quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

A MELANCOLIA DE UM DESENCANTO.

Texto publicado em 27 de Janeiro de 2005

Quando eu era “menino e moço” a política nunca foi uma prioridade para mim!

Não o era para mim, como também não o era para muitos dos chamados “Militares de Abril” que conheci nessas minhas meninice e adolescência.

A vigência do Estado Novo com toda a sua miríade de organizações juvenis, actividades lúdicas e moral institucional, a isso não só propiciava, como formalmente obrigava.

Militava eu na altura numa auto-denominada “Juventude Monárquica”, a quem o Regime não ligava nada, mas que nos dava um certo sabor a ilegalidade e risco subsequente. De facto pouco mais fazíamos do que lançar pequenos folhetos, duplicados manualmente, do alto do Elevador de Santa Justa, nos quais exaltávamos as virtudes da Monarquia perante uma Republica implantada pela maçonaria, através de um sangrento Regicídio.

No começo da adolescência falaram-me do socialismo!

Entusiasmado, partilhei com o meu Avô o que me parecia a justeza de um regime. Nessa noite, como por magia, surgiram na minha mesa de cabeceira as duas obras primas de Orwell: “Animal Farm” (estupidamente traduzido para português como “Triunfo dos Porcos”) e “1984”.

Devorados rapidamente os livros, apercebi-me de que estava definitivamente curado dessa potencial “primo-infecção” de cariz socialista.

O 25 de Abril apanhou-me em Angola, tornando inviável um certo tipo de futuro que eu ingenuamente engendrara. Regressado a Lisboa rapidamente me apercebi que os obreiros da denominada “Revolução dos Cravos”, outros não eram que velhos companheiros de escola e folguedos, aos quais os problemas laborais com que se debatiam no seio das suas carreiras militares, rapidamente foram politizados através de “sessões de esclarecimento” e outros “hapenings” de carácter político, sabiamente orquestrados pelo “esquerdalho” stalinista tão em voga na época.

Enfim, compreendi então que a política era imperativa e aceitei que o sistema democrático e o estado de direito corresponderiam realmente a um sistema justo e equitativo.

Segundo eu entendi, um sistema democrático possibilitava-nos a escolha, o que significava que o povo escolheria os seus representantes.

Rapidamente me apercebi que a tibieza e desconfiança reinantes na “Assembleia Constituinte” tinham produzido um tal aborto de Constituição, que muito mais importante do que o acto de escolher, era o acto de excluir, através da peregrina figura do "voto útil", que passados trinta anos ainda continua a fazer doutrina. Parecia-me um atentado ao conceito de democracia e à liberdade de escolha, mas enfim, levando em conta o Regime anterior, até que não era assim tão mau.

O tempo passou. O País “europeizou-se”, saiu daquela espécie de limbo em que se mantinha desde finais do Século XIX e… Ao que parece, tudo piorou!

No momento actual, no limiar de eleições legislativas importantíssimas, chego à conclusão que para lá de me ter sido retirado o direito de escolher, foi-me igualmente retirado o direito de excluir.

Afinal o que fazer? Escolher entre o muito mau e o péssimo? Abster-me? Votar em branco (que é o mesmo que me abster)? Vociferar? Insultar? Preparar atentados à bomba?
Francamente não sei o que fazer e o desencanto absoluto invade-me por todos os poros. O “establishment” da democracia instituída proclama que o voto é a arma do Povo, ao que os anarquistas ripostam, afirmando que se o Povo vota perde definitivamente a sua arma. Quase me inclino para concordar com estes últimos. Pelo menos não se escondem atrás de sofismas.

Ou me engano muito, ou quem vai ganhar estas eleições é o “partido” da abstenção, que basicamente colhe os seus “votos” no descontentamento, na descrença, na indiferença, na impotência e, basicamente, na revolta.

Que Deus nos proteja, pois pelo que me é dado constatar, estamos entregues à “bicharada”, o que com o actual sistema político nos condena a penar, vítimas da incompetência dos governantes, da incapacidade dos partidos, da voracidade das “jotas” e, principalmente, dos "sebastianismo" e passividade do Povo português.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

NO EXTREMO DO ARCO-IRIS.

Texto escrito em 28.07.05

Na minha meninice, idade de todas as crenças e ingenuidades, sempre me foi dito que existia um pote de ouro no extremo do arco-íris.

Nessa época morava em frente ao mar, a escassos metros do tormentoso mas belo Oceano Atlântico. As dunas, varridas pelo vento espraiavam-se até ao limite da minha vista perdendo-se depois gradualmente nas neblinas típicas das praias nortenhas de forma um tanto ou quanto fantasmagórica.

Por alturas da Primavera, quando os fortes aguaceiros alternavam com o sol frio mas radioso e transparente, formavam-se com frequência vistosos e espectaculares arco-íris, por vezes duplos e até triplos.

Era nesses dias límpidos e frios que nos juntávamos ao fim do dia para observar magníficos ocasos na esperança de vislumbrar o mítico raio verde, fenómeno fugaz, que ao que se dizia, rutilava por breves fracções de segundo, no momento em que o ultimo pedacinho de sol mergulhava nas águas azuis prateadas do horizonte, lançando no espaço um brevíssimo brilho de cor verde.

Confesso que nesses tempos de credulidade nunca vi realmente o raio verde, embora por vezes, tanto eu como os meus irmãos jurássemos a pés juntos que o havíamos vislumbrado, para grande gáudio e satisfação do meu Pai que afiançava sempre a existência do efémero fenómeno.

Olhando os arco-íris da minha janela continuava ingenuamente a acreditar na possibilidade de existir um pote de ouro num dos seus extremos, embora se me afigurasse impossível procurá-lo, já que normalmente o seu início se localizava para lá da inultrapassável fronteira da via férrea e o seu fim caía inevitavelmente no meio da turbulenta e furiosa rebentação das vagas que continuamente fustigavam a praia.

Uma manhã, bem cedinho ainda, ao olhar pela janela deparei-me com uma situação extraordinária: A maré estava vazia, com as ondas bem recuadas para lá da barreira das escuras rochas, e um magnífico arco-íris, nascido sabe-se lá onde, terminava sobre a areia molhada a poucas dezenas de metros da minha casa, ali mesmo à mão de semear.

Vesti-me atabalhoadamente, desci as escadas a dois-e-dois e corri pelas dunas em direcção à praia e ao local onde terminava tão espantoso arco-íris.

Eram apenas algumas dezenas de metros, mas de forma misteriosa, quanto mais eu me aproximava do fim do arco-íris, mais ele subtilmente se afastava de mim, mantendo uma distância constante como se eu corresse sobre um tapete rolante.

Ofegante, continuei a correr até que me dei conta de que estava já longíssimo de casa e o arco-íris permanecia exactamente à mesma distância de mim.

Depois foi a desilusão. Um raio de sol mais forte provocou um ligeiro tremeluzir naquele maravilhoso caleidoscópio que se esfumou repentinamente como se nunca tivesse existido.

Nesse dia quando me deitei, percebi uma coisa importantíssima: O pote de ouro devia realmente existir no extremo do arco-íris, o problema é que este aparentemente tinha uma natureza inatingível, pelo que deveriam existir melhores formas de chegar ao pote de ouro.

Esta recordação, desgarrada e talvez um tanto espúria, fez-me reflectir um pouco sobre o rumo de Portugal e do seu Povo durante estes últimos trinta anos. Durante esta era de democracia, os Portugueses parece que ainda não se aperceberam da natureza do arco-íris e continuam em busca do seu fim à procura do almejado pote de ouro.

De tentativa em tentativa, os diversos governos têm arrastado o País nesta busca infrutífera. Começaram por construir estradas e auto-estradas na ânsia de encontrar uma das pontas do arco-íris, depois construíram um Centro Cultural para melhor se posicionarem para a sua localização. Vendo que isto a nada os levava, organizaram a Expo 98 e o Euro 2004 pensando que talvez assim tivessem mais sorte. Agora já cogitam perseguir o fim do arco-íris através de um caríssimo TGV e de um Aeroporto Faraónico.

Esquecem-se do essencial da questão: A natureza do arco-íris!

A sua existência é virtual e não passa de um fenómeno de refracção da luz através de minúsculas e efémeras gotas de água, razão pela qual, embora o vejamos num local perfeitamente definido, este mudará sempre de acordo com a nossa localização, pelo que, ainda acreditando que lá se encontra um pote de ouro, já desisti de o alcançar.

Ao invés disso, arranjei um bom trabalho, trabalhei, adequei as minhas ambições ao meu horizonte de possibilidades e com a maior das tranquilidades tornei-me num homem feliz, mesmo sem ter encontrado o ouro no fim do arco-íris.

Que pena o Povo Português não se conseguir munir de alguma simplicidade e perceber esta verdade tão básica e tão simples em vez de continuar a sua vã busca do pote de ouro - que inicialmente parecia residir na União Europeia - mas que na realidade se encontra na capacidade de trabalho e diligencia de cada um.

E no entanto não há impossíveis!

Há três anos, a bordo do ferry que liga Santander a Southampton, sentado no deck e beberricando uma cerveja, observava o pôr-do-sol no mar alto. Recostado na espreguiçadeira, sem tirar os olhos do sol que se punha, contava à minha mulher as antigas observações em família e a vã busca da observação do raio verde, acrescentando que aquela história provavelmente não passaria de mais um dos vários devaneios próprios e característicos do meu Pai.

O sol acabou de pôr, e para minha estupefacção, no momento em que o disco dourado mergulhou na falsa e traiçoeira calma do mar da Biscaia, num relâmpago fugaz e com o incomparável lampejo de uma esmeralda polida entrevi por um brevíssimo instante o raio verde em que não acreditava.

Pode ser que afinal o Povo Português encontre o seu pote de ouro no extremo do arco-íris, da mesma forma que eu encontrei o meu raio verde, não como um desígnio ou solução de vida, mas tão-somente como mera recompensa de um trabalho árduo e profícuo.

terça-feira, 23 de junho de 2015

HIPOCRISIAS...

Texto escrito em  26.07.04

Infelizmente, ao longo da minha vida tenho sido confrontado com grandes hipocrisias.

Aqui há uns anos, no decorrer da minha actividade profissional, foi-me solicitado por certa senhora a execução de trabalhos de jardinagem em sua casa. Tratava-se de pessoa conhecida na nossa ridícula "society", nome sonante, com voluntariado conhecido e militante em várias instituições e senhora de uma respeitável fachada moral.

Como é comum nestes casos, enviei um jardineiro e um ajudante, dado o trabalho ser o adequado a esse tipo de equipa. Resta apenas acrescentar que o ajudante em causa era um jovem deficiente, a trabalhar comigo há já muitos anos, extremamente esforçado e aplicado, apesar das limitações específicas derivadas da sua deficiência.

Pouco tempo depois recebi um telefonema da cliente, que constrangida me pediu para substituir jovem deficiente. Afirmou que achava meritório que eu desse emprego a "esta gente", mas que em casa dela não dava pois "as crianças ficavam impressionadas."

Neguei-me terminantemente a fazer-lhe a vontade e o contracto terminou logo ali!

De tempos a tempos lá vou vendo a dita senhora, nos seus sociais "voluntariados", sendo entrevistada aqui e ali sobre a melhor maneira de ajudar o próximo (!).

Veio-me hoje esta história à cabeça após ter lido uma notícia no jornal "Público" acerca de umas pessoas que tentam combater por todas as formas e meios, uma pequena alteração num Centro para deficientes motores, destinada a dar-lhes mais conforto e operacionalidade, em suma, dar-lhes um pouco de qualidade de vida que infelizmente a vida lhes não deu. Invocando os mais mirabolantes argumentos que vão desde a violação do Plano Director Municipal (se fosse para fazer uma garagem para guardar o carro já o Plano Director decerto não interessaria) até à hipotética desvalorização das suas casas, tudo têm feito para, por trás de argumentos aparentemente objectivos, se eximirem à única razão realmente verdadeira: Os deficientes incomodam a sua pacata e burguesa existência!

Por acaso moro perto do local, conheço bem o Centro em questão, algumas pessoas que lá trabalham e alguns deficientes que lá habitam. Conheço também alguma da vizinhança que tanta sanha tem mostrado em relação ao projecto, e tal como a senhora da situação anterior, é tudo boa gente, solidária e bondosa... Desde que seja longe, é claro!

As obras foram legalmente autorizadas, as tentativas de embargo inviabilizadas por várias instâncias e mesmo assim, esta boa gente, amiga e solidária, afirma sem vergonha que recorrerá aos tribunais se necessário for.

Deus lhes dê muita saúde!

Se tiverem idade para ter filhos, que não lhes saia nenhum com uma deficiência. Se essa idade já tiver passado, não se esqueçam dos netos... Pois nunca saberemos o que o destino nos reserva!

Hipocrisias!

Bons cidadãos, conscientes, solidários, contribuintes de instituições e no entanto incapazes de conviver com o incómodo e a crueza do sofrimento alheio.

Nota:
Para que não fiquem dúvidas, a instituição visada por estes modelares cidadãos, que constituem a Associação de Moradores de Nova Oeiras, é o Centro Nuno Belmar da Costa e pertence à Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral.

domingo, 21 de junho de 2015

A TRANSCENDENTE IMPORTÂNCIA DO ÓBVIO.

Normalmente passamos uma parte da nossa Vida à espera de acontecimentos extraordinários.

O ritmo e forma de como a informação nos chega, molda-nos a atenção de forma a desprezar ou pelo menos minimizar – a importância do singelo, daquilo que é quotidiano e que, por assim dizer, acaba por constituir uma elevadíssima percentagem dos acontecimentos que se passam à nossa volta e também dos nossos próprios actos.

Diz-se que o jovem Sidartha, futuro Buda, a primeira vez que conseguiu sair da gaiola dourada que o protegia do mundo exterior, sentou-se debaixo de uma árvore observando um homem que esforçadamente conduzia um arado, puxado por uma poderosa junta de búfalos, lavrando um solo duro e difícil.

Enquanto Sidartha observava impressionado o esforço do homem, um pequeno pássaro sobrevoou a parte já arada do campo, e numa manobra rápida, apanhou um verme que se contorcia sobre o terreno seco.

Nesse momento Sidartha apercebeu-se de que todas as coisas no mundo estão relacionadas, pois se aquele homem não tivesse lavrado aquele campo, não teria desenterrado aquela minhoca, a qual não teria sido apanhada por aquele pássaro.

Possivelmente a minhoca teria sido poupada para continuar o seu misterioso destino na escuridão do subsolo e o pássaro ter-se-ia contentado com um insecto, o qual deixaria de polinizar uma série de plantas.

Esta constatação, embora de uma simplicidade cristalina, escapa-se-nos muitas vezes, pois a nossa atenção está mais virada para nós próprios do que para o papel que poderemos desempenhar no Mundo e na Sociedade.

Cada pequeno acto da Natureza ou da Vida, influencia de forma muito sub-reptícia todo o futuro do mundo. Muitos pequenos actos, relacionados e potenciados por outros pequenos actos ou acontecimentos, moldarão inevitavelmente o futuro, de uma forma tão sensível que esse mesmo futuro será sempre diferente se algum desses pequenos actos não for praticado.

De que forma podemos ajuizar quando a recusa de uma simples moeda a um mendigo, de um empréstimo a um amigo necessitado ou até a necessária montagem de uma ratoeira na nossa dispensa, poderá alterar o nosso futuro?

Jamais o poderemos avaliar!

Esta constatação acaba por nos atribuir responsabilidades mais pesadas, pois irá sempre obrigar-nos a ponderar todas as nossas acções e a olhar o Mundo e a Vida com redobrada atenção e sentido de responsabilidade.

Será pois talvez a hora de abrirmos os nossos sentidos e a nossa mente a tudo o que se passa à nossa volta, e sermos capazes de nos maravilhar com a simplicidade do que é óbvio e singelo.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

SEMENTES DE VIOLÊNCIA (?!)

Texto escrito em Junho de 2007

Lembro-me de um divertidíssimo conto (penso que da autoria de Robert Heinlein), no qual era relatada a chegada à Terra dos Venusianos, já muito anos após a extinção da Raça Humana.

Os arqueólogos Venusianos, entre os vários artefactos que encontraram, deram com uma caixa de lata cujo interior guardava uma película com fotografias sequenciadas, que eles rapidamente deduziram que se fossem projectadas a um determinado ritmo, mostrariam como era a Vida na Terra e de que forma os Terráqueos se comportavam.
Foi então construído um aparelho que permitia a projecção da película encontrada e que deveria esclarecer o mistério da extinção da humanidade.

No dia da projecção, perante uma plateia erudita e impaciente, lá puseram a máquina em movimento e com assombro assistiram a uma pequena, e incompreensível sequência de imagens, nas quais uns personagens pequenos corriam desesperadamente e se agrediam no meio de uma inominável guincharia, batendo com paus, fazendo explodir bombas ou empurrando-se por precipícios.

Quando terminou a projecção, a plateia havia emudecido. Como teria sido possível a uma raça com semelhante comportamento ter tido uma permanência tão longa na Terra. O mistério tornou-se insolúvel, pois apesar da sua ciência e sapiência, os Venusianos nunca conseguiram traduzir ou apreender o significado dos símbolos com que terminava a película e que rezava: “Walt Disney Productions”.

Vem esta reflexão a propósito de tudo o que se tem dito acerca do efeito pernicioso dos videojogos, muito concretamente do “Manhunt 2” que foi proibido na Inglaterra e tem despertado discussão em vários países.

Penso que ninguém achará que advogo a violência, mas a verdade é que não entendo semelhantes alarmismos.

Na minha geração, para além das brigas frenéticas da família Donald (provavelmente o que havia sido visionado pelos Venusianos), lembro-me bem das brutalidades que recaíam sobre o pobre Coyote, levadas a efeito pelo esperto e perseguido Road Runner.A minha geração assistiu com entusiasmo à versão que Hollywood forneceu sobre o genocídio dos índios Norte Americanos, sendo que os heróis sempre foram os mais violentos exterminadores. O advento dos filmes realistas pôs-nos em contacto com personagens como “Hannibal, the Canibal” com direito a nomeação para Oscar’s e tudo.Hoje em dia servem-nos à hora do jantar a violência verídica dos massacres de Bagdad, da faixa de Gaza e do Afeganistão, sem se coibirem de apresentar as chocantes imagens de corpos desmembrados e ensanguentados: É a violência que normalmente nos acompanha o bife, fazendo-nos apenas desviar o olhar, por incomodidade insanável, quando nos apresentam famintos refugiados que se esgadanham por um punhado de farinha.

Todo este arrazoado vem a propósito das recorrentes reacções das sociedades em relação aos videojogos e outros conteúdos, como por exemplo o já clássico “Dragon Ball Z".

Em primeiro lugar, embora possa criticar o mau gosto, acho que as editoras podem publicar o que quiserem sem que ninguém tenha nada a ver com isso. Estas reacções semi-histéricas de sociedades, já de si problemáticas, parecem esquecer-se da obrigação de vigilância que os Pais devem exercer sobre os Filhos, aconselhando-os em relação aos conteúdos dos seus objectos lúdicos, e não remeter essa obrigação para um Estado que se quer democrático e pouco interventivo na nossa vida pessoal.

Por outro lado parece-me que está por provar que haja uma relação directa entre os conteúdos violentos e as acções congéneres, sendo até que alguns psicólogos defendem que este tipo de conteúdos apenas serve para aliviar as tensões de um mundo já de si muito agressivo.

Se na realidade houvesse alguma relação directa entre as coisas, provavelmente eu seria um monstro, já que fui exposto ao panegírico do genocídio dos índios, às maldades do Tom sobre o Jerry, às histerias da família Donald, aos infortúnios do Coyote, à brutalidades do Dirty Harry – magistralmente interpretado por Clint Eastwood – e a outros tantas cenas de violência, tais como os desmembramentos levados a cabo pelo Alien, Etc... Alem disso confesso que não foram poucas as vezes que me entretive a jogar o “Doom”, no qual os Nazis espichavam sangue sempre que baleados ou esfaqueados.

Manifestamente, ao longo dos meus já muitos anos de vida, não foram estes estereótipos que me modificaram. Na realidade, o que gera em mim uma certa dureza e impiedade são as notícias que a televisão me mete em casa nas “Nine o´’Clock News” que tão bem Simon & Garfunkel corporizaram nos anos 60 ao editarem um disco, cantando a clássica natalícia música “Noite Feliz”, tendo como fundo o noticiário real das 21H da CBS, do dia 25 de Dezembro, relatando as baixas e os horrores da guerra no Vietnam e de todas as tragédias que nesse dia grassavam pelo globo.

Em vez de se preocuparem com o que os outros fazem, preocupem-se antes em acompanhar e aconselhar os vossos filhos, pois esta é a única forma de os proteger.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

TAL E QUAL COMO PILATOS.

Escrito em Outubro 16, 2005

Todos nós vimos, uns com mais horror, outros com menos, as chocantes imagens dos imigrantes clandestinos que demandavam o “El Dorado” Europeu através das fronteiras de Ceuta e Melilla.
Na minha perspectiva, a única razão que leva o Ser humano a enfrentar uma selvática repressão, a rasgar as carnes nas cercas de arame farpado e lançar-se no vazio de alturas superiores a três metros, só pode radicar na certeza quase absoluta de que para trás fica uma miséria insuportável ou uma morte quase certa.
As imagens pungentes de repatriados, algemados e enfiados em camionetas, chorando e gritando como crianças, não pode deixar indiferente, nem o mais duro dos corações. A mesma lógica que preside às grandes manadas de gnus que atravessam em massa os rios africanos em direcção ao Serengueti, sabendo que vários indivíduos serão fatalmente sacrificados aos crocodilos para que o grosso da manada consiga passar, transposta de forma cruel para a raça humana, não só é deveras dramática como fere profundamente a dignidade de qualquer ser humano.
Na última grande “vaga” que tentou transpor as barreiras erguidas pelas exigências do famoso espaço Schengen, a “Guardia Civil” manifestou o seu espanto pelo facto dos indivíduos envolvidos terem reagido às balas de borracha e bastões, à paulada e à pedrada.
Realmente, até esse momento, os desgraçados esfaimados, cansados e explorados por engajadores, tinham-se limitado a levar pancada com humildade e estoicismo. Ao que parece, o facto de se tentarem defender foi um facto novo e alarmante.
E realmente é alarmante, pois se insistirem numa política de defesa fronteiriça relegada para a sua última linha, é possível que um dia, em vez de paus e pedras comecem a levar com granadas e fogo de AK-47 com umas morteiradas à mistura.
A Europa, incluindo este nosso Portugal, para além de se condoer de forma ligeira com este inominável sofrimento alheio, encolhe os ombros, e como Pilatos lava daí as suas mãos, enviando para o local uma “missão técnica”, seja lá o que isso for, considerando basicamente que esse é um problema Espanhol e que será a Espanha a ter de o resolver.
A verdade é que a Europa, e o Ocidente em geral, ainda não se compenetraram de que grande parte do seu bem-estar só é possível à custa da miséria dos países mais pobres.
Para não ir mais longe, basta referir as situações escândalosas provocadas pela PAC e pelos subsídios ao algodão dos EUA, que lançam na miséria as economias agrícolas do 3º mundo para que os agricultores Americanos e Europeus se possam passear regaladamente nos seus Mercedes ou BMW’s, escutando CD's de alta qualidade e disfrutando do conforto do ar condicionado.
Parece um discurso de esquerda, não parece? Mas não é! Não passa de um discurso realista.
Para além de qualquer sentimento humanitário que possa aflorar à nossa tão degrada consciência, trata-se basicamente de uma questão de sobrevivência. Não se esqueçam de que os pobres e miseráveis são em muitíssimo maior numero do que os remediados, ricos e riquíssimos ocidentais e no dia em que a sua sobrevivência imediata estiver em perigo absoluto, marcharão decidida, paulatina e tragicamente em direcção ao que consideram a solução dos seus problemas imediatos, sem olhar a mortos e feridos de um ou de outro lado, tal como os gnus no Serengueti durante a travessia dos rios.
No fim da II Guerra Mundial, a clareza de alguns políticos Americanos apercebeu-se rapidamente de que só conseguiria manter a paz no dito “mundo civilizado” através do seu progresso económico e social. Assim nasceu o plano Marshall e o plano de reabilitação do Japão. Os resultados são conhecidos: A Europa reconstruiu-se, reequipou-se e apesar da sua postura mal-agradecida ao “amigo Americano”, enriqueceu. O mesmo se passou no Japão, o qual se tornou um dos mais fortes e imprescindíveis aliados dos EUA.
Enquanto o G8, e os povos Ocidentais no seu geral, não se aperceberem de que a paz no mundo depende de um módico de bem-estar e sobrevivência do resto da população mundial, jamais haverá paz e sossego neste planeta. Por muito que subam as barreiras de Ceuta e Mellilla para seis metros de altura, as electrifiquem e disparem indiscriminadamente para o “lado de lá”, eles hão de entrar na Europa, a bem ou a mal.
Deixem-se de pruridos, arregacem as mangas e abram os cordões à bolsa. Utilizem sem considerações o consagrado “direito de ingerência humanitária”, já reconhecido pela ONU, ataquem o problema na sua origem, tirem de vez do poleiro os governantes corruptos e façam chegar os necessários meios técnicos e financeiros às populações, acabem com o escândalo do subsídio às agriculturas ricas e usem esse dinheiro para subsidiar as agriculturas pobres.
Enfim… Por uma vez na vida, tenham os tomates no sítio!
Enquanto os Europeus andarem preocupados com os seus “direitos adquiridos”, com as preocupações sociais viradas apenas para o seu umbigo e continuarem a lavar as suas mãos, como fez Pôncio Pilatos, em relação aos dramas insuportáveis que se passam fora do seu “quintal”, bem podem aspirar à Paz e ao Bem-estar, pois com esta forma de actuar jamais os irão alcançar.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

MORRENDO NA PRAIA...

Desenho de Vasco Gargalo
Com o distanciamento possível, de pouco mais de uma semana, está na altura de nos interrogarmos porque é que o Mediterrâneo, mais do que um cemitério, se transformou numa verdadeira vala comum.

Urge também, a bem da humanidade, migrantes incluídos, reflectir em tão dramática situação.

Há que começar pelo princípio, e não pelo fim de toda esta tão triste e sórdida história. Os migrantes que são enfiados em botes para atravessarem a estreita faixa de mar que os separa de Lampedusa ou da Sicília, já constituem um verdadeiro escol, a nata daqueles que se aventuraram a empreender tão perigosa aventura, num verdadeiro processo de selecção natural. São pois os sobreviventes de travessias da selva e do deserto e de várias situações de rebelião e guerra, que pela mão de engajadores sem escrúpulos, conseguem chegar vivos à miragem de uma terra onde corre o leite e mel, e que na verdade não passa de um mito em que por vezes os próprios Europeus querem acreditar.

Deixaram para trás as famílias, venderam os seus parcos haveres, por vezes umas vacas ou umas cabras, e puseram esse dinheiro na mão dos modernos negreiros, que não hesitam em espancar, maltratar ou simplesmente abandonar à sua sorte, quem por razões de disciplina ou saúde interfira com os seus planos ou calendários.

Começaram por fugir da miséria, mas com o agravamento dos conflitos étnico/políticos e religiosos, começaram a fugir com o singelo e mais do que compreensível propósito, que é o de salvarem as suas próprias vidas. Movimentos como o Estado Islâmico no Médio Oriente, o Boko Haram na Nigéria e os extremistas Sudaneses no Kénia entre muitos outros, tornaram-se um perigo incontornável para aquelas gentes... Que fazer então senão fugir?

Do lado de cá da barricada, nesta Europa mal nascida e governada por incompetentes, a Comunicação Social esfrega as mãos de alegria, já que tem notícias palpitantes sobre morte e sofrimento, em vez da insípida e desinteressante política doméstica, sempre igual, apenas agitada por leves tremores quando algum Grego se lembra de dizer que não paga a dívida.

Há tempos, o Papa Francisco escandalizou-se com a indiferença pelas mortes ao largo de Lampedusa, em contraste com as emoções excitadas pelo facto da Bolsa de Milão ter caído 2%... E quanta razão tem este Papa humanista, admirado transversalmente por católicos, outros cristãos, agnósticos e até ateus!

Não falta quem vitupere a Europa e a América, afirmando que ao incentivar e ajudar à queda de Kadafi, abriu de par em par as portas aos migrantes, esquecendo por vezes que esse homem não era mais do que uma espécie de guarda fronteiriço, que enxotava sem dó nem piedade os migrantes, que em vez de morrem à vista da Europa, tristemente iam morrer longe, de fome, de sede ou às mãos dos seus algozes.

Perante o escândalo geral, lá se reuniram à pressa os líderes Europeus e acabaram por produzir um documento lamentável, que evocando finalidades humanitárias, apenas resulta de um reforço de meios aero-navais para impedir as travessias. Uma vaguíssima intenção de combater as redes de tráfico e a destruição dos barcos passíveis de fazer a curta viagem, como a maior parte das declarações deste tipo, não passará do papel. A única coisa certa, é que a pressão sobre os migrantes vai aumentar, empurrados para o mar pelos traficantes por um lado e enxotados para campos de refugiados pelos Europeus pelo outro. A decisão de dar asilo a 5.000 migrantes e repatriar os restantes, uma vez que existe a expectativa de que possam atingir o meio milhão, significa condenar a priori 495.000 seres humanos, senão à eminência de uma morte violenta, ao regresso à miséria mais absoluta, já que se desfizeram de tudo o que tinham para pagar aos negreiros. 

Isto é intolerável!

Que fazer então? A situação, infelizmente, tem aspectos quase irresolúveis, pelo menos no actual contexto em que o Mundo vive.

Abrir as portas sem excepção, seria suícidário: Não só uma imigração maciça transportaria com ela os problemas de que esta gente foge, como iria criar novos problemas com as sociedades onde fossem fixados, com todas as dificuldades culturais e de integração que já são sobejamente conhecidas.

A proposta, mais bem intencionada se bem que utópica, consistiria em  tentar resolver os problemas na sua origem. Mas como? Contar com a colaboração dos Governos locais, é impossível. Em boa parte são eles próprios a exercer a violência, sendo que alguns estão mesmo indiciados pelo TPI, os outros jamais assumiriam a incapacidade de resolver os seus problemas internos. Financiar esses estados apenas significaria o enriquecimento escandaloso das oligarquias dominantes, não sustendo a miséria, logo não quebrando o fluxo migratório.

Alguma coisa poderia ser feita em relação ao tráfego, já que se instalou uma sociologia própria nos campos de refugiados, os quais começam já a ser dominados por sicários e colaboradores das redes magrebinas e não só, a partir dos quais se poderia começar a investigar as redes e o seu funcionamento. Enfim, infelizmente é quase como assistir de forma impotente a um verdadeiro genocídio com vista à extinção de um dado tipo de seres humanos.

Se os mais influentes países da ONU não andassem mais preocupados com a ingerência política, acesso a matérias primas, fontes energéticas, etc... poderia remotamente haver a esperança que por pressão política, diplomática ou mesmo militar, alguma coisa poderia vir a ser feita no sentido de melhorar um pouco a vida destas desgraçadas criaturas. Infelizmente, a conjuntura é exactamente a oposta!



Com a consciência roída pela incapacidade das sociedades e políticos ocidentais serem capazes de resolver tão dramático problema, restará aos Homens de boa vontade, assistindo impotentes a este pesadelo, endereçar uma prece aos céus para que algum tipo de divindade ajude estes migrantes e os poupe ao desespero, de depois de tanto sofrimento, trabalho e indignidades, verem simplesmente as suas esperanças morrerem inglóriamente na praia.