diria Eça no seu geito meio afrancesado) Nada mais adequado à presente situação política do nosso país.
Numa linha mais séria, mais preocupada mesmo, Eça produziu esta preciosidade de análise política e social no primeiro número de "As Farpas", há mais de 130 anos:

«O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. (...)
O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. (...) A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: o país está perdido!»
Eça de Queiroz, 1871

Será que o escritor tinha dons premonitórios que lhe permitiriam fazer uma quase adivinhação do que passaria neste Portugal do Sec. XXI?
Infelizmente não me parece que assim seja. De uma forma muito objectiva sou obrigado a reconhecer que, para além do génio e do humor de Eça de Queiroz, se esconde uma trágica e dramática realidade: Portugal não evoluíu nada, mas mesmo nada, nos ultimos cento e trinta anos.
Cristalizado no tempo, o País arrasta-se penosamente na direcção de uma miragem chamada Europa que como todas as miragens parece afastar-se cada vez mais, à medida que se tenta caminhar na sua direcção.
As gentes, gemebundas e pessimistas, vituperam os governos como se a culpa de eles lá estarem não fosse sua. Queixam-se da sua pobre condição de Portugueses como se essa condição não fosse o fruto colhido da sua inépcia e preguiça. Em última análise queixam-se de si próprios, arranjando mil desculpas e nenhuma responsabilidade.
Será que esta "sopa" europeia que, sinistra e meticulosamente, se prepara nos misteriosos corredores de Bruxelas não funcionará como a benzina e apagará de vez esta nódoa encardida em que se tornou a sociedade portuguesa?
Apenas uma questão de fé me impede de acreditar em semelhante desfecho, e o mesmo se passou com Eça, que criticando ferozmente a sociedade portuguesa sua contemporânea, acabava sempre por defendê-la e descupá-la, por vezes até carinhosamente.
"Devemos sempre falar patrióticamente mal as línguas estrangeiras", afirmava ele na finura da sua ironia.
Entretanto por cá continuamos cristalizados, parados no tempo, à espera que um factor externo à nossa vontade, que qualquer "D. Sebastião" ou, quem sabe, que um milagre divino nos ajude finalmente encetar um caminho de progresso.
No fundo, como cantava a fadista: "Tudo isto é triste... Tudo isto é Fado!"

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

EUROPA: UMA UTOPIA PERVERSA.


Quando oiço o geronte Mário Soares vituperar as actuais lideranças Europeias, recordando com a nostalgia própria dos velhos, figuras como Miterand, Kohl ou Delors, pergunto-me onde estava a cabeça dessa tão decantada elite, quando deu os passos temerários e inconscientes que levaram a Europa à beira do abismo, no qual muito provávelmente se irá despenhar com fragor.
Oiço amiúde críticas à fraca qualidade dos lideres Europeus e à sua incapacidade de travar a crise económica que assola a Europa, e portanto não posso ouvir com passividade os elogios balôfos feitos aos verdadeiros obreiros do buraco em que estamos enfiados.
Há dias, António Correia de Campos afirmava no jornal Público: “Será possível transformar Merkel em Kohl, Hollande em Miterand e Barroso em Delors? Será esse o problema como muitos acreditam? Não me parece, e, de resto, esses génios teriam certamente previsto a crise e atalhado o seu alastramento logo de início.”
Génios?! Então não era previsível que a instituição de uma moeda única, por si só iria criar todas estas assimetrias e desigualdades? Eu, que de génio nada tenho, sempre tive no meu horizonte esta perspectiva de falhanço, como aliás uma parte considerável de gente bem pensante que ao longo dos anos se tem exibido regularmente nas tribunas televisivas.
Génios?! Como seria possível acreditar numa Europa que durante mais de 1.500 anos se entreteve com uma admirável constância a guerrear-se mutuamente? Onde não só existem muitas linguas diferentes, como até mesmo outros alfabetos. Como ignorar olimpicamente todas as clivagens e desavenças de ordem cultural e política que na realidade forjaram a Europa como entidade?
Génios?! Mas quem acredita que se possa instituir uma unidade política nesta Torre de Babel em que o dito Projecto Europeu se tornou? Será possível acreditar que algumas vez existirá um governo democrático na Europa? Como conseguirão acautelar os interesses dos países com menos expressão eleitoral no quadro Europeu? Como agir a tempo e horas, se decisões críticas têm de passar por 27 parlamentos com interesses e ideologias diferentes?
Génios?! Será genial quem pensa que assinando uns tratados sem curar da opinião do seu elitorado, tem alguma base sólida para uma união política e apaga séculos de desavenças? Haverá alguma casa habitável apenas possuindo o ntelhado sem os devidos alicerces? Como aceitar que um campónio de Boliqueime tenha assinado um tratado com a importância de Maastrich, sem auscultar minímamente o seu eleitorado, sob o pretexto de que a matéria era demasiado complexa para se submeter a referendum. E aí está o resultado: Vendida a soberania a troco de uns quilómetros de auto-estrada, arrancada parte da vinha e do olival, bem como a frota pesqueira e marinha mercante, como contrapartida dos célebres dinheiros Europeus, Portugal transformou-se num prostituto que se foi vendendo a troco de tudo e de nada até à decadência actual, em que a única coisa que lhe resta é assumir a vergonha pelo passado recente com a dignidade possível!
A inevitável globalização veio fazer tremer os alicerces das teorias económicas clássicas e assiste-se ao espectáculo deplorável da transformação dos economistas em quiromantes, cada um opinando à sombra do seus prémio Nobel, a visão que adivinha para o futuro. Para isso, bastava ir à bruxa!
Génios?! Bem... presunção e água benta, cada um toma a que quer, como diz o Povo na sua milenar sabedoria. Falam à boca-cheia no exemplo federal dos EUA, fraco exemplo de pouco mais de duzentos anos e erigido à custa do genocídio dos seus legítimos ocupantes. País feito a partir da pior matéria prima que a Europa excretou para lá, bem como para a Austrália. País que se federou através de uma sangrenta guerra cívil e em que os cidadãos, à boa tradição do Velho Oeste, andam armados até aos dentes e se entretêm de tempos a tempos a praticar chacinas gratuítas contra inocentes cidadãos. Enfim... Se este é o exemplo, não, obrigado!
Para bem do nosso futuro, este atamancado Projecto Europeu vai ruír como um castelo de cartas, pois nada mais é do que isso. A verdade, que ninguém ousa admitir, é que a Europa, como projecto, não é sustentável e vai inevitávelmente falir!
Tempos difíceis advirão, parte das regalias tomadas como adquiridas vão desaparecer, as animosidades vão recrudescer e os países Europeus voltarão a assumir a sua forma de “puzzle”, procurando assim a melhor maneira de se encaixarem uns nos outros, como sempre foi. Vão voltar as invejas, os ódios de estimação e toda a sorte de emoções que os pretensos “Pais Fundadores” da Europa quiserem esterilizar e modificar genéticamente.
Para finalizar, se os Portugueses estudarem um pouco de História, perceberão fácilmente que de Europeus mais não têm do que a posição geográfica. Fora isso, não somos, nunca fomos e nunca seremos Europeus.
Sempre nos bastou ser Portugueses!


segunda-feira, 9 de julho de 2012

OS LADRÕES, OS ROUBADOS E OS GOVERNOS DELES.


Causou grande perplexidade na comunidade financeira e política da Europa, o escândalo da prática de cartelização das taxas de referencia Libor e Euribor, pelo já condenado Banco Barclays.
Ao que parece, na marosca estavam metidos mais bancos, como O Deutsche Bank, o Citigroup, a Union de Banques Suisse (UBS), Para além de uns tantos bancos de menor importância.
Este cancro, que ao que se sabe até agora, parece ter tido, se não a conivência, pelo menos a condescêndencia, do anterior Governo Britânico, vem mostrar bem até que ponto o poder político está totalmente capturado pelo poder financeiro, pelo que hoje em dia não poderemos olhar para nenhum deles com garantida confiança.
Após ter ouvido vários responsáveis a bramar que a Banca nada tinha aprendido com a falência do Lehman Brothers, sou obrigado a discordar: Aprenderam, e aprenderam bem. Tornaram-se mais sofisticados, mais difíceis de controlar e preveniram-se melhor em relação ao poder político.
Esses gestores de topo que arranjam, verdadeiros mercenários, pagos a peso de ouro e com bónus milionários, mais não passam do que verdadeiros vampiros, que com a loucura dos lucros a curto prazo (a que se referem os bónus, é claro), põem em causa objectivos de médio e longo prazo, enfraquecendo  economias nacionais, gerando falências no tecido empresarial e desemprego nas sociedades. Essa gente que se gaba do que faz, como um dos administradores cirúrgicamente removidos do Barclays que diz orgulhar-se de ter transformado o seu banco numa instituição de nível mundial, é gente sem escrúpulos e  sem moral, bem como aqueles que os empregam, tornando-se os verdadeiros mandantes do crime sem que tenham necessidade de sujar as mãos.
Estes governos que se apressam a nacionalizar os prejuízos, preservando cuidadosamente a privatização dos lucros, e que sabem bem o que se passa, continuam inocentemente a clamar por sacrifícios em nome de uma melhor distribuição, já não da riqueza, mas dos prejuízos comuns.
No rescaldo desta escandaleira, Michel Barnier, o Comissário Europeu para o Mercado Interno e Serviços, afirma que tem planos para ampliar as regras Europeias de abuso de mercado, de modo a ilegalizar a cartelização das taxas interbancárias. Afirma pois, pomposamente, "Vou propor o alargamento do campo de aplicação da legislação actual, de modo a cobrir efectivamente a manipulação dos índices, o que inclui a Libor", concluindo, "Quem quer que pense em manipular os mercados precisa de saber que vai enfrentar sanções, incluindo acusações criminais"
Mas então isto não era já ilegal? Não existiam então sanções administrativas nem criminais? É realmente espantoso que se quebrem deliberadamente as mais básicas regras da ética, para de seguida as vir criminalizar, como se isso viesse corrigir os prejuízos causados.
Por formação tenho uma postura liberal perante a vida. Acho a colectivização a mais injusta das formas  de aplicar uma política redistributiva e também o ultra-liberalismo me parece um sistema que não dá um mínimo de protecção aos mais fracos. Julguei que um liberalismo responsável, verdadeiramente regulado pelos estados, para evitar abusos, seria a forma certa de governar os Povos.
Após esta triste lição, fiquei com as maiores dúvidas. A Banca rouba alegremente, protegida pelos ditos governos liberais, portanto o que nos resta afinal? Muito pouca coisa.
Essas taxas, que aparentemente são “coisas” da Banca, alteram a vida de todos nós, encarecem os “spreads”, inflacionam os juros das hipotecas, secam os empréstimos às empresas e concorrem  largamente para o desemprego.
E vem um patético burocrata de Bruxelas dizer que agora é que vai produzir legislação para evitar estas situações? Não vale a pena! Estas não voltarão a ocorrer, pois rápidamente, dada a impunidade com que se movimentam, esses tais gestores de topo fácilmente encontrarão outras formas de roubar, e coisa torna-se um ciclo vicioso, com novas medidas, novas leis e novas ilegalidades. É uma espécie de “moto contínuo”, sempre com os mesmos prevaricadores, as mesmas vítimas e as mesmas autoridades.
E assim vamos vivendo, roubados por essa Banca imoral, com o beneplácito dos Governos que dela se servem e a quem  simultâneamente também servem, até que alguma “coisa” rebente. Estarão então de novo, e mais uma vez, postos em causa todos os séculos de civilização que temos vindo a acumular e que a cupidez humana tem vindo regularmente a destruir, à razão média de duas a três vezes por século.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

RESTAURANDO A CIDADANIA


Aqui há uns tempos, desiludido com o rumo desta desgraçada Europa, mas principalmente com o do nosso pobre Portugal, publiquei um pequeno texto em que declarava, com uma certa pompa é certo, que decidira suspender a minha Cidadania.  Citando uma parte do texto, explanava eu assim as minhas razões:


“Pela parte que me toca, na qualidade de Natural e Habitante deste País tão maltratado, prefiro suspender a minha Cidadania!
Não que ela valha muito, aliás, tanto lhe gastaram o nome que passou a valer muito pouco mais do que o gélido "zero absoluto".
Assim, e porque a Cidadania, no actual contexto, não vale mais que uma acção de uma empresa falida ou do que um "depósito a prazo" no extinto BPN, declino das propaladas vantagens do seu usofruto.
Dantes eu tinha uma Pátria!
Dantes eu tinha um País!
Dantes eu pertencia a um Povo!
Agora, a Pátria tornou-se um conceito nebuloso e até despristigiante(?).
O País foi diluído numa espécie de creme de legumes, diligentemente atomizado por uma "varinha mágica" política, pomposamente apelidada de "Ideal Europeu", que eu, de todo em todo desconheço.
O Povo diz-se Europeu, por muito que a Europa regularmente o faça sentir uma espécie de "pária".
Definitivamente, suspendi a minha Cidadania!”

Este desabafo pretendia resumir tudo o que me doía em relação à pobre condição que este nosso Portugal atravessava, e ainda atravessa.
Hoje reverto a minha decisão e decidi-me pela restauração da minha Cidadania.
Não que as circunstâncias tenham mudado, mas entendi que refugiar-me atrás deste tipo de solução, não passava de um acto de pouca coragem, no fim de contas, apenas um acto de desistência.
Assistindo ao que assisto hoje em dia, às desconsiderações que vêm de Países tão insignificantes como a Finlândia, para não falar dos chacais dos Holandeses que criaram um Império à nossa custa, aproveitando o  pusilânime período Filipino para nos pilharem as rotas do Oriente e as suas Praças Fortes.
Nesses tempos quinhentistas, também Portugal atravessava um período extremamente difícil de domínio estrangeiro, que tal como hoje era apadrinhado por élites de reconhecida mediocridade e enorme interesseirismo.
Assim como nesses tempos idos , estamos a assistir à desagregação de uma pretensa unidade política, desrespeitosa, insultuosa mesmo, e que se arroga o direito de nos chantagear, aproveitando a dramática situação de pré-bancarrota.
Costuma-se dizer que quem não deve não teme, mas o nosso problema é que devemos, e devemos muito!
Assim só nos resta pagar, e quanto mais depressa melhor. Temos de enfrentar de uma vez por todas os vendilhões da Pátria e pô-los no seu lugar, que é na estrabaria.
Vou lendo e ouvindo as opiniões dos economistas, alcandorados à posição de novas pitonisas e chego à conclusão de que nenhum deles acerta. Desde os liberais que defendem as teorias de Milton Friedman até aos mais empedernidos Keynesianos, chego à conclusão de que realmente não sabem do que falam. Todas as suas teorias se desmoronam perante factos do Sec. XXI, aos quais não se aplicam essas já velhas teorias, agora tornadas objecto de arquelogia intelectual. Nem os modernos Krugman ou Roubini, acertam uma.
Ninguém previu ou estudou uma economia totalmente globalizada em que o dinheiro se move à velocidade da luz, capturada por um poder financeiro selvagem e desregulado, e por isso nada mais lhes resta do que andar às apalpadelas. Uma economia que vai mudando o seu centro de gravidade para leste e para sul, retirando qualquer eficácia aos tradicionais mecanismos de controle e debilitando inexoravelmente o poder Ocidental.
Dizem-nos que o fim do Euro, e consequente desagregação da Europa, seria uma catástrofe inimaginável, mas as justificações que são dadas sobre o assunto, são tudo menos convincentes, escondendo diligentemente o facto de ninguém poder assegurar nada sobre coisa nenhuma.
Livremo-nos pois, Portugueses, deste jugo estrangeiro asfixiante e castrador. Recuperemos a nossa soberania e o controle da nossa moeda. Depois... Depois encetemos o nosso mpróprio caminho, sem a ajuda de muletas defeituosas deliberadamente fornecidas por gente que não gosta de nós.
Possuímos uma posição geo-estratégica invejável sobre o mais importante dos Oceanos. Sejamos mais activos numa sub-aproveitada CPLP. Façamos pois valer esses trunfos e não andemos miserávelmente de mão estendida, pedindo dinheiro a uma Europa, que além de o não ter, não está minimamente interessada em ajudar.
Acreditemos em nós como Povo e não estejamos sempre melancólicamente à espera de um D. Sebastião qualquer.
São os povos que fazem os herois e não os herois que fazem os povos.
Para esse objectivo então, acho que vale a pena restaurar a minha Cidadania.



quarta-feira, 4 de julho de 2012

UM FUTURO PARA PORTUGAL


A cada dia que passa vai-se tornando cada vez mais evidente que a Europa, em vez de ser parte da solução dos nossos problemas, é cada vez mais uma parte do problema, senão mesmo a sua totalidade.
Inicialmente a ideia parecia sedutora, quando aderimos entusiásticamente a uma Europa, que diga-se de passagem, nunca foi nossa e nunca gostou de nós, mas basta conhecer  um pouco de História, para entender que essa tal Europa, solidária e democrática, não passava de uma utopia criada e alimentada por um conjunto de políticos arrogantes, que ao arrepio de tudo o que é aceitável, começaram a construir o edifício pelo telhado, sem cuidar da solidez dos alicerces. Os resultados estão à vista!
Não vale a pena alongar-me em detalhes que por todos são conhecidos, pelo menos hoje em dia, mas que eu antecipei há mais de vinte anos atrás, apesar de ter sido sempre  considerado um Velho do Restêlo (justiça ao Dr. Medina Carreira, que sempre manteve esse discurso).
Nesta altura porém, entalados como estamos, não vale a pena chorar sobre o leite derramado, mas sim prepararmo-nos para novas realidades que se nos apresentam inevitáveis.
A primeira dessas realidades é entendermos de uma vez que nunca tivemos vocação Europeia, e só o novo-riquismo das nossas elites permitiu que nos envolvêssemos tão profundamente num projecto temerário, no qual a realidade tem excedido as piores previsões. A nossa História não tem nada a ver com a  Europa. Para lá  das alianças com Inglaterra, a única potência Atlântica, tivemos sempre uma “rolha” a Leste, o que nos virou definitivamente para o grande Mar Oceano. As nossas guerras foram sempre querelas fronteiriças com Espanha e conflitos regionais com outros Países na defesa das nossas conquistas ultramarinas. Lá tivemos de aturar a megalomania de Napoleão, e na 1ª República sacrificámos inutilmente uns milhares de homens nas trincheiras Francesas, sem qualquer ganho ou proveito. Fora estes episódios, nunca tivemos qualquer ligação com essa Europa das guerras, das hegemonias e dos Impérios Continentais.
Digam-me lá então porque é que somos Europeus, e principalmente porque tanto insistimos nessa idiotice? Só por estarmos na ponta Ocidental do continente? E essa situação não nos dá todas as desvantagens de uma periferia, distante e com pouco peso político?
Na realidade, o que nós somos é Atlantistas,  cuja vocação só foi invertida, e pelas piores razões, após a restauração democrática e só a cegueira arrogante das nossas elites permitiu que tivéssemos perdido mais de 30 anos, permanentemente em bicos de pés para quem nunca nos ligou nenhuma, subalternizando sempre a CPLP, essa sim, derivada da nossa verdadeira vocação.
Se considerarmos a globalização, as rotas marítimas,  comerciais e até militares, dão-nos uma centralidade invejável, atirando irremediávelmente o centro e o norte da Europa para a verdadeira periferia global.
Já devíamos saber bem isto, pois há quinhentos anos que aplicámos a receita e ela resultou em pleno, e se pensarmos bem, embora algumas variáveis se tenham invertido, a situação é bastante semelhante.
Há pois que trabalhar, mas trabalhar mesmo! Criar uma mentalidade independente que nos tire da soburdinação aos humores de uma Europa, que mais do que decrépita, sofre irremediávelmente da Doença de Alzheimer.
Tivemos quinhentos anos de descanso e agora está na hora de trabalhar!
Primeiro foram as especiarias do Oriente, a seguir o ouro do Brasil, seguido pelos lucros do Império Colonial do Sec. XIX, depois tivemos o volfrâmio durante a II Guerra Mundial e por fim vieram os fundos Europeus.
Agora acabou!
Secaram as fontes que durante mais de quinhentos anos nos foram prporcionando a capacidade de ir sobrevivendo sem grande trabalho ou preocupação. Agora está na hora de esquecermos essa humilhante subserviência a esta Europa esfrangalhada e avançarmos resolutamente para soluções Atlantistas, que embora sejam mais trabalhosas, nos poderão dar a importância geo-estratégica que possuímos e que temos andado a vender a troco de um prato de lentilhas.
No momento em que por necessidade esta Europa for obrigada a unir-se para não sossobrar, que não restem dúvidas de que passaremos apenas a ter o estatuto de fronteira ocidental da Alemanha.

terça-feira, 19 de junho de 2012

PÉROLAS E AUSTERIDADE.

Guy de Maupassant, escritor Francês do fim do Sec. XIX, escreveu um conto trágico que gira em volta de um colar de pérolas.
Uma rapariga da sociedade Parisiense, bem nascida mas de poucas posses, é convidada para uma importante festa, à qual muito almejava ir. Falando com uma amiga, essa rica e despreocupada, confidenciou-lhe que não tinha nenhuma joia digna de ser levada a tão importante evento social. Desejosa de ajudar, a outra prestou-se de imediato a emprestar-lhe um belo colar de pérolas que possuía.
A dita festa foi um sucesso, e a nossa jovem brilhou, namoriscou, bebericou champagne e divertiu-se.
Quando altas horas da noite chegou a casa, reparou que tinha perdido o colar de pérolas. Em desespero percorreu o caminho de volta, vasculhou os salões, mas do colar, nem sombra dele.
Apavorada e envergonhada, logo pela manhã procurou um ourives famoso e encomendou-lhe um colar igual, o qual entregou à amiga como se fosse o mesmo que ela lhe tinha emprestado. Dado que a peça era caríssima, valeu-se de um agiota e com ele contraiu um empréstimo a longo prazo para assim poder pagar ao ourives.
Durante anos mourejou de sol a sol, aceitando os mais humilhantes e precários empregos, pagando religiosamente as prestações combinadas, e ao longo do tempo foi empobrecendo, perdeu as oportunidades de um casamento, esqueceu o lado interessante da vida, mudou-se para um modesto pardieiro e foi paulatinamente envelhecendo.
Quando finalmente pagou a última prestação do empréstimo ao agiota, rondava já os cinquenta anos, e perdida a frescura e a beleza de outros tempos, tornara-se uma mulher pálida e desinteressante.
Um dia encontrou a sua antiga amiga numa casa de chá, e como já pagara a totalidade do colar, confessou-lhe que o havia perdido naquela fatídica noite, que encomendara um  novo e que durante todos esses anos tinha pago uma prestação com juros usurários para conseguir liquidar a dívida, mas que assim salvara a sua honra, a sua honestidade e a sua integridade.
Abismada com a confissão, a amiga permaneceu em silêncio por uns momentos e finalmente, muito a custo balbuciou: "Mas... as pérolas eram falsas, as verdadeiras ainda as guardo num cofre..."
Pode-se bem calcular a frustração e sentido de inutilidade que deve ter invadido o espírito da jovem, agora já senhora, ao perceber que desperdiçara toda uma sua vida à conta de um colar de pérolas falsas.
Esta história serve que nem uma luva como metáfora acerca dos programas de austeridade que a chamada "troika" tem andado a distribuir a torto e a direito por essa Europa fora.
Dizem-nos que estamos no bom caminho, que estes sacrifícios são necessários para construir um futuro melhor e fazer crescer a economia, mas serão realmente?
Cada vez que um economista se pronuncia sobre o assunto, um laureado Nobel assina um artigo no Financial Times ou que algum responsável político opina sobre a austeridade, acaba-se sempre com a sensação de que cada um diz a sua coisa e nenhum garante nada, não passando este exercício opinativo de uma mera esperança de que as coisas resultem de acordo com as suas frágeis suposições.
E se estes sacrifícios todos forem uma espécie de "pérolas falsas"? E se se chegar à conclusão de que este não é o caminho acertado?
Nessas circunstâncias, os danos já estarão causados, alguns irreversíveis decerto, os empregos perdidos e as famílias exauridas, os jovens emigrados, e assim como a rapariga do conto, a nossa sociedade vai empobrecendo, envelhecendo e vendo-lhe passar em frente do nariz todas as oportunidades, agora fora do alcance e que jamais voltarão a ocorrer.
E assim, às mão dos políticos inconscientes que avançaram de olhos fechados para este processo no passado, e às mãos dos actuais que não conseguem desatar o nó górdio que foi criado, a Europa vai sossobrando, lenta mas inexorávelmente, em direcção a um abismo de quem ninguém conhece as suas reais  dimensões.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

QUAL É A COISA, QUAL É ELA, QUE ANTES DE O SER JÁ O ERA?

É claro que é a pescada, e ao que parece, também o resgate à banca Espanhola, que Mariano Rajoy se esforça por não chamar de “resgate”, mas sim de financiamento.
Esta subtileza semântica não tem qualquer tipo de utilidade, a não ser uma patética tentativa de enganar o povo Espanhol. De facto, os 100.000M de Euros do resgate, embora se destinem à banca, serão subscritos pelo governo Espanhol, agravando assim a sua dívida externa, pelo que se as coisas não correrem bem, quem vai pagar é fatalmente o contribuinte.
Achar que este resgate, ou lá o que Rajoy lhe queira chamar, vai resolver os problemas de Espanha, é puro lirismo.  As Autonomias, exauridas financeiramente, já reclamam o apoio do Estado Central, que nas actuais circunstâncias, não está em condições de prestar, e por isso, previsívelmente a Espanha terá de vir a pedir mais dinheiro.
Claro que este dinheiro irá ser rápidamente disponibilizado, ou não estivesse em causa a 4ª economia do Euro, mas se Rajoy pensa que vai escapar a um apertado plano de austeridade, penso que estará muito enganado, embora a situação seja de tal maneira grave, que não será de excluír uma possível inflexão das posições Europeias, o que eventualmente poderá beneficiar Portugal. Como em toda a excepção que confirma a regra, parece que desta vez, de  Espanha poderão vir bons ventos, embora impulsionados pelas piores razões.
No meio deste torvelinho financeiro que começa a formar-se em Espanha, os mercados vão paulatinamente aumentando as taxas de juro para valores especulativos e incomportáveis para o refinanciamento da dídiva Espanhola. Esfumou-se a arrogância de Rajoy que pretendeu impôr à UE a alteração das metas do déficit (levou uma redução de 0,1% para não dizer que não levava nada). Nestes últimos dias, o Chefe do Governo Espanhol só deu a cara no jogo de futebol contra a Itália, na Ucrânia, tentando passar uma falsa imagem de descontracção e optimismo. Quanto ao resto, lá vai encarregando os ministros de dar as más notícias e assim ficarem com o odioso que sempre recai sobre o mensageiro das desgraças.
É impossivel negar a sensação de “dejá vu”, ao ver Rajoy, sorridente, anunciar que a Espanha tinha conseguido um apoio para a sua banca em condições de excepção, etc... etc... Lembramo-nos todos de  um José Sócrates com um ar de felicidade, ao lado de um surumbático Teixeira dos Santos, anunciar em 2011 aos Portugueses que tinha negociado e assinado um excelente acordo com a Troika.
Viu-se!
Agora o que é realmente factor de perplexidade, é a constatação de que esta gente não aprende com os erros e estupidez dos seus pares. Isto é particularmente alarmante pois não se vislumbra a vontade de uma mudança radical na Europa que ponha, de uma vez por todas, esta “tralha” financeira nos eixos.
E assim, o incêndio do Euro vai lavrando livremente, ateado pela voragem dos especuladores, no meio de indecisões e más decisões, aproximando-se inexorávelmente do centro, deixando as periferias transformadas em terra queimada, na qual difícilmente medrará a semente do investimento.
Deste modo, repetindo a questão inicial, pergunto: Qual é a coisa, qual é ela, que antes de o sêr já o era? Para além da pescada, é a asfixia lenta e dolorosa do Euro e o esboroamento e desagregação de uma Europa que jamais deveria ter sido criada da forma atabalhoada e anti-democrática com que foi imposta aos seus cidadãos.

terça-feira, 5 de junho de 2012

A FÁBULA DA RÃ E DO BOI.


Reza a antiga fábula de Esopo, que uma rã, ao ver um boi a beber água, ficou tão tomada de inveja, que logo ali decidiu que queria ter o tamanho dele. Começou então a engolir ar, inchou, inchou e esticou-se tanto, que acabou por rebentar.
Esta fábula, com uma moral inoxidável, veio-me ao pensamento após ter lido hoje no jornal que uma tese  perfilhada pelo inefável Garcia Pereira – eterno candidato do PCTP/MRPP – conseguiu que a Comissão Nacional de Eleições lhe desse razão numa queixa que ele apresentara sobre a descriminação dos pequenos partidos, por parte dos principais orgãos de comunicação social, durante a campanha eleitoral das últimas Legislativas. A pressourosa CNE, não só aceitou as razões de Garcia Pereira, como enviou a queixa para a Procuradoria Geral da República.
Ora isto tudo nos custa um dinheirão! Não só a manutenção destes pequenos partidos, que recebem subvenções, têm sedes à borla e são subsidiados nas campanhas eleitorais, como agora o desvio de recursos da PGR para uma queixa, que suspeito seja rápidamente arquivada, pese o “carnaval” que Garcia Pereira provávelmente montará.
Existem em Portugal neste momento 14 patidos políticos ou coligações reconhecidas pelo Tribunal Constitucional. A Lei dos Partidos Políticos, para além daquele relambório habitual, foca-se básicamente em dois pontos: Para requerer o reconhecimento de um partido, são necessárias 7.500 assinaturas, coisa que não parece complicada, não cuidando da consistência dessas assinaturas. Para a sua extinção, além da vontade própria ou por defenderem princípios incompatíveis com o Estado de Direito, esta acontece se o numero de filiados se tornar inferior a 5.000, devendo o TC verificar regularmente esta situação, coisa que sinceramente duvido que o faça.
Não haja confusões! Não se trata de votos expressos em eleições, trata-se sim de uma verificação séria de militantes activos e suponho eu, com as quotas em dia.
Não acredito, por exemplo, que o Partido dos Amigos dos Animais, o Partido da Terra ou mesmo o PCTP/MRPP (que no fundo mais parece um partido unipessoal) consigam apresentar 5.000 militantes no activo e por conseguinte, pergunto-me como seria possível levar o TC a questionar esta situação, não só por motivos do esbulho das finanças públicas, como por uma mera questão de higiene política.
Ao contrário da fábula, aqui a rã continua a inchar, a inchar cada vez mais, pois aparentemente, o não cumprimento de preceitos da Lei dos Partidos Políticos, dá-lhe uma resistência inusitada que inibe o seu natural rebentamento.
Por último, quem não foge ao ridículo é a CNE, essa sim, que deveria recolher dados objectivos dos partidos e não as suas meras declarações, que mesmo falseadas, provávelmente serão sempre aceites como boas.
E assim vão as coisas por cá, gastando olimpícamente dinheiros públicos com quem, que por falta de massa crítica, não trás qualquer mais valia política ao País.
Os pequenos partidos a inchar na proporção do chinfrim que fazem, e os grandes, dado que estes não lhes fazem sombra, ignoram com sobranceria esta situação, e como de costume, o Zé paga... e não bufa!

quinta-feira, 31 de maio de 2012

CASTELOS NO AR

Os anos que passei em S. Paulo, foram vividos num bairro sossegado, numa rua pequena, quase sem transito. No fim da rua existia uma simpática “lanchonete”, propriedade de emigrantes Portugueses, onde parava muitas vezes para tomar um café ou uma cervejinha gelada.
Nesse simpático “boteco”, costumava lá estar sentado a uma mesa, um rapaz novo, de ar triste, sempre à volta com leituras e tomando apontamentos num caderno de capa já muito surrada.
“Mora aqui perto”, informou-me certa vez o proprietário, “é de gente rica, mas é meio amalucado, o coitado.”
Nada me poderia ter despertado maior curiosidade, e assim não descansei enquanto não meti conversa com o Fábio, assim se chamava ele. Descobri um rapaz melancólico e introvertido mas de uma curiosidade imensa. Os livros que lia já não eram normais nem  para a época, nem para a idade: Descartes, Rosseau, Nietzsche e até Fernando Pessoa, entre outros.
A conversa foi ficando fácil, e passados uns dias já discutíamos animadamente temas filosóficos ligados à metafísica e à ontologia, como se esses “brain storms” durassem já há largo tempo. Um dia perguntei-lhe porque não estava na universidade. “Para quê” respondeu ele enfadado “lá só ensinam besteiras.”
Um dia deixou de aparecer.
Informou-me o proprietário da “lanchonete” que os pais o tinham internado numa instituição de saúde mental que não distava muito dali.
Um Domingo fui visitá-lo. Sentado num banco do grande jardim relvado e povoado de árvores decorativas, ele, surumbático, continuava agarrado aos seus livros. Não se entusiasmou com a minha presença, mas também não se sentiu incomodado. Após um silêncio um tanto embaraçoso, perguntei: “Então Fábio, porque o puseram aqui?” Com uma certa amargura na voz, fixou os olhos no céu acinzentado, e respondeu-me com siceridade: “Tive azar, cara. Repararam em mim!”
Já a caminho de casa continuava a meditar naquela resposta tão simples e tão verdadeira, e no intimo pensei na sorte que tinha em não terem ainda reparado em mim.
Na realidade, a mente humana é demasiado complexa para que seja possível traçar uma linha definida entre a total sanidade e um estado patológico. As várias dimensões, cognitivas, emocionais, comportamentais e tantas outras que percorrem incessantemente as volutas do nosso cortex cerebral, geram um tal leque de variáveis que, como diz o Povo na sua imensa sabedoria, de génio e  de louco todos temos um pouco.
Alguém de quem eu muito gostava e que sofria de uma grave esquizofrenia, disse-me um dia: “Os paranoicos constroem castelos no ar, os esquizofrénicos moram lá dentro e os psiquiatras afadigam-se à procura das chaves.”
Presa destas considerações, vou disfarçando a minha presença, não vão um dia, por azar, finalmente reparar em mim.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O "REQUIEM" PELO EURO, OU A (DES)UNIÃO EUROPEIA.


Acerca da crise do Euro, existem duas correntes de opinião principais, que tendem a analizar o problema de forma totalmente oposta.
Por um lado, os que culpam a Alemanha e Angela Merckl pela sua obsessão pelas políticas restritivas, defesa intransigente de baixa inflação e limitação da actuação do BCE. Os outros, por seu lado, recusam esta tese e afirmam compreender essa obsessão, uma vez que os Países perdulários deverão fazer sacrifícios (nem que isso lhes mate a economia) e acertarem de vez os seus déficts comercial e orçamental, afirmando que os contribuintes Alemães não têm a obrigação de pagar os desmandos dos Países financeiramente corrécios.
Ora bem, parece-me necessário acertar aqui uns “detalhes” antes de embarcar numa ou noutra posição.
Claro que é compreensível a relutância dos contribuintes Alemães, mas se os contribuintes Europeus e Americanos tivessem tido a mesma relutância, provávelmente a Alemanha nem sequer existiria como um estado soberano. Após ter destruído a Europa duas vezes ao longo do Sec. XX, a Alemanha acabou por beneficiar de um enorme esforço financeiro por parte dos contribuintes Americanos, com o plano Marshall, e da Europa que haviam destruído, através do perdão das reparações de guerra, com algum  destaque para a actualmente martirizada Grécia, além de que em tempos de Guerra Fria, com metade do território sobre influência Soviética, não dispenderam um tostão em despesas militares e de defesa, deixando-as a expensas da defesa das suas fronteiras aos Países da Nato.
Claro que os equilíbrios financeiros são necessários e os ajustamentos urgentes, mas parece que se esqueceram de explicar aos contribuintes Alemães que o nosso endividamento externo corresponde a muitos postos de trabalho na Alemanha e que os nossos déficts comerciais são a razão de ser do tão elogiado superavit Germânico.
Pôr a questão do Euro como uma questão de solidariedade, é uma prespectiva estúpida!
Não foi por solidariedade que os Países vencedores da guerra ajudaram os Alemães. Arguto como era, Churchill apercebeu-se que a II guerra mundial teve origem nas tremendas condições impostas aos Alemães no Tratado de Versailles, e de toda a humilhação que daí derivou. Nessa altura declarou: “Agora que ganhámos a guerra, temos de ganhar a paz”, e assim nasceu o plano de ajuda à recuperação da destruída e exangue Alemanha.
Não há que pedir solidariedade a ninguém! Há é que olhar as possíveis consequências da actual política Europeia. A eventual, e quase certa saída da Grécia do Euro, arrastará fatalmente atrás de si  a desagregação da Moeda Única, e provávelmente da Europa, esse frágil edifício, construído pelo telhado e à revelia dos povos. Fala-se da tremenda queda do valor financeiro das moedas nacionais reabilitadas, mas parece esquecerem que isso acarretaria um enorme valorização do futuro Marco Alemão, o que inviabilizaria grande parte das exportações que fazem da Alemanha o País que é.
Sendo assim, provávelmente seria preferível que se acabasse de vez com esta bambuchata da União Europeia e do Euro, regressando humildemente à antiga CEE, que apesar do seu excesso de burocracia e da sua falta de democraticidade, não era um projecto mau de todo.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

AS VERDADES DE CADA UM

Aqui há tempos, no velório de uma pessoa amiga, encontrei um velho conhecido, engenheiro e físico, que trabalha no Laboratório Nacional de Engenharia Nuclear.
Trata-se de um homem interessante, de conversa fácil e fluída, com aquele tipo de espírito curioso que permite conversas mais densas e cerradas, hoje difíceis de manter no limitado universo de pessoas que nos cercam.
Veio a talho de foice, talvez por estarmos num velório, a questão da alma, da vida após a morte e fatalmente a conversa desaguou num tema teológico, no qual se punha a questão suprema: A existência, ou não existência de Deus.
A conversa animou-se, e eu, presa de todas as minhas dúvidas, argumentava que no limite não se conseguiria de forma nenhuma negar a sua existência, e parafraseava o meu Pai, portador de dúvidas iguais às minhas, que afirmava que a probabilidade do Universo, em toda a sua perfeição, ser obra o acaso, era a mesma que lançar ao ar um pacote de massa "sopa de letras" e cair no chão um dicionário já pronto.
Por seu lado, o meu amigo, usando toda a sua argumentação científica, afirmava que nos aceleradores de partículas já se conseguiam recriar os instantes precedentes ao "Big Bang" e nada provava qualquer interferência ou manipulação da energia e da matéria, para além do que aquilo que era matemáticamente previsível.
Com o decorrer da discussão, interroguei-o como é que ele aceitava fácilmente a premissa de que um electrão podia coexistir simultâneamente em dois locais diferentes, e lhe era tão difícil acreditar num Plano superior que comandasse o Universo, tivesse esse Plano o nome que tivesse.
A resposta fascinou-me! Com a maior das calmas, afirmou ele que isso era algo que tinha lógica perfeita no universo das partículas sub-atómicas.
Não me senti com vontade de prosseguir a conversa.
De facto, aquilo que para ele tinha lógica no microcosmos que ele aparentemente tão bem conhecia, consistia para mim num mistério tão absoluto, como o da própria existência de Deus.
Na realidade, todos os dogmas são por natureza impossíveis de explicar, e cada um acredita nos seus. Para alguns Deus existe e comanda a toda nossa existência, para outros, uma minúscula partícula eléctricamente carregada pode estar em dois lugares ao mesmo tempo...
Afinal, discutir para quê?

quinta-feira, 24 de maio de 2012

EM BUSCA DA PARTÍCULA DE DEUS.

Nada para mim se aproxima mais da bruxaria, do que a chamada física teórica.
Assisto com a mesma curiosidade às experiências levadas a cabo no CERN, situado nas profundezas da montanha da fronteira Franco-Suíça, como a que assistiria às misteriosas manipulações de um alquimista para transmutar o chumbo em ouro..
Procura-se então o Bozão de Higgs, a que, significativamente chamam a “Partícula de Deus”.
Ao que parece, tudo o que tem sido estudado na física de particulas ( e são imensas, tais como o electrão, o protão, o fotão, etc...) apenas explica a existência de energia no Universo e não como se formou a matéria.
 Para que isto fizesse sentido, o Sr. Higgs teorizou uma partícula, o dito bozão, sem a qual a existência da matéria não era possível, e  consequentemente o Sol, a Terra e Vida sobre ela, começando pelo próprio Homem. Sim, poderá ser considerada a “Partícula de Deus”, pelo menos como  condição primeira para a nossa existência.
É isto que tão activamente procuram no LHC, um anel com trinta Km. de extensão, no qual se podem acelerar partículas até às fronteiras da velocidade da luz com a singela finalidade de as fazer colidir frontalmente.
Explicava um cientista que a colisão em si não era interessante, pois o que importava eram os seus resultados, que consistiriam em mapear com rigor absoluto as trajectórias das sub(?) partículas daí resultates. Dizia o senhor que era como fazer colidir frontalmente dois Fórmula 1 a 300 Km/h e definir a trajectória e o ponto de queda de cada um dos destroços resultantes, do maior ao mais infímo parafuso.
Acredito piamente na utilidade disto tudo e dos biliões de Euros enterradeos nas montanhas Franco-Suíças, mas tal como Higgs, apenas suspeito de que esta espantosa experiência traga resultados práticos à humanidade, para além do prazer quase iniciático que parece extasiar os físicos teóricos e outros esotéricos cientistas .
Mas será que trará benifícios?
Tudo isto depende das quantidades de energia aplicadas ao Acelerador ( o tal LHC ) de modo a que as partículas adquiram tão estonteântes velocidades e esta energia tem vindo a ser progressivamente aumentada, o que tem levado os catastrofistas a temer pela segurança do Mundo. Houve até quem intentasse uma providência cautelar para parar a experiencia, argumentando que haveria a possibilidade de se criar um “buraco negro”, o qual poderia sugar a Terra e pôr  assim termo à sua existência como planeta, tal como a alegoria em que a cobra começa a comer a própria cauda até desaparecer.
No que me diz respeito, qualquer das situações é positiva. Se houver benefícios para a humanidade, óptimo! Se criassem o tal “buraco negro”, o apocalipse seria quase instantâneo, levando todos consigo sem dor nem sofrimento. Não ficava ninguém para carpir e não haveria saudade dos desaparecidos. O mundo morreria de súbito ataque cardíaco em vez de sucumbir ao longo e doloroso cancro que parece ser o seu destino.
E convenhamos, seria de uma extrema ironia que o Homem destruísse o Mundo, não à bomba, como o previsto, mas sim a tentar desvendar os mistérios da Criação, tal Eva tentada a comer  o Fruto Proíbido da àrvore do Conhecimento.

ACERCA DO SEXO DOS ANJOS.

No momento em que os Otomanos  tomavam a cidade de Constantinopla, pilar da religião Católica, e terminava de vez o Império Bizantino, as autoridades eclesiásticas, em vez de prestarem o ânimo e o conforto espiritual aos soldados que desesperadamente defendiam a cidade, discutiam séria e longamente se os anjos teriam sexo ou não.
Esta estéril discussão, que não salvou nem a Igreja nem o Império, tornou-se no paradigma da conversa inútil e desligada da realidade, que estimula o mero diletantismo em detrimento da adopção de soluções práticas e expeditas.
Assim como os clérigos Bizantinos discutiam o sexo dos anjos, enquanto as muralhas ruíam fragorosamente e o sangue escorria pelas ruas de Constantinopla, assim os líderes Europeus continuam a sua própria versão, modernizada e de carácter aparentemente técnico, a histórica discussão Bizantina.
Discutem eles a Europa! Uma Europa gizada e implementada à revelia dos Povos, construída a partir das cúpulas em vez dos alicerces e que em virtude de todo este voluntarismo e atropêlo democrático, se encontra em crise profunda. Avançou para o Euro não cuidando das assimetrias dos vários Estados, criando assim as tristes situações que hoje sofremos na pele e que ameaçam tornar-se num cancro capaz de cooroer todo o Projecto Europeu.
Os vários diagnósticos para a saída da crise estão feitos, as sugestões estão dadas, mas em vez da Europa se unir para defender a sua integridade, tem vindo a abandonar os mais vulneráveis à sanha da matilha de chacais que mordem permanentemente as canelas das economias mais fracas, provocando uma dolorosa sangria com consequências eventualmente mortais.
Enquanto as muralhas Europeias se vão esboroando às mãos de políticos incompetentes e de eleitorados egoístas e boçais, a unidade vai-se esvaíndo ao som tronitroante de declarações de princípio, amplificadas até ao absurdo pelos media, e que mais não são do que a repetição da discussão Bizantina acerca do sexo dos anjos.
Cá pelo País, na presssecução do “ideal” Europeu, temos discussões do mesmo tipo, dando tremenda importância ao pormenores e esquecendo a verdadeira essência dos problemas. Para o constatar, basta seguir o debate parlamentar ou acompanhar qualquer das comissões de inquérito.
Enfim, uma verdadeira lástima...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

SEBASTIANISMO SOCIALISTA


A Europa socialista exultou!
Depois de uma verdadeira travessia no deserto, o Partido Socialista Francês (PSF), lá conseguiu eleger um PR por uma margem de cerca de 1,5%, mais por demérito da frenética e zigzagueante política de Sarkozy, do que por algum mérito de um aparelhista, cinzento e carreirista, falho de carisma e senhor de promessas irrealizáveis, como é apanágio de qualquer socialista emergido do Sec. XX.
Curiosamente, tanto Holande como António José Seguro, parecem clones do tipíco socialista "funcionário", que mais do que ter rasgos de inteligência política, governa para os "aparatitch" partidários que o puseram no poleiro, com todos os pequenos vícios e interesses corporativo/partidários associados a este comportamento político, autoconvencendo-se de que está a governar para o seu País.
Holande vai começar por desiludir os seus correligionários e depois disso, todos os Franceses, como afirmava com notável sagacidade política, Marine Le Pen.
O gaudio que reina no nosso depauperado PS, afirmando entusiasticamente o fim da aliança Merkozy, depressa passará a desilusão, com a inevitável constatação do aparecimento de uma aliança Merkolande, que apesar de alguma cosmética para "épater le bourgeois", pouco vai diferir da anterior.
E assim vai a Europa, de finanças germanizadas, de regimes liberais timoratos e de socialistas incompetentes. Nada que seja novo nesta Europa, que nunca foi unida e jamais o será.
Enquanto isto, Seguro e "sus muchachos" exultam, pois pensam que na manhã de espêsso nevoeiro que envolve a Europa, emergiu finalmente o seu D. Sebastião, triunfante e de rosa na lapela.

sábado, 5 de maio de 2012

SUSPENDENDO A CIDADANIA !

Manuela Ferreira Leite aventou uma vez, que para proceder às difíceis reformas que se tornavam imperiosas à altura e que hoje estão em curso, se deveria suspender a democracia por um período de 6 meses.
Não deixa de ser bem pensado, mas políticamente muito incorrecto...
Pela parte que me toca, na qualidade de Natural e Habitante deste País tão maltratado, prefiro suspender a minha Cidadania!
Não que ela valha muito, aliás, tanto lhe gastaram o nome que passou a valer muito pouco mais do que o gélido "zero absoluto".
Assim, e porque a Cidadania, no actual contexto, não vale mais que uma acção de uma empresa falida ou do que um "depósito a prazo" no extinto BPN, declino das propaladas vantagens do seu usofruto.
Dantes eu tinha uma Pátria!
Dantes eu tinha um País!
Dantes eu pertencia a um Povo!
Agora, a Pátria tornou-se um conceito nebuloso e até despristigiante(?).
O País foi diluído numa espécie de creme de legumes, diligentemente atomizado por uma "varinha mágica" política, pomposamente apelidada de "Ideal Europeu", que eu, de todo em todo desconheço.
O Povo diz-se Europeu, por muito que a Europa regularmente o faça sentir uma espécie de "pária".
Definitivamente, suspendi a minha Cidadania!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A GUERRA DOS CLICK'S

Costuma afirmar-se que a guerra é a continuação da diplomacia por outros meios.
De facto a evidência indica que tanto a diplomacia como a guerra, se destinam básicamente a obter vantagens geo-estratégicas, financeiras e económicas, de um país sobre outro, e assim mostra a História, que quando a diplomacia não funciona, parte-se então para a guerra.
Hoje em dia, em pleno sec. XXI, o patriotismo, o sentido de dever e o espírito de sacrifício, são valores há muito abandonados nesta Europa decrépita e incapaz, pelo que encetar uma guerra no seu sentido tradicional se tornaria quase impossível, e ainda bem que assim o é.
A imagem das baixas militares e civis, dos bombardeamentos, das hordas de refugiados procurando desesperadamente salvar a vida, passou a ser-nos servida ao jantar, de preferência acompanhada de um suculento bife e um vinho de marca. A imagem tornou-se de tal maneira corriqueira, que desde que a guerra não seja "nossa", acabamos por vê-la como vemos qualquer super-produção de Hollywood, comentando com os nossos botões a sorte que temos em não viver em tão violentas paragens.
Mas na verdade estamos a viver uma guerra, não tão sanguinária como as guerras tradicionais, mas igualmente devastadora: A guerra dos Click's.
Se neste mundo globalizado e de interdependências absolutas, no qual o poder político acabou totalmente capturado pelo poder financeiro há algo de verdadeiramente real, é a capacidade de mover uma verdadeira guerra, com os mesmo objectivos, clicando apenas no rato do computador.
E assim as agências de "rating" determinam os juros que cada um vai pagar, baseadas em critérios de grande subjectividade, os especuladores afiam as garras, e com uma sanha de ganancia selvagem, atacam as dívidas soberanas dos Países económicamente mais débeis, enquanto que aqueles que poderiam e deveriam ser solidários, assobiam distraídamente para o lado, pensando apenas na sorte de não viverem nesses países, enquanto tal como nós, saboreiam o bife e a cerveja geladinha.
E assim, à custa do sacrifício e o sofrimento dos povos, de click em click, se vão arruinando nações, retirando-lhes a soberania, destruindo as suas economias, ferindo o seu tecido social, e tal como os traficantes de droga, fornecendo apenas o dinheiro suficiente para uma parca sobrevivência, aumentando os juros de tal modo que a dívida se torna imcumprivel, justificando "a posteriori" os pressupostos que serviram de base aos ataques iniciais.
Estamos pois em estado de guerra. Uma guerra aberta e feroz pela sobrevivência, em que só com o esforço, o patriotismo e espírito de sacrifico, conseguiremos levar a melhor.
No 1º de Dezembro de 1640, Miguel de Vasconcelos foi defenestrado por traição a Portugal. O hábito de assim castigar os traidores perdeu-se nas brumas do tempo, e por um lado ainda bem, pois se assim não fosse Portugal tornar-se-ia intransitável, tal a profusão de cadáveres a juncar o chão de Lisboa e não só.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

RESSUREIÇÃO DO "VELHO DA MONTANHA"

Nascido em 2003, este blogue foi posteriormente transferido para os blogues do Sapo, que me fizeram o supremo favor de o eliminar, perdendo assim muitos textos que teria gostado de recuperar. Paciência...
Após todos estes anos, decidi proceder à ressureição deste tão antigo blogue, dado que em virtude da minha reforma, vou tendo pouco para me entreter e o "Velho da Montanha" poderá contribuir para aplacar a proverbial neurastenia do "fareniente".
Alimentar um blogue, não é coisa fácil! Há que encontrar temas interessantese e a devida inspiração para os tratar de forma adequada, e isso, no dia em que se torna uma obrigação, torna-se simultâneamente num fardo que deixa de apetecer carregar.
Deste modo, tentarei ir actualizando o blogue de forma regular, mas enquanto não tomo o devido balanço, irei partilhar, via Facebook, alguns dos posts que na época, mais gostei de escrever.