terça-feira, 23 de junho de 2015

HIPOCRISIAS...

Texto escrito em  26.07.04

Infelizmente, ao longo da minha vida tenho sido confrontado com grandes hipocrisias.

Aqui há uns anos, no decorrer da minha actividade profissional, foi-me solicitado por certa senhora a execução de trabalhos de jardinagem em sua casa. Tratava-se de pessoa conhecida na nossa ridícula "society", nome sonante, com voluntariado conhecido e militante em várias instituições e senhora de uma respeitável fachada moral.

Como é comum nestes casos, enviei um jardineiro e um ajudante, dado o trabalho ser o adequado a esse tipo de equipa. Resta apenas acrescentar que o ajudante em causa era um jovem deficiente, a trabalhar comigo há já muitos anos, extremamente esforçado e aplicado, apesar das limitações específicas derivadas da sua deficiência.

Pouco tempo depois recebi um telefonema da cliente, que constrangida me pediu para substituir jovem deficiente. Afirmou que achava meritório que eu desse emprego a "esta gente", mas que em casa dela não dava pois "as crianças ficavam impressionadas."

Neguei-me terminantemente a fazer-lhe a vontade e o contracto terminou logo ali!

De tempos a tempos lá vou vendo a dita senhora, nos seus sociais "voluntariados", sendo entrevistada aqui e ali sobre a melhor maneira de ajudar o próximo (!).

Veio-me hoje esta história à cabeça após ter lido uma notícia no jornal "Público" acerca de umas pessoas que tentam combater por todas as formas e meios, uma pequena alteração num Centro para deficientes motores, destinada a dar-lhes mais conforto e operacionalidade, em suma, dar-lhes um pouco de qualidade de vida que infelizmente a vida lhes não deu. Invocando os mais mirabolantes argumentos que vão desde a violação do Plano Director Municipal (se fosse para fazer uma garagem para guardar o carro já o Plano Director decerto não interessaria) até à hipotética desvalorização das suas casas, tudo têm feito para, por trás de argumentos aparentemente objectivos, se eximirem à única razão realmente verdadeira: Os deficientes incomodam a sua pacata e burguesa existência!

Por acaso moro perto do local, conheço bem o Centro em questão, algumas pessoas que lá trabalham e alguns deficientes que lá habitam. Conheço também alguma da vizinhança que tanta sanha tem mostrado em relação ao projecto, e tal como a senhora da situação anterior, é tudo boa gente, solidária e bondosa... Desde que seja longe, é claro!

As obras foram legalmente autorizadas, as tentativas de embargo inviabilizadas por várias instâncias e mesmo assim, esta boa gente, amiga e solidária, afirma sem vergonha que recorrerá aos tribunais se necessário for.

Deus lhes dê muita saúde!

Se tiverem idade para ter filhos, que não lhes saia nenhum com uma deficiência. Se essa idade já tiver passado, não se esqueçam dos netos... Pois nunca saberemos o que o destino nos reserva!

Hipocrisias!

Bons cidadãos, conscientes, solidários, contribuintes de instituições e no entanto incapazes de conviver com o incómodo e a crueza do sofrimento alheio.

Nota:
Para que não fiquem dúvidas, a instituição visada por estes modelares cidadãos, que constituem a Associação de Moradores de Nova Oeiras, é o Centro Nuno Belmar da Costa e pertence à Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral.

domingo, 21 de junho de 2015

A TRANSCENDENTE IMPORTÂNCIA DO ÓBVIO.

Normalmente passamos uma parte da nossa Vida à espera de acontecimentos extraordinários.

O ritmo e forma de como a informação nos chega, molda-nos a atenção de forma a desprezar ou pelo menos minimizar – a importância do singelo, daquilo que é quotidiano e que, por assim dizer, acaba por constituir uma elevadíssima percentagem dos acontecimentos que se passam à nossa volta e também dos nossos próprios actos.

Diz-se que o jovem Sidartha, futuro Buda, a primeira vez que conseguiu sair da gaiola dourada que o protegia do mundo exterior, sentou-se debaixo de uma árvore observando um homem que esforçadamente conduzia um arado, puxado por uma poderosa junta de búfalos, lavrando um solo duro e difícil.

Enquanto Sidartha observava impressionado o esforço do homem, um pequeno pássaro sobrevoou a parte já arada do campo, e numa manobra rápida, apanhou um verme que se contorcia sobre o terreno seco.

Nesse momento Sidartha apercebeu-se de que todas as coisas no mundo estão relacionadas, pois se aquele homem não tivesse lavrado aquele campo, não teria desenterrado aquela minhoca, a qual não teria sido apanhada por aquele pássaro.

Possivelmente a minhoca teria sido poupada para continuar o seu misterioso destino na escuridão do subsolo e o pássaro ter-se-ia contentado com um insecto, o qual deixaria de polinizar uma série de plantas.

Esta constatação, embora de uma simplicidade cristalina, escapa-se-nos muitas vezes, pois a nossa atenção está mais virada para nós próprios do que para o papel que poderemos desempenhar no Mundo e na Sociedade.

Cada pequeno acto da Natureza ou da Vida, influencia de forma muito sub-reptícia todo o futuro do mundo. Muitos pequenos actos, relacionados e potenciados por outros pequenos actos ou acontecimentos, moldarão inevitavelmente o futuro, de uma forma tão sensível que esse mesmo futuro será sempre diferente se algum desses pequenos actos não for praticado.

De que forma podemos ajuizar quando a recusa de uma simples moeda a um mendigo, de um empréstimo a um amigo necessitado ou até a necessária montagem de uma ratoeira na nossa dispensa, poderá alterar o nosso futuro?

Jamais o poderemos avaliar!

Esta constatação acaba por nos atribuir responsabilidades mais pesadas, pois irá sempre obrigar-nos a ponderar todas as nossas acções e a olhar o Mundo e a Vida com redobrada atenção e sentido de responsabilidade.

Será pois talvez a hora de abrirmos os nossos sentidos e a nossa mente a tudo o que se passa à nossa volta, e sermos capazes de nos maravilhar com a simplicidade do que é óbvio e singelo.