sexta-feira, 21 de junho de 2013

A AURORA DOS DESVALIDOS

Ao que parece, ninguém ficou espantado com as manifestações na Turquia. Foi fácil de entender que existiam duas Turquias em confronto: Uma mais progressista e ocidentalizada e uma outra conservadora e de tendência islâmica.
Para o comum dos Ocidentais, este era um confronto natural, algo que opunha a modernidade a um Islão bafiento e castrador, desrespeitador dos direitos humanos e da igualdade de género. No fundo, todos compreenderam o problema da sociedade Turca, que como é bom de ver, não se resumia à re-urbanização da praça Thair.

Já quando o fenómeno se replicou no Brazil, já se extremaram aí as posições, havendo pessoas que o conotaram com grandes movimentos sociais de tendência anarquista e esquerdizante, ignorando totalmente que 30 milhões de Brazileiros entraram na classe média nos últimos 20 anos, logo com acesso a informação e tecnologias A que antes não tinham acesso, fenómeno aliás que, mais tarde ou mais cedo haverá de ser replicado na China.

Claro que o “Black Block” lá apareceu a partir montras e a incendiar carros, como tem aparecido em todo o lado em que se esboce o mais pequeno movimento de carácter social. Normalmente são uma centena no meio de milhares, mas atraem as câmaras de vídeo e os fotógrafos,como uma lâmpada atrai as borboletas noturnas, e claro, os “media” adoram apresentar a versão violenta, nunca a versão pacífica.

Com estas duas explosões sociais, parece termo-nos esquecido de vários movimentos do mesmo tipo, passados em vários países da Europa, para já não falar da aparentemente tão distante Primavera Árabe.

O que se passa,é uma profunda desadequadação das nossas democracias, ditas Ocidentais, com o seu organigrama rígido e arcaico, às novas formas de comunicação, congregação e mobilização que têm tido origem na internet.

Aliás parecemos estar esquecidos que logo no dia seguinte aos ataques da Al Qaeda na estação de Atoxa em Madrid, José Maria Aznar foi liminarmente apeado do poder, através de SMS’s que o acusaram, e com justiça, de mentir ao povo Espanhol sobre a autoria dos atentados, e assim, Zapatero apanhou o poder por acaso, dado que estava muito atrás de Aznar nas sondagens.

Para qualquer observador mais atento, este caso poderia ter indiciado o que aí vinha, mas convenhamos que os políticos contemporâneos não primam pela sua atenção ao que se passa fora dos seus casulos de poder tecidos em interesses e ambições pessoais.

A fraude em que consiste a base das Democracias Ocidentais, radica na ideia que basta votar de vez em quando em políticos escolhidos pelas chefias, ter algum activismo sindical ou institucional, para que a Democracia seja plena e funcione regularmente.

A verdade é que não o é!

Embora apregoem com veemência a liberdade de expressão, antes das novas tecnologias, raros eram os que tinham acesso a orgãos de informação, pelo que a liberdade de expressão pouco mais era do que aquilo que era dito em conversas de café, jantares de curso ou durante um jogo de sueca.

Subitamente, com o crescimento explosivo de utilizadores das redes socias, com destaque para o Facebook e Twitter, a liberdade de expressão assumiu foros anteriormente inimagináveis, e a capacidade de mobilização, por uma vez, passou a residir na Sociedade Civil no seu geral, que é como dizer, na ponta dos dedos de cada indivíduo.

As petições públicas proliferaram como cogumelos, sendo facílimo atingir por via electrónica o numero de assinaturas mínimo, que anteriormente em muito restringiam a sua chegada aos parlamentos. Brotaram movimentos cívicos com fartura e vastas multidões conseguiram ser mobilizadas para aquilo a que o “stablishment” político, timoratamente apelidou de movimentos inorgânicos.

A incapacidade de lidar com este fenómeno traz consigo uma enorme necessidade de inovar os procedimentos políticos. Queixam-se os responsáveis de que, sendo estes movimentos inorgânicos, não há verdadeiramente interlocutores com quem negociar, e esse é o grande desafio: Quando o Povo não se sente representado pelos seus políticos, não existe negociação possível. Apenas há que escutar com atenção a “Rua” e atentar nos grandes anseios dos cidadãos, procurando inflectir as insatisfações, senão totalmente, pelo menos parcialmente.

A arrogância política tem de dar lugar à humildade do Serviço Público, e os Governos terão de agradar mais aos seus cidadãos do que às clientelas, nacionais ou internacionais que, como moscas, gravitam à sua volta. Será possível admitir que uma Europa inteira esteja a sofrer privações em função das eleições Alemãs???

Claro que seria ingenuidade pensar que os políticos do “stablishment” não tentam calvagar esta onda. Claro que o fazem, e a maior parte das vezes sem nenhuma vergonha na cara e com a conivência promíscua da Comunicação Social, o que aliás os afasta cada vez mais das suas bases sociais, coisa que parece não terem ainda entendido.

De um modo geral, o Homem é conservador e as Sociedades não são propensas a grandes mudanças, a não ser quando a corda estica demais e o divórcio entre elas e a classe política se torna irreversível. Esperemos portanto que exista um mínimo de inteligência para entender que algo tem de mudar.

Mudar e mudar muito!

O poder político tem de deixar de viver em mancebia com o poder económico pelo qual se deixou capturar. Como bem notou o movimento “Occupy Wall Street”, têm de ser os 99% a mandar e não o 1% que actualmente detém o poder. Os Governos e restantes poderes institucionais, reféns de sistemas partidários obsoletos e de constituções monolíticas que não conseguem acompanhar a velocidade dos tempos, têm de perder o monopólio absoluto que exercem sobre a vida política e deixar que sejam os cidadãos a escolher os seus representantes legítimos, coisa que com o sistema parlamentar representativo, raramente, ou nunca acontece.

Em boa verdade, todas as velhas teorias políticas, apoiadas em teorias económicas completamente obsoletas, elaboradas em alturas em que não existia dinheiro virtual nem as famosas “off-shore”, já não servem, principalmente a uma juventude que nasceu com as novas tecnologias e as entende como uma realidade da sua vida e uma arma para condicionar o poder político. É bom pois que a classe política faça um rápido “upgrade” aos seus processos e comece a lidar com estas novas realidades, pois como qualquer grande mudança social, esta tanto pode trazer benefícios se inteligentemente entendida, como trágicas consequências se olimpicamente ignorada.