segunda-feira, 6 de julho de 2015

NO EXTREMO DO ARCO-IRIS.

Texto escrito em 28.07.05

Na minha meninice, idade de todas as crenças e ingenuidades, sempre me foi dito que existia um pote de ouro no extremo do arco-íris.

Nessa época morava em frente ao mar, a escassos metros do tormentoso mas belo Oceano Atlântico. As dunas, varridas pelo vento espraiavam-se até ao limite da minha vista perdendo-se depois gradualmente nas neblinas típicas das praias nortenhas de forma um tanto ou quanto fantasmagórica.

Por alturas da Primavera, quando os fortes aguaceiros alternavam com o sol frio mas radioso e transparente, formavam-se com frequência vistosos e espectaculares arco-íris, por vezes duplos e até triplos.

Era nesses dias límpidos e frios que nos juntávamos ao fim do dia para observar magníficos ocasos na esperança de vislumbrar o mítico raio verde, fenómeno fugaz, que ao que se dizia, rutilava por breves fracções de segundo, no momento em que o ultimo pedacinho de sol mergulhava nas águas azuis prateadas do horizonte, lançando no espaço um brevíssimo brilho de cor verde.

Confesso que nesses tempos de credulidade nunca vi realmente o raio verde, embora por vezes, tanto eu como os meus irmãos jurássemos a pés juntos que o havíamos vislumbrado, para grande gáudio e satisfação do meu Pai que afiançava sempre a existência do efémero fenómeno.

Olhando os arco-íris da minha janela continuava ingenuamente a acreditar na possibilidade de existir um pote de ouro num dos seus extremos, embora se me afigurasse impossível procurá-lo, já que normalmente o seu início se localizava para lá da inultrapassável fronteira da via férrea e o seu fim caía inevitavelmente no meio da turbulenta e furiosa rebentação das vagas que continuamente fustigavam a praia.

Uma manhã, bem cedinho ainda, ao olhar pela janela deparei-me com uma situação extraordinária: A maré estava vazia, com as ondas bem recuadas para lá da barreira das escuras rochas, e um magnífico arco-íris, nascido sabe-se lá onde, terminava sobre a areia molhada a poucas dezenas de metros da minha casa, ali mesmo à mão de semear.

Vesti-me atabalhoadamente, desci as escadas a dois-e-dois e corri pelas dunas em direcção à praia e ao local onde terminava tão espantoso arco-íris.

Eram apenas algumas dezenas de metros, mas de forma misteriosa, quanto mais eu me aproximava do fim do arco-íris, mais ele subtilmente se afastava de mim, mantendo uma distância constante como se eu corresse sobre um tapete rolante.

Ofegante, continuei a correr até que me dei conta de que estava já longíssimo de casa e o arco-íris permanecia exactamente à mesma distância de mim.

Depois foi a desilusão. Um raio de sol mais forte provocou um ligeiro tremeluzir naquele maravilhoso caleidoscópio que se esfumou repentinamente como se nunca tivesse existido.

Nesse dia quando me deitei, percebi uma coisa importantíssima: O pote de ouro devia realmente existir no extremo do arco-íris, o problema é que este aparentemente tinha uma natureza inatingível, pelo que deveriam existir melhores formas de chegar ao pote de ouro.

Esta recordação, desgarrada e talvez um tanto espúria, fez-me reflectir um pouco sobre o rumo de Portugal e do seu Povo durante estes últimos trinta anos. Durante esta era de democracia, os Portugueses parece que ainda não se aperceberam da natureza do arco-íris e continuam em busca do seu fim à procura do almejado pote de ouro.

De tentativa em tentativa, os diversos governos têm arrastado o País nesta busca infrutífera. Começaram por construir estradas e auto-estradas na ânsia de encontrar uma das pontas do arco-íris, depois construíram um Centro Cultural para melhor se posicionarem para a sua localização. Vendo que isto a nada os levava, organizaram a Expo 98 e o Euro 2004 pensando que talvez assim tivessem mais sorte. Agora já cogitam perseguir o fim do arco-íris através de um caríssimo TGV e de um Aeroporto Faraónico.

Esquecem-se do essencial da questão: A natureza do arco-íris!

A sua existência é virtual e não passa de um fenómeno de refracção da luz através de minúsculas e efémeras gotas de água, razão pela qual, embora o vejamos num local perfeitamente definido, este mudará sempre de acordo com a nossa localização, pelo que, ainda acreditando que lá se encontra um pote de ouro, já desisti de o alcançar.

Ao invés disso, arranjei um bom trabalho, trabalhei, adequei as minhas ambições ao meu horizonte de possibilidades e com a maior das tranquilidades tornei-me num homem feliz, mesmo sem ter encontrado o ouro no fim do arco-íris.

Que pena o Povo Português não se conseguir munir de alguma simplicidade e perceber esta verdade tão básica e tão simples em vez de continuar a sua vã busca do pote de ouro - que inicialmente parecia residir na União Europeia - mas que na realidade se encontra na capacidade de trabalho e diligencia de cada um.

E no entanto não há impossíveis!

Há três anos, a bordo do ferry que liga Santander a Southampton, sentado no deck e beberricando uma cerveja, observava o pôr-do-sol no mar alto. Recostado na espreguiçadeira, sem tirar os olhos do sol que se punha, contava à minha mulher as antigas observações em família e a vã busca da observação do raio verde, acrescentando que aquela história provavelmente não passaria de mais um dos vários devaneios próprios e característicos do meu Pai.

O sol acabou de pôr, e para minha estupefacção, no momento em que o disco dourado mergulhou na falsa e traiçoeira calma do mar da Biscaia, num relâmpago fugaz e com o incomparável lampejo de uma esmeralda polida entrevi por um brevíssimo instante o raio verde em que não acreditava.

Pode ser que afinal o Povo Português encontre o seu pote de ouro no extremo do arco-íris, da mesma forma que eu encontrei o meu raio verde, não como um desígnio ou solução de vida, mas tão-somente como mera recompensa de um trabalho árduo e profícuo.

2 comentários:

Teresa Nascimento disse...

Uma maravilha o seu texto!
Também acreditei no pote de ouro...
Muito obrigado pela partilha.

albino zeferino disse...

Parabens Zé Maria. Não perdeste o tacto. O teu texto é bom, forte, profundo e cativante. Deverias continuar. Abraço do sempre amigo Albino Zeferino (correspondente diplomático aposentado).